Eduardo Graça

Perfis

Perfil: Geoffrey Rush

Um grande ator em nobre papel
Por Eduardo Graça

Geoffrey Rush usa, sem pestanejar, a palavra vergonha para dimensionar seu desconhecimento até o momento em que leu o roteiro de “A Menina Que Roubava Livros”, adaptação do best-seller do australiano Markus Zusak, lançado em 2005, traduzido para mais de 30 idiomas, com mais de oito milhões de cópias vendidas até aquele momento. “Li e corri para a livraria mais próxima – o ator vive no subúrbio de Melbourne, em sua Austrália natal – porque não conseguia entender como um escritor australiano havia tido a capacidade de criar uma história tão realista passada no sul da Alemanha, durante a Segunda Guerra. Estava tão fascinado quanto honestamente intrigado. Aí fui aos poucos percebendo que há algo na linguagem dele, um certo pendor pelo audaz, que me fez reconhecer, em sua voz, algo que, vá lá, vou chamar de ‘australiano’. E decidi que iria, sim, encarnar o Hans.”

Hans é um dos dois protagonistas adultos do filme que estreia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros e é, assumidamente, uma produção comovente, que exige do espectador um lenço nas mãos. O filme conta a história da menina órfã Liesel, que passa a viver, no meio da Segunda Guerra, com o casal formado pelo carinhoso Hans (Rush) e a aparentemente dura Rosa (Emily Watson). Esta sustenta a casa. Por causa das divergências políticas e morais de Hans com o nazismo imperante, ele passa boa parte do tempo exercitando seus dotes musicais e tentando transformar a infância da filha adotiva – vivida pela excelente atriz canadense Sophie Nélisse, conhecida do público brasileiro por “O Que Traz Boas Novas”, indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012. São personagens fortes, cujo destino, não por acaso, é apresentado ao público do ponto de vista de um narrador peculiar, presente no livro e, de forma quase física, na Europa dos anos 1930 e 40: a morte.

“É uma das singularidades mais interessantes da criação do Markus. E me ajudou muito a construir o personagem. A Morte narradora fala, por exemplo, no livro, que Hans tem ‘olhos de prata’. É impossível, você vai me dizer, com razão, recriar esses ‘olhos de prata’, mas há algo nessa imagem, algo de subliminar, que me ofereceu um certo ritmo para atuar”, diz o ator de 62 anos, notabilizado no teatro, que, a partir da segunda metade dos anos 90, se tornou referência em grandes desempenhos no cinema americano. Pense tanto no Philip Henslowe de “Shakespeare Apaixonado” quanto no sir Francis Walsingham de “Elizabeth”, passando, e por que não, pelo Barbossa da franquia “Piratas do Caribe”.

Rush finalmente foi apresentado ao autor do fenômeno “A Menina Que Roubava Livros” em um dos sets de filmagem da produção hollywoodiana, quiçá o mais icônico deles, em Berlim. A conversa durou algumas horas e o ator mostrou ao escritor seu exemplar todo rabiscado, com anotações a ser reproduzidas na tela com impressionante exatidão. “O livro foi minha fonte maior de pesquisa. Ora, imagine uma obra de 500 páginas transformada em um roteiro de pouco mais de 100. Houve, necessariamente, um trabalho imenso de compressão dos fatos imaginados pelo Markus. Marquei pelo menos 20 páginas inteiras em que ele ‘pensava’ o Hans internamente, em que ia além dos diálogos. Aquele foi meu guia. Eu preciso, sempre, ultrapassar os limites dos diálogos”, diz.

Uma das cenas mais bem resolvidas é a da chegada da menina Liesel à casa de seus novos pais, depois de uma separação traumática de sua mãe biológica e seu irmão mais novo. No livro, Zusak descreve a criança vendo o rosto de Hans e pensando em um relógio-cuco. Rush tentou – e conseguiu – reproduzir, seja lá o que de fato o escritor quis dizer com o termo, a imagem de uma face ao mesmo tempo antiga, amável e pronta para surpreender os incautos.

