Eduardo Graça

Coluna

Os alienados antenados e a estética da invasão

Coluna de hoje no Segundo Caderno do GLOBO, sobre os meninos da praça e sua vocação cultural. Você já ouviu falar dos Poetas Ocupantes? Aqui, ó:

Coluna Pelo Mundo-NY
Eduardo Graça

Na Praça da Liberdade, com os meninos

Não se passa hoje por Nova York sem ouvir o batuque constante que vem da Praça Zuccotti, o espaço de cerca de 3 mil metros quadrados localizado na extremidade sul da ilha de Manhattan, entre a Broadway e a rua Liberty, ao lado de onde ficava uma das entradas para as torres gêmeas do Wolrd Trade Center. Os organizadores do Ocupem Wall Street, movimento que desde o dia 17 de setembro reúne milhares de pessoas nas proximidades do Distrito Financeiro em protesto contra o aumento da desigualdade social nos EUA e a desregulamentação do setor financeiro, rebatizaram o local de Praça da Liberdade, seu nome original até 2006.

Tomada majoritariamente por jovens estudantes e recém-formados, a Praça da Liberdade é uma experiência de democracia direta (tudo é decidido em concorridas assembleias gerais) com aspirações comportamentais e culturais. Criticados à direita por ‘defenderem uma guerra de classes, jogando a população contra os mais ricos’ e à esquerda por ‘exigirem o impossível, sem apresentarem propostas concretas para a substituição de ‘tudo isso que está aí’, os meninos do ‘Ocupem Wall Street’ são os alienados mais antenados com a realidade que tive o prazer de conhecer.

Uma “cruz vermelha e negra” trata dos primeiros socorros, com medicamentos doados por simpatizantes espalhados pelo país. Os “facilitadores da mídia” cuidam da máquina de propaganda popular que transformou a ocupação em fenômeno nacional. O ‘espaço do conforto’ oferece casacos, calças e meias para enfrentar o frio que começa a chegar, cobertores para a noite, guarda-chuvas, além de micro-tendas e colchões infláveis de camping, fundamentais para as novas levas de jovens que chegam a cada dia. Gente que viaja até vinte horas de ônibus para ouvir o barulhinho bom da praça.

A ‘cozinha popular’ chama atenção, e não é exagero dizer que hoje um dos locais mais inusitados para se comer ao ar livre em Nova York é a Zuccotti. O restaurante funciona a partir de doações de fazendeiros, proprietários de restaurantes e donas de casa. A comida é oferecida em um gigantesco bufê e é rica em legumes, cereais, carne, verduras e frutas. A distribuição é gratuita e pede-se apenas uma contribuição para quem quiser experimentar as guloseimas criadas por aprendizes de chefs e cozinheiros amadores.

Steve Jobs ficaria orgulhoso se pudesse observar as ferramentas mais disputadas na praça: os computadores, em sua maioria da Apple, e os iPhones, utilizados para registrar cores, vozes e centenas de faixas de protesto, para mandá-las adiante utilizando as redes sociais, assumidamente inspirados pelos militantes da chamada Primavera Árabe e dos que ocuparam as ruas da Espanha e da Grécia este ano.

O “Ocupem Wall Street” criou uma plataforma midiática própria para fortalecer sua narrativa. A divulgação ajudou a aumentar o apoio ao grupo, com sindicatos e religiosos das mais diversas denominações batendo ponto no local. A página do grupo na internet, a www.occupywallst.org, oferece imagens 24 horas da praça, mostrando o que acontece no local em tempo real, além de um canal de chat e um fórum de discussões. Páginas no Facebook se multiplicam. Dois enormes geradores garantem o funcionamento em tempo total de computadores, câmeras e celulares.

A edição das imagens é feita no próprio local, por profissionais voluntários do mundo da televisão, e uma das imagens mais fortes é a do trabalho criado por Alex Mallis e Luly Henderson, que mostra um jovem, bandeira azul-vemelha-e-branca nas mãos gritando “pelo direito da liberdade de se expressar nas ruas de Nova York” enquanto um policial assiste à passagem andante da democracia de cabeça baixa, sem qualquer tique repressor.

Um departamento legal, resultante da generosidade de advogados-militantes, foi criado para ajudar na defesa dos manifestantes detidos pela polícia em passeatas. No momento em que escrevia a coluna, os meninos haviam pego o metrô rumo ao Upper East Side para protestarem em frente às mansões de Rupert Murdoch, dos irmãos Koch e do CEO do Chase Manhattan Bank, na “Marcha contra os Bilionários”.

Ainda não é possível saber se uma estética nascerá dos movimentos populares, espalhados por todos os EUA, iniciados pelo “Ocupem Wall Street”. Na Zuccotti, há placas anunciando shows gratuitos de neo-punk, canções de protesto cunhadas no calor da hora, em que o velho violão e a gaita folk se unem harmonicamente com o batuque africano, aulas espontâneas de dança ao nascer do sol, e um grupo de ‘poetas ocupantes’. Todas as sextas-feiras, na noite anterior às grandes marchas de sábado, os ‘poetas da liberdade’ ocupam a ‘esquina da poesia’ e apresentam suas obras em leituras que, dada a concorrência, não podem passar de três minutos. Os temas giram em torno da esperança, da luta, dos sonhos dos meninos da praça. Para quem vem a trabalho ou a passeio neste outono, a Nova York que pulsa de modo incessante bate em ritmo mais acelerado na Praça da Liberdade.

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