Eduardo Graça

Coluna

Pelo Mundo: Pok Pok

Pelo mundo: De Nova York
Eduardo Graça

Nham nham pok pok

Restaurante tailandês em Red Hook, no bairro do sul do Brooklyn, ganha fãs na cidade

Dos dois cultuados restaurantes que cruzaram o país e se instalaram em Nova York na primavera, o menos conhecido dos gourmands de plantão era o Pok Pok. Enquanto o Mission Chinese trazia assinatura do chef de ascendência coreana Danny Bowien, muito provavelmente o mais celebrado da nova geração de alquimistas da cozinha contemporânea norte-americana, o Pok Pok era citado aqui e acolá em fóruns na internet como “o melhor restaurante de comida tailandesa dos EUA”. A casa original de Bowien, cantada em verso e prosa nesta coluna, fica no efervescente bairro do The Mission, na cosmopolita San Francisco. O Pok Pok nasceu na muy calma e ordeira Portland, no estado de Oregon. O Mission Chinese se instalou no Lower East Side, na muvuca do sul de Manhattan. O Pok Pok abriu de modo mais tímido, em Red Hook, no bairro do sul do Brooklyn notório apenas por ser o local escolhido pela Ikea para sua primeira megastore na cidade. Não mais.

As semelhanças entre o Pok Pok e o Mission Chinese terminam antes de você começar a jantar (o Mission também abre para almoço). Como não aceitam reservas e primam por um serviço mais exclusivo, as filas podem durar horas. Três, no caso do Pok Pok em horários de pico no fim da semana. A saída é chegar na hora em que os restaurantes abrem suas portas e encarar um almoço ajantarado. Funcionou bem no Mission, que fica mais perto de casa. Esta semana, mamãe a tiracolo, finalmente consegui experimentar a tática no Pok Pok. Iniciamos os trabalhos às 17h45m. Saímos mais de duas horas depois, felicíssimos e quase culpados: a ideia era ficar nas entradinhas. Ilusão. Devoramos quase todo o cardápio e repetimos o meio-frango ao molho recheado com (muito) capim-limão, pimentas, alho amassado e coentro ao molho de tamarindo.

Diferentemente do Mission, mais focado na baixa gastronomia, praticamente um botequim asiático com a assinatura de Bowien, o Pok Pok de Andy Ricker busca oferecer a reprodução exata de uma refeição em um bom restaurante tailandês em um país que sequer conta com voos diretos para a Tailândia. E, em uma cidade cujo único “thai de raiz”, durante anos, ficava no Queens, o venerando SriPraPhai, no bairro de Woodside. Há dois verões o Zab Elee migrou de Jackson Heights, também no Queens, para o East Village, com seus famosos larbs (saladas quentes à base de carnes moídas típicas do nordeste da Tailândia), mas o Pok Pok está léguas à frente. Pok Pok, aliás, é gíria de Bangkok para pilão, já que boa parte dos alimentos chega à mesa depois de moídos.

O Pok Pok oferece três ambientes numa casa quase na esquina das ruas Columbia e Kane, ao lado dos píeres industriais da baía de Nova York. O principal, com pouco mais de dez mesas; o intermediário, o mais pitoresco, na antiga garagem da casa, coberta com lona e dividida por troncos de bambus, o mais parecido com o original de Portland; e o externo. Optamos pelo ar-condicionado e, no salão principal, pegamos a última mesa vaga.

Começamos com uma salada de papaia verde com tomates da estação e vagem com camarão e amendoim moídos. Migramos para as costelas de leitão caramelizadas em molho de soja, whisky, mel, gengibre e especiarias tailandesas acompanhadas do tradicional arroz sticky, papa ao ponto. Este chega à mesa em um saquinho de plástico, por sua vez dentro de uma caixinha de bambu, para manter a temperatura sempre alta. E encerramos a folia com um dos pratos do dia, uma salada à base de folhas de tamarindo com carne de porco moída que transportaram Dona Olga para a Barra do Piraí de sua infância e o mastigar das folhas verdinhas do tamarindeiro que ficava na calçada em frente ao portão da casa de meu avô, na rua Barão do Rio Bonito, nas imediações do largo da Igreja de Santana.

Para além da poética proustiana, outra vantagem de se apossar de uma das mesas do salão interno do Pok Pok do Brooklyn é se pré-alimentar, enquanto os pratos não chegam, dos cheiros que vêm da cozinha localizada ali ao lado. Não comemos as asinhas de frango fritas ao molho de peixe nem a salada de berinjelas, mas o aroma dos dois pratos funcionou como um convite a um retorno nos próximos dias. Em tempo: para os mais apressados, o sucesso da versão Costa Leste dos tailandeses já gerou o Phat Thai. É uma extensão do Pok Pok, centrada nas sete variantes do clássico pad thai, o “macarrão tailandês” por excelência. Fica a alguns passos do Mission Chinese, também no Lower East Side, e vale a visita, mas há poucas mesas, e o ideal é usar a casa como um dos melhores take-outs da cidade.

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