Eduardo Graça

Cultura

Set Visit: American Pie

“O coração da gente bate mais forte”, conta ator sobre volta à franquia “American Pie”

Eduardo Graça
Do UOL, em Atlanta

Faz um calor de 40 graus na cidadezinha de Monroe, um subúrbio de Atlanta, na Geórgia, no coração do Sul dos Estados Unidos. E Eddie Kay Thomas, o Finch, não para de reclamar. Do frio. “É que nas cenas internas a produção liga aparelhos de ar-condicionado gigantescos e não consigo parar de tremer. Em seguida, filmamos as externas e é um calor do cão, com a umidade beirando os 100%. É duro!”, diz o ator de 31 anos, em dúvida se coloca ou não um casaquinho esportivo, antes de respirar fundo por um segundo, olhar para os lados e recriar uma daquelas expressões meio de enfado, meio de sabichão de plantão, típicas de seu personagem no universo de “American Pie”. “Desculpe, você percebeu que viajei para outro planeta, né? É que simplesmente não é possível não se ter um ‘déja vu’, sabe? Vários sets do primeiro filme foram reconstruídos, você viu? A casa do Jim, a do Stiffler, onde as festas todas rolavam, o colégio. Faz o coração da gente bater mais forte”, diz o ator de 31 anos.

Quando a reportagem do UOL baixou em um dos principais sets de filmagem de “American Pie: o Reencontro”, os meninos que em 1999 (com “American Pie – A Primeira Vez É Inesquecível”) reinventaram a comédia teen no assumido tributo a clássicos da pilantragem adolescente de Hollywood (“O Clube dos Cafajestes”, com John Belushi; “Almôndegas”, com Bill Murray e, acima de todos, a seqüência interminável iniciada em “Porky’s – a Casa do Amor e do Riso”, são influências óbvias dos diretores Paul e Chris Weitz) com uma pitada do sarcasmo angustiado de John Hughes (pense em “Clubes do Cinco”, mas especialmente “Curtindo a Vida Adoidado”) estão se preparando para filmar uma das cenas derradeiras do novo filme. É a despedida da gangue, no diner Dog Years, localizado na fictícia East Great Falls, depois de uma série de acontecimentos hilários gerados pela reunião de ex-alunos promovida pela escola, mote do “Reencontro”. Lá estão Jim (Jason Biggs), Stiffler (Sean William Scott), Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Ian Nicholas) e, claro, o Finch de Kay Thomas. Todos mais velhos, não necessariamente mais sábios, mas com recordações doces sobre o verão em que decidiram estabelecer o pacto de perder a virgindade na noite de formatura da escola.

“Ah, mas você pode atestar que nós mudamos muito”, diz Jason Biggs, quase sério, para continuar, em uma sonora gargalhada: “No primeiro filme tínhamos 17, 18, 20 anos, e agíamos no set como se tivéssemos dez. Agora somos trintões, mas agimos como se tivéssemos oito!, é outra coisa”, diz. As brincadeiras durante as filmagens, revela Kay Thomas, passam por chutes-surpresa nos testículos dos amigos e invencionices que quase sempre giram em torno da flatulência alheia. Quando o repórter pergunta qual seria a forma de distração preferida do elenco feminino, que mais uma vez inclui a Michelle de Alyson Hannigan, a Vicky de Tara Reid e a Heather de Mena Suvari, Kay Thomas é rápido no gatilho: “Mas eu estava falando delas!”, diz, gerando mais uma explosão de riso.

Suvari também parece achar graça de tudo. No intervalo para o almoço são seus os sons mais altos de contentamento ao ouvir as tiradas dos colegas de trabalho. “A primeira vez que sentamos novamente para ler os textos rimos muito e fomos pegando o ritmo rapidamente. Na mesa do almoço o nível foi baixando tão rapidamente… mas não me assusto mais. Tenho três irmãos, sei como é quando um bando de marmanjo se junta, me divirto horrores”, diz. No filme, a mais conservadora e doce Heather finalmente mostra suas garras ao se reencontrar com Oz e a nova namorada do agora apresentador de programa esportivo na Califórnia.

Chris Klein, 33, passa a impressão de ser o único do grupo a trazer as técnicas do ‘method acting’ para o set do verão americano. Ele conversa com o repórter com as interlocuções e pausas típicas das figuras mais caricatas do mundo esportivo ianque. “O que Jason quis dizer com nosso comportamento juvenil é que somos, no fim, um bando de meninos que se conhece desde criança. “American Pie: o Reencontro” é fundamentalmente isso. E hoje nos permitimos ser um pouco mais moleques no set, já que na vida real somos adultos mais ou menos respeitáveis”, diz.