“Foi extremamente importante filmar na Alemanha. Havia outros países, como Romênia e a República Tcheca, que ofereciam incentivos fiscais para nós. Mas o diretor Brian Percival insistiu com o estúdio: precisamos filmar em Berlim. E foi fascinante filmar nos estúdios de Babelsberg. Quando vivi em Paris, nos meus 20 e poucos anos, era um rato das cinematecas da cidade e vi tudo produzido em Babelsberg, que lá estava à minha disposição. Tudo de Fritz Lang, de F.W. Murnau, de G.W. Pabst, do jovem Billy Wilder, de Sternberg. Foram artistas que me informaram, que me formaram. E a produção do nosso filme recriou lá, naquele local sensacional, uma típica cidade alemã da época. Foi impressionante”, conta.

A temporada passada na Alemanha sob a identidade de um homem lidando com a difícil decisão de se considerar um patriota, mas inimigo sutil do Reich, disposto a arriscar a segurança da família para abrigar um refugiado judeu em casa, levou Rush a pensar nas relações possíveis entre o ator australiano, casado, pai de dois filhos, e o atormentado Hans. Pelo lado materno, suas raízes estão nos principados alemães da pré-unificação. Sua família imigrou para New South Wales, na Austrália, no século XIX. Seu pai, por sua vez, lutou com os aliados no teatro de guerra do Pacífico, em Bornéu.

“Mas o xis da questão para mim foi perceber, por meio da história criada pelo Markus, os efeitos na vida das pessoas comuns nos cafundós da Alemanha nazista. Você percebe, de fato, com cores, aquele microcosmo, com o fanatismo tomando conta de uma cidadezinha duramente afetada pela opressão econômica gerada por Versalhes. E vê os resultados da depressão econômica forçada e do surgimento daquele que parecia, de fato, ser uma espécie de salvador. Li estudos que mostram que apenas 10% da população alemã, no começo da guerra, não apoiava o führer, mais um motivo interessante para investigar a vida dos Hans daquela época, os homens que se opuseram, da maneira como puderam, e pagando altos preços, ao fanatismo da maioria”, comenta.

Rush também cresceu em uma cidade pequena. Dando uma risada engraçada, meio fora de tom, relata que sua paixão pelo teatro provavelmente foi intensificada pela ausência da televisão na vizinhança. Quando uma companhia teatral de Brisbane passou por sua escola em busca de novos atores, ele não pensou duas vezes. Mas revela que foi só muitos anos depois, aos quase 30 de vida, depois de uma temporada europeia e de volta à Austrália, pôde de fato se reconhecer como um ator.

“Tinha 28 anos e acabara de voltar de um período de 4 anos na Europa, 2 estudando na escola de Jacques Lecoq, em Paris. Não sabia bem o que fazer – estamos falando de 1978, e um ator famoso na época, um belíssimo ator, diga-se de passagem, Warren Mitchell, queria deixar um pouco a TV de lado e investir no teatro. Ele resolveu montar ‘Rei Lear’ e me chamou para fazer o bobo. Pude usar tudo o que havia aprendido na Europa no palco e as reações foram, para mim, gratificantes e surpreendentes. Já havia feito 24 peças na Austrália e na Europa. Mas foi ali, naquele momento, que percebi finalmente quem eu era”, revela.

As plateias de fora da Austrália tiveram de esperar mais uma década e meia para descobrir o talentoso mr. Rush. Foi em 1996, com a explosão de “Shine – Brilhante” e o Oscar de melhor ator. “Veja bem, nunca me vi como ator de cinema. Não que eu não gostasse de ir ao cinema, mas não me identificava com os papéis que me ofereciam na Austrália naquela época. Eu adorava a Hollywood dos anos 70, sou completamente fascinado por aquele subproduto industrial de uma contracultura hippie riquíssima. Era uma era de ouro, com filmes que me inspiravam, embora o que eu fizesse fosse tão diferente no teatro. Estou falando do jovem De Niro, de Al Pacino, e especialmente do extraordinário Gene Hackman. Mas tinha muito prazer trabalhando em companhias teatrais. Foi só na metade dos anos 90 que realizei três filmes cujos papéis pareciam ter sido feitos para mim. Um deles, claro, foi ‘Shine’. E, como você bem sabe, minha vida mudou para sempre”, diz, ajeitando os óculos antes de se despedir com uma mesura digna da nobreza de, vá lá, Hollywood.

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