Eduardo Graça

Cultura

Os meninos da praça: abaixo Wall Street

Capa do caderno EU&Fim de Semana, do Valor Econômico, que chegou hoje às bancas, minha reportagem sobre o Ocuppy Wall Street, há três semanas fazendo um barulhinho bom de ouvir aqui em Nova York. Segue o texto:

Na praça, contra tudo
Por Eduardo Graça | Para o Valor, de Nova York

Eles são estudantes, desempregados, ex-militares, funcionários públicos, professores, sindicalistas, marxistas, punks, ambientalistas, artistas, anarquistas, militantes de carteirinha dos movimento negro e dos grupos que lutam pelos direitos dos homossexuais. Mas também são Susan Sarandon, Noam Chomsky, Michael Moore e Joseph Stiglitz, algumas das vozes célebres na salada política denominada “Ocupem Wall Street”, que tomou conta do parque Zuccotti, localizado a meio caminho entre Wall Street e o Ground Zero, no distrito financeiro de Manhattan, ao lado de um dos grandes templos do consumo da cidade de Nova York, favorito de nove entre dez turistas brasileiros, a loja de departamentos Century 21.

No acampamento montado há pouco mais de três semanas no local, onde os manifestantes se amontoam em colchões improvisados e se protegem da tradicional chuva fria de outono com lonas coloridas, essa federação de interesses tem ao menos um objetivo claro: ver o sistema financeiro pagar pela crise econômica financeira que levou a maior economia do planeta a índices de pobreza e desigualdade social similares aos da Grande Depressão.

“Ainda não podemos sequer afirmar se tratar de uma federação. Eles são cidadãos comuns que perceberam não fazer mais parte da engrenagem da sociedade americana”, diz o sociólogo Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU), que acaba de lançar “White Riot”, um conjunto de ensaios sobre a cultura punk da virada dos anos 1980 nos Estados Unidos e a transformação do niilismo anárquico em uma negação mais ou menos consciente da ordem capitalista. Para ele, a retórica usada é de esquerda, mas o mais fascinante é a ausência das formas de protesto da esquerda tradicional, já que não há demandas definidas ou uma organização verticalizada. “Há quem veja nisso sinais de desesperança no poder de ação dos meninos da praça. É um equívoco. O que se dá em Manhattan, hoje, é o nascimento de um novo tipo de movimento social, multivocal, sem ícones, conectado.”

Se nos anos 1960 o crítico literário Lionell Trilling descreveu a onda de protestos nos EUA como o “modernismo nas ruas”, o que se vê em Wall Street, observa Duncombe, é o começo da “internet nas ruas”. “De certa forma, eles são filhos dos militantes antiglobalização dos anos 1990, quando se percebia um grande ‘não’ e milhares de ‘sim’ nas faixas, gritos de ordem e objetivos dos militantes.”

“Ocupem Wall Street, desocupem a Palestina!”, “Nós somos os 99% que pagam impostos, junte-se a nós!”, “Quando a injustiça impera, resistir é nosso dever” [Thomas Jefferson], “Vocês viram a Primavera Árabe, venham conhecer o Outono Americano” e “Bem-vindos aos Estados Soviéticos da América” foram algumas das mensagens espalhadas pela praça nos três dias em que o Valor acompanhou a atividade de militantes que chegaram dos quatro cantos do país. No artigo sobre o tema mais comentado da semana, “Os banqueiros e os revolucionários”, o colunista do “New York Times” Nicholas Kristof diz que, depois de passar o ano cobrindo levantes populares do Cairo ao Marrocos, precisou apenas pegar o metrô para conferir o novo “campo revolucionário” urbano do planeta: a praça Zuccotti.

