Eduardo Graça

Coluna

Pelo Mundo NY: O Bota-Abaixo no Brooklyn

Coluna publicada hoje no Segundo Caderno d’OGLOBO:

O bota-abaixo no Brooklyn

A semana nem começou e Su Friedrich já faz um barulho danado no meu quarteirão. Acompanhada de uma equipe de reportagem do “New York Times”, ela sobe e desce as ruas em torno do McCarren Park encarando o vídeo a ser postado na primeira página do diário na internet, lamentando a transformação do bairro onde viveu por quase duas décadas. A professora da Universidade de Princeton e cineasta experimental está em cartaz na cidade com seu “Gut renovation” (em livre tradução, “A renovação nas entranhas”). As entranhas são os prédios, lares, estúdios, lofts, galerias de arte, açougues, vendinhas e oficinas mecânicas de centenas de moradores de Williamsburg, apagados do mapa e substituídos com uma rapidez impressionante por restaurantes da moda, lojas de grife, prédios de luxo, turistas e, como era de se esperar, aluguéis e metro quadrado cada vez mais caros.

Que fique claro: vejo Friedrich da janela de meu quarto, em uma das antigas fábricas transformadas em condomínio residencial. Seu “Gut renovation” me chega como um soco no estômago. Uma amiga da diretora diz, certeira, que o documentário deveria ser batizado “Eu odeio os ricos”. No filme-denúncia, ela não discute a inevitabilidade da transformação da metrópole e divide opiniões ao fim da sessão na sala do Film Forum. Na saída, há quem lamente a imagem tendenciosa de um Williamsburg fantasioso, repleto de arte e boemia, sem qualquer referência às gangues, aos assaltos, ao consumo livre de drogas pesadas nas ruas do bairro nos anos 1980 e 90.

Mas a expulsão da boemia, vivida anteriormente por NYC em espaços hoje nobres de Manhattan, aconteceu em Williamsburg de forma muito mais avassaladora. Em meia década o gabarito para construções no bairro foi alterado, os artistas que ocupavam prédios comerciais — muitos deles haviam erguido do próprio bolso banheiros e cozinhas nos improvisados lofts — tiveram de arcar com impostos e taxas de serviços (luz, água, gás) sufocantemente caros, e as grandes empreiteiras receberam um presente de pai para filho: isenção de 25 anos de pagamento de taxas se comprovassem estarem criando mais unidades de habitação na cidade que cresce sem parar.

Com a ênfase na criação de unidades de luxo, alguns poucos empreendedores se viram obrigados a criar unidades de “baixo” custo vendidas para moradores antigos do bairro. As mais obscenas foram as erguidas ao lado do chiquérrimo The Edge. Ao contrário dos vizinhos ricos do mesmo condomínio, os “moradores de segunda classe”, na definição de Friedrich, não podem usar a entrada principal do prédio, não desfrutam de vista para Manhattan, são impedidos de frequentar a piscina.

A sensação de impotência de Friedrich e amigos com a derrubada, um a um, de prédios antigos, é traduzida nos espaços coloridos pela diretora em um mapa com tinta vermelha. Quando decidiu encerrar o filme, ela havia contado 173 prédios postos abaixo em pouco mais de cinco anos. Cerca de 40 mil novos moradores, incluindo este escriba, se mudaram para Williamsburg neste período, mas não há registro do número dos que, como Friedrich, tiveram de abandonar o bairro. Do outro lado do tabuleiro, a prefeitura argumenta que, por conta do boom da construção civil às
margens do East River e do Rio Hudson, a cidade gerou empregos e atraiu mais moradores em uma quantidade recorde em anos de crise.

Um dos pontos altos do filme são as visitas de Friedrich às mauricérrimas festas de lançamento dos novos prédios de luxo. Em um deles, ela mostra um duplex cujo primeiro pavimento é um porão, sem janelas, saindo pela bagatela de US$ 800 mil. A diretora vocifera: a reinvenção urbana que almejamos para NY precisa ignorar a produção artística de determinados bairros, trocar pequenos negócios por grandes marcas globalizadas e deixar a especulação imobiliária destruir a alma da cidade?

A pergunta não se restringe à Nova York de Bloomberg. O Rio, em áreas como a região portuária, se debruça sobre questões parelhas. O filme de Friedrich, ainda que vazio de respostas, serve de reflexão, por exemplo, sobre a face da urbanização que a cidade — e os moradores das comunidades — gostaria de ver nas favelas pacificadas. Na mesma semana em que “Gut renovation” chegou ao Film Forum, a revista “Time Out” resolveu enumerar as razões pelas quais Nova York é, na opinião de seu estafe, a melhor cidade do planeta. Uma delas era justamente o impressionante número dado pelo Rent Guidelines Board do município: há, hoje, apesar da exceção vergonhosa de Williamsburg, 1 milhão de unidades com aluguel controlado na cidade, cujos moradores seguem protegidos contra os humores do mercado.

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