O primeiro jantar da trupe na Geórgia, um estado conservador, foi em um restaurante nas redondezas de Monroe. Na mesa ao lado, um grupo exclusivamente feminino celebrava a despedida de solteira e, obviamente, as meninas se animaram com a presença, ao lado, do pessoal de “American Pie”. Quem narra, com direito a fotos em seu celular para comprovar a veracidade da história, é Jason Biggs: “A sobremesa chegou e era um pênis gigante de chocolate, negro. É verdade! Olha aqui! E eu comi aquele pênis! Eu comi! Olha eu comendo! E foi muito bom! Foi provavelmente um dos melhores pênis que eu provei na vida! Você prestou atenção aos detalhes? Olhe as veias de caramelo! É um artista este cara que fez a torta!”, diz.

Naquela que já é a mais famosa cena de “Reencontro” Biggs, famoso por transar com uma torta de maçã no primeiro filme da série, agora mostra como veio ao mundo, de frente e de trás. “Sim, meu pênis teve um papel maior do que o normal no filme. Ele terá seu próprio trailer, fiz um contrato especialmente para ele e tudo. Fiz seguro também, porque você nunca sabe. Para você ter uma ideia, aquele pênis da festa é tao similar ao meu, em tamanho, que pedi para o artista para criar um dublê para mim. Ficou ótimo!”, diz, com a cara mais lavada do mundo.

Além do primeiro filme, um surpreendente estouro de bilheteria nos quatro cantos do planeta, a turma voltou a se encontrar em “American Pie 2″ em 2001 e “American Pie: O Casamento”, em 2003. Depois vieram apropriações da marca com elencos diferentes, boa parte dos filmes indo direto para DVD. “Vi alguns. A sensação era estranha. Alguns até tinham coisas engraçadas, um tinha uma cena de uma avó pegando um neto se masturbando. Hilário!”, diz Kaye Thomas. Biggs lembra que Hollywood é mesmo uma senhora montanha. Altos e baixos, filosofa, são premissas do cinema americano. “Nestes 12 anos fiz filmes terríveis, outros melhores. Não me arrependo de nada, aprendi muito. E ‘American Pie’ é uma benção em minha vida. Depois do terceiro filme eu dizia, ‘quero fazer coisas melhores e maiores’, uma coisa bem idiota, mas, olha, eu volto sempre ao Jim. Sempre. E, claro, paga-se muito bem, não vou mentir”, diz.

Segredos

Um dos segredos da forma de “American Pie” voltar a dar caldo está na cozinha do filme. A produção é assinada por Biggs e Williams Scott e os diretores, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg (de “Madrugada Muito Louca”) são fãs ardorosos da série. “Eu os conheci no set de “Madrugada Muito Louca” e eles me adoravam, de graça, apenas por eu ser do elenco de “American Pie”. Eles dizem que o sonho deles era dirigir um filme com todos nós! Aqui no set é hilário, eles ficam apontando e rindo: olha lá o Jim! E o Stiffler! E a escola! Assim, sabe, admirados de estarem vivendo o sonho! Eles nos lembram o tempo todo o quanto nós também amamos o original”, diz Kaye Thomas.

“Hayden e eu somos amigos da escola e nossa amizade se formou em torno dos filmes que gostávamos. Mais tarde, quando começávamos a tatear em Hollywood, vimos o trailer de ‘American Pie’ e pensamos: ‘É isso! É o que queremos fazer um dia!’”, diz Hurwitz. O amigo continua, de bate-pronto: “Quando começamos a pensar em filmar, era um deserto só. Não havia uma comédia adolescente com censura para adultos desde os anos 80. Aí apareceram os irmãos Farrelly, nós fizemos nossas coisas, e agora voltamos onde tudo começou”, diz, nos poucos minutos livres antes de voltar a filmar a cena-chave do filme que, aliás, deixa um gostinho de quero mais.

Haverá mais um “American Pie”? “Não sabemos ainda, mas posso garantir que os filmes acompanham o rumo da minha vida. No primeiro, estava me formando no colégio. No segundo, minha universidade foi Hollywood, vivendo em Los Angeles. No terceiro, me casando. E agora, eu e minha mulher (a atriz Jenny Mollen) estamos conversando sobre termos um filho, exatamente como o Jim e a Michelle, que são pais em ‘Reencontro’. Sempre há este paralelo”, diz Biggs, lançando o desafio para roteiristas de plantão interessados em passear mais uma vez pelas ruas de East Great Falls.

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