“Muita gente chiou depois que postei no twitter que a Zuccotti me lembrava a praça Tahir, no Egito. Claro, não há balas disparadas ao redor e ninguém pretende demover ditadores do poder. Mas ali está a mesma juventude alienada, a mesma vontade de usar as mídias sociais para recrutar mais participantes e, principalmente, há também um sensação de insatisfação entre os jovens com um sistema político e econômico que os manifestantes consideram corrupto, falido e venal”, escreve Kristof.

Os paralelos com a Primavera Árabe são cultivados pelos militantes, mas eles também se inspiraram nos protestos recentes na Espanha e na Grécia, cujo parentesco, especialmente no campo das ideias, parece mais direto. “Vim para cá porque não acredito mais no processo que a elite chama de democrático. Não tenho dinheiro para pagar a universidade, não consigo arrumar emprego e minha única alternativa, fora da praça, é ir para a Flórida, onde moram meus tios, e me alistar como fuzileiro naval. A democracia, o mundo das possibilidades, das escolhas, é tudo uma falácia”, lamentava Eric Suarez, 25 anos, que trocou a casa dos pais em Jersey City, onde se apertava em um quartinho desde que foi mandado embora da loja em que trabalhava, por um colchão no meio do distrito financeiro de Nova York.

A desilusão com o processo democrático também foi o combustível que levou Season Poll, 22, a encarar 18 horas de ônibus para deixar os cafundós do Ohio e se instalar no acampamento de Wall Street. “Essa gente precisa pagar pelo que fez. Somos a maioria da população e só vamos sair daqui quando os bancos passarem a ser regulamentados, tiverem de prestar satisfação aos cidadãos comuns. Daqui ninguém me tira!”, disse, a voz desafiadora, o cabelo negro liso jogado para o lado e um pedido sutil de privacidade, pois começara a ler um livro há poucos minutos.

A praça, no fim de tarde chuvosa de segunda-feira, é um organismo vivo, com muita gente lendo romances, gibis e livros de filosofia e sociologia com igual interesse, todos adquiridos de forma gratuita na biblioteca popular instalada na extremidade noroeste do acampamento. Ao centro fica a cozinha comunitária, com muitas frutas e verduras, mas sucesso mesmo faz a pizza de um estabelecimento local, que, simpático às massas, criou a “OccuPie special’. Detalhe: qualquer simpatizante, do mundo todo, pode fazer o pedido online, pagar com cartão de crédito, e mandar entregar na praça. A quantidade de alimentos é tamanha, mesmo para as cerca de 500 pessoas presentes de forma integral no local (no domingo, mais de 3 mil circulavam pela praça e boa parte dos manifestantes vivem em Nova York e voltam para casa todos os dias), que os organizadores criaram um sistema de distribuição para os desabrigados da parte sul da ilha de Manhattan. Como Nova York acaba de anunciar que 20% de sua população vive abaixo da linha de pobreza, a ajuda é mais do que bem-vinda.

Abra-se um parêntese para sublinhar a multiplicidade de cores, rostos e idades circulando pela praça. Há manifestantes de todas as idades (embora a maioria seja jovem e caucasiana), gêneros e etnias e, apesar de todas as críticas – especialmente de setores liberais – relacionadas ao caráter oba-oba do “Ocupem Wall Street!”, o que impressiona o visitante em um primeiro momento é justamente o caráter sistemático do grupo, que conta com assistência jurídica gratuita para os que acabam presos por ocupar as ruas da cidade e mantém uma agenda mais ou menos rígida, constituída de uma marcha diária pela cidade e assembleias-gerais intensas, inspiradas em movimentos pacíficos de protesto. A maior delas até o fechamento desta reportagem acabou gerando a prisão de 700 manifestantes na ponte do Brooklyn, no fim de semana passado. Na quarta-feira, sindicalistas das principais federações de trabalhadores do país prometeram engrossar a marcha dos meninos da praça, que pretende fazer um barulho enorme na prefeitura, localizada no limite entre o distrito financeiro e o chamado City Hall.

