Eduardo Graça

Coluna

Coluna da Semana: Alabama Shakes e Dr.John

A coluna da semana, no Segundo Caderno d’O GLOBO, foi sobre a nova banda Alabama Shakes e a volta do maravilhoso Dr.John, recalibrado por Dan Auerbach, dos Black Keys. Segue o texto, escrito depois de uma noite inesquecível no palco alternativo do Webster Hall, no Village:

PELO MUNDO
Eduardo Graça, de Nova York

Vozes do Sul ocupando a noite da cidade

A primeira reação é fechar os olhos e imaginar que Janis Joplin voltou do paraíso e baixou de supetão anteontem no palco alternativo do Webster Hall. Mas a miragem é fácil demais e injusta com Brittany Howard. Oriunda da minúscula Athens, localizada no estado mais atrasado dos EUA, o Alabama, ela foi a sensação do recente festival South by Southwest, eleita pelos críticos a mais nova salvação do rock. Aos 23 anos, ela trabalhou até setembro – quando o Alabama Shakes, sua banda, lançou o primeiro EP – como carteira. Gordinha, esta mulata americana é sim a tal. Segura, não parece carregar o peso da redenção de um gênero caduco sobre os ombros. Com o show de quarta-feira no palco maior do Bowery Ballroom esgotado há semanas, a apresentação de última hora de terça-feira, organizada pela MTV (que passou o evento ao vivo em sua página eletrônica) virou local de peregrinação para os devotos da música popular de raiz. E Brittany e seus meninos, adotados por Jack White, para quem vão abrir os shows da turnê do novo disco do ex-White Stripes, fizeram a galera cool até ensaiar passinhos de rockabilly no fundo da caixa de sapatos da casa do East Village.

Cabelo encaracolado, óculos de aros grossos vermelhos, uma blusa preta com estampa florida de vovó, Bittany domou o ‘Studio’, um espaço que lembra o Teatro Rival, já na segunda música, “Hold On”, em que fala de si mesma na terceira pessoa. Sem qualquer traço de pedantismo. E empunhando sua guitarra com impressionante segurança. Sim, ela também sola. E bem.

Os ‘Shakes’– Heath Frogg na guitarra e Zac “Mahogany” Cockrell no baixo, amigos de Brittany do tempo da escola pública de Athens, desde os 13 anos; mais o batera Steve Johnson, que trabalhava na única loja de discos da cidade e contrabandeava gravações de Otis Redding, Led Zeppelin, Sharon Jones, Etta James e, claro, dona Janis, para os amigos – parecem um Kings of Leon do primeiro disco, rapidíssimos (nove das 11 das músicas de “Boys & Girls”, o primeiro LP da banda, não ultrapassa os quatro minutos), diretos, com um grau de urgência que casa perfeitamente com o estado das mentes, corações e bolsos da América Profunda. Mas o alcance vocal – em momentos mais tristes ela deixa a Janis de lado e encontra um falsetto da lavra de um Al Green – e o swing de Brittany, acrescidos do auxílio luxuoso de Benjamin ‘Styrofoam’ (em bom português, isopor)’ Jones, um mago dos teclados, nos remetem a outras texturas, ao soul de Otis Redding, à malícia de Etta James, ao desespero de Tina Turner.

“Eu posso contar uma história para vocês? Esta música trata de uma amizade perdida. Éramos muito grudados, eu e ele, durante toda a infância. Mas, na adolescência, ele me abandonou. E ainda dói”, confessa Brittany, antes de entoar a faixa que dá titulo ao trabalho de estreia da banda. Abandonos, provocações, reportagens sobre a vida dura nos grotões americanos seguem show afora. Em “Hold On”, ela pede benção e celebra a teimosia dos fortes: “Deus abençoe meu coração/abençoe minha alma também/Jamais pensei/que chegaria viva aos 22 anos”. Mas também provoca o público em “You Ain’t Alone”, revirando os olhos, o pescoço suado, ao perguntar, senhora da resposta: “Você quer ser meu bem? Quer?”. Ao fim da apresentação um marmanjo berrou com vontade: “Eu gosto da música de vocês!”. Exato.

***

Do outro lado da cidade, no pomposo palco da Brooklyn Academy of Music (BAM) o veterano Dr.John se reinventa lindamente pelas mãos de Dan Auerbach. Exatamente como Jack White, o guitarrista e vocalista dos Black Keys se exilou em Nashville, onde montou um estúdio de primeira e também celebra as raízes da música popular local (country, Americana, blues, soul, R&B) aproveitando a facilidade de se recrutar músicos locais para tocar nos mais diversos projetos. Foi lá que, sob a batuta de Danger Mouse, ele gerou seu projeto solo, o bom “Keep it Hid”. Mas sua tacada de mestre foi resgatar o veterano mago vodu de Nova Orleans, arregimentar os meninos do Antibalas (banda afrobeat do Brooklyn que toca este mês no Abril Pro Rock e em São Paulo) e acoplar as vozes das McCrary Sisters para lançar um dos discos mais interessantes do ano: “Locked Down”.

O retorno triunfal de Malcolm John Rebennack Jr. a Nova York se deu em três sessões com três apresentações cada. Na última semana de março, um tributo a Louis Armstrong, com as presenças ilustres dos Blind Boys of Alabama, Roy Hargrove, Rickie Lee Jones e Arturo Sandoval. Na semana passada ele se dedicou exclusivamente ao disco novo, uma apoteose com direito à caveira de vodu estrategicamente instalada em um dos pianos e dancinha no palco do vovô de 71 anos, entre solos de Auerbach. O terceiro, hoje, é uma celebração do R&B de New Orleans, com a presença da Dirty Dozen Brass Band, Nicholas Payton e de Irma Thomas, ao lado da banda roqueira amealhada por Auerbach. E a reinvenção retrô é, curiosamente, o que há de mais pulsante na cena pop nova-iorquina nesta muy agradável primavera.

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