Eduardo Graça

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Entrevista: Mark Weisbrot

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Declaração de Ódio
MARK WEISBROT | Assim o economista classifica a postura dos EUA quanto ao resultado das eleições na Venezuela

A Eduardo Graça, de Nova York

Codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington, e presidente da ONG Just Foreign Policy, o economista Mark Weisbrot rema contra a corrente dentro e fora de seu país. Para o economista, profundo conhecedor do continente, são claros os sinais da volta de uma política intervencionista dos EUA na América Latina, revelada, entre outros movimentos, pelo apoio à reação contra o resultado das urnas de Henrique Capriles, candidato da direita derrotado nas eleições venezuelanas. E reclama: a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) deveria ter sido mais firme na denúncia da “declaração de ódio” do governo Barack Obama a Nicolás Maduro, chavista eleito presidente em 14 de abril.

Weisbrot é a estrela do seminário “A Venezuela pós-Chávez” promovido pelo Centro Celso Furtado, com apoio da Carta Capital. O evento acontece na terça-feira, 30, no auditório do BNDES no Rio de Janeiro (informações em www.cartacapital.com.br). A seguir, a entrevista na íntegra:

CARTA: Henrique Capriles declarou que, se a recontagem dos votos não alterar o resultado final da eleição na Venezuela, ele lutará por um referendo popular contra o presidente Nicolás Maduro. Como o senhor analisa a movimentação dos grupos antichavistas?
WEISBROT: O representante da oposição no Conselho Eleitoral Nacional da Venezuela, Vicente Diaz, declarou não ter dúvida sobre o resultado da eleição. Houve uma recontagem de 54% dos votos e representes da oposição acompanharam todo o trabalho, não apontando discrepâncias entre o resultado oficial e a nova contagem. A probabilidade de que o restante 46% mude o resultado das eleições é de menos de 1 em 25 mil trilhões. Ou seja, a demanda por uma recontagem de 100% dos votos é apenas política de espetáculo, uma tentativa de se retirar a legitimidade de Maduro. Tentativa esta, aliás, apoiada por Washington.

Maduro declarou não dar importância ao reconhecimento de seu mandato pela oposição. Não é hora de os chavistas buscarem diálogo com uma oposição substancialmente mais forte do que quando Chávez era vivo?
Cerca de 600 mil eleitores mudaram de lado, do chavismo para a oposição, desde a eleição de outubro, vencida por Hugo Chavez. Estes são, em sua maioria, votos não-alinhados, que Maduro terá de recuperar, melhorando suas condições de vida, particularmente incrementando a economia venezuelana.

Quais medidas econômicas Maduro deveria implementar?
Ele tentará estabilizar o câmbio. Esta é a chave para reduzir a inflação e acabar com o racionamento de bens de consumo básicos. O governo também terá de deixar claro que manterá o crescimento econômico e o aumento de postos de emprego ao mesmo tempo em que investirá mais em infraestrutura. Apesar da grande desvalorização da moeda em janeiro daquele ano, desde o meio de 2010 a economia venezuelana vem crescendo, com um aumento de 5.6% do PIB no ano passado. E até o último quadriênio de 2012 a inflação vinha em queda, algo extremamente significativo. Ou seja, é possível reduzir a inflação e manter o nível de crescimento da economia na Venezuela.

Foi estrategicamente correto o reconhecimento imediato da vitória de Maduro pelos países da Unasul?
Sem sombra de dúvida. Mas seria interessante se eles tivessem se pronunciado oficialmente, em uníssono, de forma crítica, em relação à recusa da Casa Branca, sem precedentes na relação entre os EUA e a Venezuela, de se reconhecer o resultado das eleições. Foi uma decisão política extremamente hostil. E, como os EUA tem uma influência enorme na mídia ocidental, esta posição de Washington acabou contribuindo para a tentativa de se desafiar a legitimidade do governo eleito, alimentando a mídia e a opinião pública mundial. Esta foi uma movimentação política de consequências muito sérias, contribuiu para o conflito e a violência. Se a Unasul condenasse este tipo de esforço de desestabilização, talvez Washington pensasse duas vezes antes de voltar a agir desta maneira na região.

A Casa Branca classificou a recontagem total dos votos como “um passo necessário para a saúde da democracia venezuelana”. O senhor escreveu que “ao contrário dos EUA, onde em uma eleição disputada não se sabe de fato quem venceu, o sistema eleitoral venezuelano é extremamente seguro, com todos os votos registrados duas vezes, em urnas eletrônicas e em papel”…
O que vimos foi uma ‘declaração de ódio’ vinda da administração Obama. No cálculo da Casa Branca, ainda que este fosse visto como um ato hostil e agressivo, o mais importante era demonstrar o apoio à oposição venezuelana. É bem provável que Capriles tivesse aceito o resultado se não fosse pelas declarações oficiais vindas de Washington. Elas também foram uma resposta, e rápida, aos esforços de Maduro de iniciar um diálogo com o governo Obama, como o “New York Times” revelou já no dia 15 de abril. A resposta do governo democrata foi, essencialmente, a seguinte: “nós odiamos vocês e faremos tudo que pudermos para atrapalhar sua vida e retirar a legitimidade de seu governo”.