“Não é irônico isso?”, pergunta o estudante da Escola de Negócios da Universidade Baruch – sem reconhecer ser ele mesmo uma ironia andante – Brandon Klein, 21 anos, que vive no Queens: “Os republicanos acharam que levariam a democracia para o mundo árabe invadindo o Iraque. A ironia é que foi o mundo árabe que nos deu uma lição de democracia e, posso garantir, estamos aprendendo rápido”. Alto, magro, usando um casaco fino, passando frio no começo da noite de outono com temperaturas de 12 graus, Klein conta que só conseguiu uma bolsa na faculdade depois que sua mãe, enfermeira, perdeu o emprego. “Agora ela faz uns bicos para manter a casa, mas pelo menos consegui a bolsa porque pude provar ser uma pessoa pobre”, diz.

São esses meninos que começam a tirar o sono da elite financeira ianque. A principal estrela da cobertura de economia do “New York Times”, o colunista Andrew Ross Sorkin, autor do best-seller “Too Big To Fail: The Inside Story of How Wall Street and Washington Fought to Save the Financial System – and Themselves”, uma das mais completas crônicas do desmoronamento da economia americana nos anos Bush, escreveu, na terça-feira, que vem recebendo seguidos telefonemas de preocupados figurões do setor financeiro. “Um CEO me perguntou se havia algum risco para sua segurança física”, revelou.

Sorkin lembra que a maioria dos bancos de investimento está localizada hoje em Midtown, nas imediações da Park Avenue, muitas quadras ao norte da praça Zuccotti, mas o simbolismo da ocupação, frisa, foi bem maior do que eventuais peculiaridades geográficas. “Disse aos executivos que a mensagem desses meninos é clara – eles querem que Wall Street e as corporações americanas paguem o que devem pela crise financeira e o aumento da desigualdade social do país. E se a economia continuar o ciclo negativo por mais tempo, poderemos evoluir para algo mais próximo de uma desobediência civil em massa”, diz um dos jornalistas que mais conhece as entranhas do sistema financeiro americano.

A semente do populismo niilista-esquerdista (como vem sendo chamado por parte da academia) se espalhou pelos quatro cantos dos Estados Unidos. Já há grupos denominados “Ocupem Wall Street” reunidos na bandeira “Ocupem Juntos” em Washington, Boston, Chicago, Los Angeles, Baltimore, Mineápolis, Memphis e Seattle, mas também em localidades menos óbvias, como Hilo, no Havaí, e McAllen, no Texas. Na capital federal, o grupo planeja ocupar em breve uma praça nas imediações da Casa Branca.

“Se esse crescimento seguir nos próximos meses, os meninos vão forçar o presidente a se mover para a esquerda, exatamente como Franklin Roosevelt fez durante o New Deal”, prevê Duncombe. Nesse aspecto, o ‘Ocupem Wall Street’ se assemelha ao ‘Tea Party’, que jogou o Partido Republicano ainda mais para a direita. “Mas existe uma grande diferença entre os dois. O Tea Party se tornou uma ala da oposição, abrigando as elites conservadoras. Os meninos da praça Zuccotti também são críticos do Partido Democrata e não querem a proximidade com os figurões do partido. Esse aspecto pode torná-los pouco eficazes em um primeiro momento, mas também aumenta seu poder de influência ao questionarem o sistema político, e não apenas um ator específico do bipartidarismo característico da moderna democracia americana.”

Dias atrás, o ex-governador de Nova York e cacique democrata David Paterson foi dar seu apoio aos manifestantes, mas foi recebido com frieza, ao contrário da festa que se fez em torno de Michael Moore. O documentarista exigiu que sua entrevista exclusiva ao canal de notícias 24h MSNBC sobre o “Ocupem Wall Street” acontecesse in loco. Com o barulho dos manifestantes ao fundo, ele disparou: “Basta! Este é o começo da revolta. A gente se encheu. Acabou! Este é o resultado óbvio de um país que jogou 46 milhões de pessoas na pobreza, e isso vai acontecer, de forma não-violenta, no país todo, nos próximos dias. E sabe por que não vai ter agressão? É por que há milhares de pessoas como nós, e apenas umas poucas centenas do outro lado!”, disparou.

