Eduardo Graça

Coluna

Dançando no Whitney e nas ruas da América Profunda

A coluna de hoje, no Segundo Caderno d’O GLOBO:

Dançando no Whitney e nas ruas da América Profunda

Um dos símbolos do declínio industrial norte-americano, Braddock é uma cidadezinha localizada no extremo oeste da Pensilvânia, em um subúrbio de Pittsburgh, hoje menos lembrada como um dos pioneiros pólos siderúrgicos do país do que como o cenário de “Martin”, o cult-trash de George Romero, o mago do terror, filmado em 1976, quando, por lá, as vacas já eram magras. Pois através da lente de LaToya Ruby Frazier a acinzentada Braddock tomou o centro da mais concisa e pungente das quatro Bienais de Arte do Whitney Museum vistas por este escriba.

LaToya Ruby teve a ideia para a série de 12 imagens apresentadas em seqüência no terceiro andar do Whitney no ano passado, quando a Levi’s seguiu o rastro de Romero e usou a decadência da cidade como pano de fundo para seu novo comercial, batizado de ‘nova fronteira’. A pobreza é estilizada, casas abandonadas surgem com cores descascadas, uma voz ao fundo afirma que ‘há muito tempo as coisas ficaram feias por aqui e as pessoas se entristeceram’. O clima de conto de fadas – do abandono virando ‘hip’, do drama se tornando atraente através do realismo estilizado – segue com uma imagem de um jovem negro à frente de um teatro abandonado. No palco, uma imagem pintada da Estátua da Liberdade, em preto e branco. Todos os personagens, claro, usam a calça jeans de vocês sabem quem.

LaToya é uma bela negra de 30 anos e desde a adolescência retrata de forma documental (mas com um olhar para o detalhe que a levou a ser comparada a Diane Arbus) os arredores de sua cidade-natal. Ela nunca usa cores. A denúncia de suas imagens ultrapassa o comentário econômico – ela também mira sua lente para o fato de as cidades perdidas do chamado Rust Belt (curiosamente, uma das regiões que deve decidir as eleições presidenciais de novembro, com grande população operária) serem as mais tóxicas dos EUA, com um grande número de casos de câncer terminais em idosos. Para ela, a ‘transformação da classe trabalhadora americana em matéria-prima para consumo’ é ainda mais gritante quando se leva em conta que a Levi’s faria um investimento de fato transformador na região se levasse uma de suas fábricas têxteis para uma área carente de empregos, serviços e atenção.

Sua revolta gerou a performance em que, através de coreografias metodicamente ensaiadas com a artista Liz Magic Laser, ela acabava por rasgar o jeans em uma calçada do SoHo onde a Levi’s abriu no no verão passado um ‘workshop’ de fotografia. Ao lado, uma das imagens-símbolo da campanha, em que um negro segura um bebê branco pelas mãos enquanto se lê “o trabalho de todos é igualmente importante’. “É uma propaganda insidiosa, especialmente quando se sabe que, historicamente, a indústria de Braddock não queria empregados negros”, diz.

O impacto do ativismo artístico de LaToya não diminui em nada ao sair das ruas do SoHo e migrar para o salão nobre do Whitney. Na mesma época em que o comercial era filmado em Braddock o único hospital da região voltado para idosos estava sendo fechado pela universidade local, privada. “Campanha para o Hospital de Braddock (Salve nossa Clínica Comunitária)” reúne comentários dos moradores da cidade afetados por mais uma representação de abandono inscritas sobre imagens da campanha da Levi’s na cidade. Ao lado, imagens de sua própria avó, na série “Homebody”, mostram uma casa deteriorada, uma vida próxima do fim sem suporte além do núcleo familiar. Assim como a avó, a mãe de LaToya e a própria fotógrafa sofreram com doenças crônicas por conta da exposição à poluição de Braddock. Seu trabalho político leva o visitante a refletir sobre a fetichização da cada vez mais presente pobreza ianque.

***
A Bienal de Artes fica em cartaz até o dia 27 de maio e já é um sucesso de público. No domingo, a fila de entrada dobrava o quarteirão da rua 75, mas a concorrência nas longas salas do museu não perturbam o visitante mais paciente. Uma boa surpresa fica no mezanino do último andar, localizado atrás das grandes instalações e esculturas dos quais as minhas favoritas são o ‘Circo’ de Alexander Calder e a ‘Fonte’ de Len Lye (obra não-indicada, avisa a curadoria, por conta de seus movimentos e flashes de luzes, para os de coração mais fraco). Meio que escondida, a instalação de Lucy Raven, em torno da composição “Dance Y’rself Clean”, do LCD Soundsystem, é uma deliciosa conversa prática sobre os processos de digitalização na música e no cinema. Se você der sorte, pode apreciar uma apresentação da artista no piano localizado à direita da instalação. E ouvir o petardo do disco de James Murphy, “This is Happening”, em ritmo de ragtime. Quem já ouviu fica com uma baita vontade de sair dançando pelas escadas do Whitney.

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