A mídia sul-americana, em geral, apresenta o voto chavista como resultado dos programas assistencialistas e clientelistas criados pelos socialistas. Foram estas as razões para a maioria dos venezuelanos apostarem em mais sete anos de bolivarianismo?
As ‘misiones’, que oferecem acesso universal a saúde, educação e alimentação, foram um fator importante. Mas não se pode esquecer das mudanças econômicas, extremamente positivas, da era chavista, que não podem ser atribuídas apenas às “misiones”. O desemprego caiu de 14.5% quando Chávez tomou posse para 8% no ano passado. Desde que o governo assumiu o controle da indústria petrolífera, a pobreza diminuiu pela metade e a miséria foi reduzida em 70%. A maior parte destas mudanças foram resultado do crescimento do PIB e a maior parte do aumento dos postos de emprego se deram no setor privado.

O senhor, que acompanhou as eleições de perto, constatou alguma supressão, pelos chavistas, da liberdade de expressão da oposição?
Houve abusos dos dois lados. E, obviamente, não há como esmiuçar o financiamento das duas campanhas, exatamente como no Brasil e nos EUA. Mas as eleições venezuelanas não foram menos ou mais injustas do que qualquer outra disputa na América do Sul. A televisão pública venezuelana tem apenas 6% de audiência e a oposição tem uma vantagem imensa tanto na imprensa escrita quanto no rádio. A oposição não sofre de desvantagem midiática, possivelmente acontece o contrário. Capriles fez uma campanha rica, com muita propaganda, e de qualidade, levando sua mensagem pra todo o país, tanto ou mais do que Maduro. Ele fez duras críticas, maldosas, a Maduro, e todos as escutaram. Esta é uma das razões pelas quais as eleições foram tão apertadas. Não há evidência real de que a oposição teve qualquer desvantagem nas eleições venezuelanas se comparadas com disputas eleitorais em qualquer outro país.

Podemos esperar alguma mudança da política externa democrata para a América Latina, com o senador John Kerry assumindo a secretaria de Estado?
O problema é estrutural. Os EUA não mudaram a política externa para a América Latina desde o governo George W. Bush. Não vejo a possibilidade de isso acontecer em um futuro próximo. Washington está jogando na região um xadrez da época da Guerra Fria. Foi seguindo esta ótica que eles se livraram do presidente hondurenho Manuel Zelaya em 2008 e um ano depois de Fernando Lugo no Paraguai. É a mesma política da Guerra Fria, com a diferença de que não há mais insurgentes armados, como os Contras da Nicarágua, para se apoiar na região, com a exceção da Colômbia. Mas o governo Obama financia um governo que usa esquadrões da morte em Honduras.

O senhor escreveu no mês passado um artigo-denúncia no jornal inglês ‘The Guardian” em que pergunta quando o Congresso irá deter as atrocidades em Honduras, típicas do governo Reagan na América Central…
Sim, e neste jogo de xadrez a Casa Branca está interessada em capturar qualquer peão desprotegido. Em geral, todos os governos de esquerda da região são alvos relativamente fáceis, por não haver riscos de algo explodir na cara dos americanos se algo der errado, como é o caso do Irã, por exemplo. O custo político também é mínimo, pois a América Latina, excetuando-se, em escala cada vez menor, a Flórida, não é um fator definidor nas eleições americanas. Mas a Venezuela é um dos mais premiados alvos do jogo, por conta de suas reservas de petróleo, as maiores do planeta.

O senhor vê algum paralelo entre a acusação republicana de que os eleitores de Obama o apoiam para receber benefícios sociais do governo e a irritação das elites latino-americanas com programas como o Bolsa Família no Brasil e as ‘misiones’ na Venezuela?
Sim, vejo o paralelo. Aqui em Washington e em boa parte da grande mídia, promessas de campanha e programas sociais voltados para incrementar a vida das pessoas é considerado compra de votos. Nos EUA, esta mentalidade é quase exclusividade dos republicanos. Mas, quando se trata de olhar para a América Latina, esta é uma visão bipartidária, democratas também pensam desta maneira.

Como o senhor você a situação de Cuba com a morte de Chávez?
Nada mudou pra Havana. O governo de Maduro manterá o mesmo relacionamento com Cuba iniciado por Chavez. O compromisso será o mesmo.

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