Com uma nota de dólar na boca, afirmando que a democracia americana não tem mais voz, tolhida pelo domínio das corporações e dos lobistas, o ex-bibliotecário Robert James Carlson, 25 anos, concorda com o diretor de “Capitalism: a Love Story”: “Estou acampado há oito dias e isso aqui só faz crescer. Está começando a ficar apertado, mas é sinal de nossa força, de nossa tenacidade. Não consigo emprego, não tenho dinheiro para voltar para a universidade, não sei mais o que fazer. O que restou de minha criatividade, de meu desejo, eu trouxe para cá. Além de me reenergizar, sinto que estou de fato fazendo algo para mudar o meu país. Meu único porém é não ter saído às ruas antes. Por que demorei tanto?”.

A sensação de raiva que impera na praça é, enfatiza Kristof, mais do que compreensível: “É enervante ver banqueiros que foram salvos da bancarrota pelos contribuintes agora reclamar de eventuais regulamentações pensadas justamente como uma proteção contra eventuais quebradeiras do setor. E é muito importante o fato de os manifestantes destacarem o aumento da desigualdade social: alguém acha que é certo 1% da população dos Estados Unidos possuir mais capital do que o conjunto dos 90% menos favorecidos economicamente?”.

Duncombe lembra que os mesmos liberais, rápidos em torcer o nariz para os manifestantes antiglobalização, seguem desconfiados de um movimento já responsável, em sua curta existência, por caminhadas tão hilárias quanto memoráveis, como o ataque dos zumbis banqueiros na ponte do Brooklyn ou a polêmica marcha de topless que deixou a sisuda polícia nova-iorquina desconcertada. A bem da verdade, apesar das prisões, a relação entre os dois grupos segue no limite do cordial, com os representantes da lei trazendo cookies para o café da manhã dos meninos que, por sua vez, retribuem com um chocolate quente caprichado no fim do dia, quando o frio vem.

O interesse de Duncombe pelas táticas de protesto pouco convencionais fazem sentido. Ele foi um destacado ativista dos “Bilionários com Bush”, grupo que se vestia como Tio Patinhas para mostrar qual parcela da sociedade americana, em sua visão, se beneficiaria mais com a reeleição, em 2004, do ex-governador do Texas. Ele discorda dos que veem nos meninos da praça inocentes úteis. “Mas é exatamente o oposto! Eles são ultrarrealistas. Por que fazer uma lista de demandas quando elas serão solenemente ignoradas? Por que levantar uma bandeira partidária, se isso significa a limitação de possibilidades, a ossificação do movimento? Não, estas são características dos protestos políticos do passado. O que estamos vislumbrando na praça Zuccotti, na Europa e no mundo islâmico, é o futuro, o surgimento de algo novo, que ainda precisa de tempo para desenvolver um vocabulário político próprio, uma estrutura específica.”

“Ouso dizer que o impacto do ‘Ocupem Wall Street’ será ainda maior do que o dos movimentos esquerdistas dos anos 1930 e 60″, imagina o professor da Universidade de Nova York. “Um observador menos perspicaz pode se prender à moda punk e às tatuagens dos meninos da praça, mas há um diferencial importante: eles estão mais próximos do interesse da maioria dos americanos do que os radicais da contracultura. Os neorradicais estão tratando de temas que impactam a imensa maioria da sociedade: a instabilidade econômica e o sentimento de apatia frente ao sistema político. Há uma clara verdade na tecla, por eles batida a todo momento, de que ‘representamos aqui os outros 99%’ da população, completamente alijados do poder. É isso!”, diz Duncombe, como quem matasse uma charada.

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