Eduardo Graça

Cultura

Curta: My Neighborhood, de Julia Bacha

Histórias de uma resistência pacífica no Festival de Tribeca

Mostra exibe curta de Julia Bacha sobre a ocupação de Israel na Palestina

Eduardo Graça, de Nova York, Especial para O GLOBO

Uma das atrações, a partir de hoje, do Tribeca Film Festival, o documentário “My neighbourhood” (“Meu bairro”) é o mais novo resultado do interesse da diretora e produtora Julia Bacha (em parceria com Rebekah Wingert-Jabi) pelo Oriente Médio: a possibilidade de um movimento pacífico de resistência contra abusos cometidos pelo Estado nos territórios ocupados por Israel na Palestina. O curta, de 25 minutos, se passa em Sheikh Jarrah, no coração de Jerusalém Oriental, onde moradores palestinos são expulsos de suas casas, ocupadas por colonos judeus. Na pré-estreia para convidados, terça-feira, no Paley Center for Media, a apresentação ficou a cargo da rainha Noor, da Jordânia, país de importância estratégica no xadrez político da região.

— A comparação mais imediata com o que aconteceu com as famílias de Sheikh Jarrah é o Pinheirinho, em São José dos Campos — diz Julia, em uma tentativa, incentivada pelo repórter, de se estabelecer um paralelo entre o que se vê na tela — o desespero do menino Mohammed el Kurd, cuja família é despejada da casa em que vive desde os anos 1950, mobília jogada na rua, sem a possibilidade de receber guarida de um sistema de Justiça inexistente — e a realidade brasileira.

Outro paralelo imperfeito é o estabelecimento das UPPs nas comunidades cariocas. Mas é justamente na quebra da invisibilidade dos “bairros palestinos” — com a ação de jovens israelenses como Zvi Benninga, um estudante de Medicina revoltado com o avanço dos colonos ultraortodoxos sobre os enclaves palestinos de Jerusalém — que o filme ganha sua razão de ser. Benninga e sua irmã, descendentes de sobreviventes do Holocausto, iniciam uma série de manifestações que, em determinado momento, recebem a adesão até mesmo de uma parente do primeiro-ministro conservador Benjamin Netanyahu.

Em seu premiado longa “Budrus” (2009), a vencedora do prêmio Faz Diferença de O GLOBO deste ano na categoria Mundo contou a história dos moradores da aldeia de cerca de 1.500 habitantes decididos a resistir sem o uso de violência à tentativa do governo israelense de criar uma barreira física que cortaria a cidade ao meio. O lugarejo se tornou o improvável cenário para uma coalizão de palestinos e israelenses progressistas. Nos últimos três anos, o filme foi passado em escolas e universidades nos territórios administrados pela Autoridade Palestina e em Israel, gerando a discussão que é o núcleo de “My neighbourhood”.

— A nova esquerda israelense nasceu em Budrus. Não sabemos qual será sua dimensão nem seu papel futuro na política local. Mas sua presença, agora, é tangível, e de âmbito nacional — diz Julia. — “My neighbourhood” investiga as possibilidades de resistência não violenta à ocupação em um grande centro urbano. E o formato é proposital. O curta, de acesso fácil à população local, já tem distribuição garantida no mundo árabe, nos EUA e em Israel.

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