Eduardo Graça

Coluna

Gui Mohallem – “Ensaio sobre a loucura”; “Coney Island”, “Welcome Home”…

A coluna da semana, no Segundo Caderno, d’O GLOBO, sobre a minha descoberta da obra de Gui Mohallem, um dos artistas contemporâneos brasileiros que mais me tocam no momento. As duas fotos no post são da série “Welcome Home”, do Mohallem:

Gente Quer Casa

O encontro se deu por obra de uma amiga em comum, a jornalista Teté Ribeiro, editora da revista “Serafina”, da Folha de S.Paulo, de modo deliciosamente imperativo: “Você tem que conhecer o Gui Mohallem”. Ela já não morava mais em Nova York, ele viera inaugurar sua primeira individual na cidade, nunca fui doido de negar ordem da ruiva querida, e nos encontramos há três outonos nos jardins da Cadman Plaza, a meio caminho de minha então pequenina casa de dois séculos, no distrito histórico de Cobble Hill, e da galeria, no contemporâneo bairro de Dumbo, onde as fotos de seu “Ensaio para a loucura” seriam apresentadas. O que eu não sabia é que a exposição do Brooklyn era, também, a primeira individual do mineiro de Itajubá.

Bandeirante delicado, investigador inquieto, Mohallem buscava ampliar os limites do retrato ao incorporar à imagem escolhida em parceria com os indivíduos (“insanos”) eleitos frases por eles produzidas, quase sempre penetrantes, girando em torno do amor, do sexo, da morte, oferecendo uma incômoda ponte para o incauto observador. Frente ao seu primeiro trabalho, e apesar da dimensão miúda das telas da galeria localizada a poucos passos do East River, senti-me menos voyeur e mais participante da experiência da loucura das vidas ali expostas pelo artista.

Entre uma e outra mordida no éclair do vizinho bistrô francês Almondine, Mohallem, sempre atento, revelou-me que havia se enfronhado no mundo das celebrações de liberação amorosa retratadas pelo cineasta John Cameron Mitchell (de “Hedwig – rock, amor e traição” e “Reencontrando a felicidade”) em seu segundo longa-metragem, “Shortbus”. Fizera fotos no elevador do prédio, localizado ali mesmo no Dumbo, que conduzia alguns dos personagens mais interessantes da noite underground nova-iorquina a uma das festas mais concorridas do momento, ávidos por uma celebração da cidade teimosamente insone, ainda que dopada pela orgia do dinheiro fácil, já em ritmo de marcha lenta no outro lado da ponte de Manhattan.

Foi no universo do ‘Shortbus” que o fotógrafo descobriu o movimento setentista dos Radical Faeries. Pegou um avião, baixou num bosque no meio do Tennessee, e clicou, mais uma vez com a aquiescência de seus personagens, a celebração de um ritual pagão na América Profunda, no seio do fundamentalismo cristão ianque. Ao contrário da série dedicada à loucura, as imagens de “Welcome home” invadiram minha retina de forma violenta. As vi pela primeira vez em São Paulo, na Galeria Emma Thomas, no início do ano, em uma exposição que revelava meninos, meninas, meninos-meninas, meninas-meninos, vestidos, nus, sós, acompanhados, ao mesmo tempo propondo uma conversa sobre a ditadura do gênero e a insinuação de que, homem, mulher, criança, passamos a vida à procura de casa(s).

De volta a NY, Mohallem está ansioso para apresentar a seus colegas do Éden mundano escondido no sul dos EUA as 50 fotos que irão ilustrar seu livro sobre o lar (re)encontrado na improbabilidade dos cafundós do Tennessee. Se na “loucura” nos reconhecíamos, espectadores, entre inquietos e maravilhados, em espelhos mais ou menos disfarçados de nós mesmos, é ele, o artista, quem surge, cabeça erguida, braços abertos, nos dando a mão, no verde dominante de “Welcome home”. Se seu primeiro esforço examinava com alguma crueza um viés específico da pessoa, o trabalho mais recente é escancaradamente humanista. Curiosamente, as imagens de inclusão, a ausência de liderança, o ideário pós-anarquista das “fadas radicais”, tão caros a Mohallem, estão hoje também presentes em praças variadas das grandes cidades americanas, nas noites das grandes fogueiras de outono compartilhadas por homens, mulheres, crianças, acéfalos organizacionalmente, mas felizes ao se perceberem diferentes ‘de tudo isso que está aí’, no batuque dos “Ocupem Wall Street”.

Mas não me surpreendo quando o artista revela que suas obras de maior apelo comercial seguem sendo as de uma terceira série, dedicada à solidão, gerada em dias passados, a sós, no limite oriental do Brooklyn, na vastidão acinzentada de Coney Island. Durante o dia um bairro singularíssimo na geografia humana de Nova York, habitado democraticamente por imigrantes europeus, de origem russa e ucraniana, e moradores negros e de origem latino-americana, à noite um parque de diversões depauperado, lembrete de uma cidade há muito invisível, existente apenas na visão privilegiada dos olhos brasileiros de Mohallem, sonhando exotismos, tal qual nos versos do poeta maior. Algumas imagens da série de Coney Island foram parar na coleção de uma família de conhecidos banqueiros brasileiros. É o fotógrafo, com sua pequena e precisa obra, revelando também a sensibilidade estética das elites no vaivém nada harmônico entre a solidão e a comunhão. Teté Ribeiro é quem estava certa: eu tinha que conhecer o Gui Mohallem.

One Response to Gui Mohallem – “Ensaio sobre a loucura”; “Coney Island”, “Welcome Home”…

  1. Milena disse:

    Eduardo, eu não tenho deixado recado, mas estou sempre te lendo. O site é maravilhoso. Escrevi agora porque precisava dizer o quanto gostei deste seu texto sobre Gui Mohallem. Eu conheci este fotógrafo a pouco tempo e tive a mesma sensação de alegria. Um abraço bem abraço de ano novo.

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