Eduardo Graça

Coluna

Adeuses e Beijos

A coluna da semana, no GLOBO de hoje, é sobre a exposição da soturna Francesca Woodman e a volta de “Mad Men”, um dos melhores seriados jamais feitos cujo cenário é Nova York, embalada pela música francesa “Zou Bisou Bisou”. Ó só:

Adeuses e Beijos

Que mistérios tem Francesca? As 120 fotografias apresentadas no anexo do quarto andar do Guggenheim não respondem à pergunta. Os seis filmes inéditos recentemente descobertos nos arquivos da Rhode Island School of Design (RISD), destaques da maior retrospectiva dedicada à fotógrafa, até a primeira quinzena de junho no museu do Upper East Side, também não oferecem muitas pistas. Mas a investigação revela-se tão necessária quanto recompensadora.

Francesca Woodman (1958-1981) se jogou do topo de um prédio de Nova York pouco tempo antes de completar 23 anos. Filha de artistas radicados em Boulder, no Colorado, um dos principais centros da contracultura americana, ela logo se viu dona de uma percepção e sensibilidade únicas. Suas experimentações com a imagem a levaram para a RISD – a alma mater de gente como David Byrne, Jenny Holzer e Seth MacFarlane – e foi curioso zanzar pelas salas do Guggenheim com meu companheiro, outro produto da universidade mais prestigiada do mundo do design gráfico ianque, que reconhecia, em sorrisos cúmplices, os lugares – a sala de taxidermia, o laboratório, o quarto de pintura de modelos-vivos – escolhidos pela artista para inserir seu corpo (ou parte dele) em autoretratos em preto e branco de sabor gótico, capazes de transportar o visitante para um mundo onírico, ao mesmo tempo erótico e puritano, espécie de portal entre o entorno comunitário hippie do meio-oeste americano e a tradição romeira da mais reclusa Nova Inglaterra.

Francesca teve sua obra redescoberta na segunda metade dos anos 80 e, como escreve Ken Johnson na crítica publicada na capa do caderno semanal de “Artes Plásticas” do ‘New York Times’ é difícil, até mesmo para o crítico experimentado, não sair da mostra ruminando, um tanto quanto inocente, que a artista talvez fosse uma alma pura demais para este mundo malvado. As fotografias produzidas na casa semiabandonada em Providence, cidade cara ao coração deste escriba, em que ela vivia nos tempos de universidade, com sua quase-metamorfose em um espectro, um corpo prestes a desaparecer, tratam da urgência da vida de modo seco, belo e exato.

O que pulsa em “Francesca Woodman” é a história contada pela artista nas imagens redescobertas depois de sua morte por curadores e professores de arte de diversas universidades americanas. Narcisa às avessas, a jovem se expõe, 30 anos após o suicídio, no anexo do Gugg, e nos deixa um imenso ponto de interrogação, uma vontade de saber o que mais ela teria produzido, com o que teria experimentado, por qual caminhos seguiria.

***
Zou. Bisou. Bisou. Foi o que ficou do primeiro capítulo da quinta temporada de “Mad Men – Inventando verdades”, uma maratona deliciosa de duas horas que promoveu o reencontro de Don Draper & cia. com os da poltrona aqui dos EUA. Depois de uma secura de um ano e cinco meses, a série que gira em torno do mundo das agências de publicidade da Avenida Madison, em Manhattan, nos anos 1960, avançou pela época conturbada da luta pelos direitos civis dos negros americanos com uma deliciosa apresentação, nada privê, de Megan, a ex-secretária e atual senhora Draper, sussurrando “Zou bisou bisou”, quase sem sotaque, na festa-surpresa dos 40 anos do personagem vivido por Jon Hamm. Que, como se pode esperar, não sabia onde enfiar a cara.

O episódio bateu o recorde de público da série – 3,5 milhões de espectadores – e gerou uma fita-banana ianque em torno da canção, favorita do criador da série por conta da interpretação – bem mais boa-moça, diga-se de passagem – de Sophia Loren na comédia “The Millionairess” (“A Milionária”), com Peter Sellers. Mas a canção, ao contrário do que pensara Matt Weiner, o idealizador de “Mad Men”, fora gravada originalmente, e com sucesso, por Gillian Hills, nascida no Egito, neta de poeta polonês e promessa de nova Brigitte Bardot que estreou com a música em 1960, quando tinha 16 anos. Encontrada por jornalistas americanos em Londres, ela se disse surpresa com a regravação, revelou que adora as aventuras de Joan e Peggy (dus das melhoras personagens da série) e fez uma aposta (certeira) de que a nova versão era certamente “mais picante” do que a sua.

Uma espécie de pré-“Di dooh dah”, sucesso uma década depois na voz de Jane Birkin, “Zou bisou bisou” voltou às paradas francesas em 1961, em versão da israelense Maya Casabianca, por sua vez, nascida no Marrcos. E nesta volta ao mundo em beijinhos franceses sem fim a gravação chegou, na segunda-feira, à primeira posição na lista das mais baixadas no iTunes americano. Na voz da atriz Jessica Pare, a Megan de Don Draper, que já ganhou o seu presente de aniversário: por conta dos pedidos, uma edição do ‘single’ redivivo vende como água para os fãs mais ardorosos no site da série.

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