Eduardo Graça

Coluna

Histórias Cruzadas

Coluna PELO MUNDO de hoje, no Segundo Caderno d’O GLOBO, sobre o filme-sensação dos EUA no momento e as relações entre patrões e empregadas domésticas, aqui e aí no Brasil:

Um dia depois da passagem assim-assado do furacão irene, Nova York acordou preguiçosa, pouco interessada em voltar ao seu habitual corre-corre. Metrô funcionando à meia-boca, linhas de ônibus alteradas, abracei feliz minha faceta andarilho e percorri, a pé, o trajeto de Williamsburg, no Brooklyn, até a rua 54, no coração de Manhattan. Lá fica o Ziegfeld, considerado por muitos o melhor cinema destas bandas, e o destaque da programação esta semana é o filme mais discutido do verão americano, “Histórias cruzadas”, que chega ao Brasil em fevereiro.

A sessão das 17h15 estava cheia. E estamos falando de 1.100 lugares, ocupados por espectadores interessados em um filme sem grandes medalhões de Hollywood, imagens criadas por computador, tecnologia 3D ou super-heróis escalados para salvar a civilização ocidental. Mas o ti-ti-ti depois dos créditos girou invariavelmente em torno da mesma questão: é possível se emocionar com a adaptação do best-seller de Kathryn Stockett sobre as relações de um grupo de empregadas domésticas negras do Mississipi dos anos 60 com suas patroas brancas e, ao mesmo tempo, se incomodar com a desonestidade histórica de uma narrativa recheada de clichês e estereótipos, dando aos personagens brancos, no microcosmo de uma cidade-símbolo do segregacionismo sulista, a primazia de conduzir um dos movimentos sociais mais ricos da história americana?

Quem matou melhor a charada foi o colunista Mark Harris, da “Entertainment Weekly”. Para ele, a cena mais significativa do drama que há duas semanas permanece no topo da lista dos mais vistos nos EUA é aquela em que uma dúzia de empregadas do gueto negro da cidade de Jackson se reúne na casa de Aibileen, vivida de modo magistral por Viola Davis, e decide dividir suas histórias de terror com Skeeter, a jornalista branca e idealista encarnada por Emma Stone, empenhada em escrever um livro denunciando os abusos cometidos contra as trabalhadoras, a fim de revelar as entranhas do racismo americano.

O encontro, crucial para a trama, dá o que pensar, menos pelo ato de coragem, incitado pela patroa liberal, e mais pela realidade nua e crua ali exposta: onde se escondiam atrizes tão talentosas como Octavia Spencer, Aunjanue Ellis, Roslyn Ruff e Tarra Riggs, que preenchem por poucos minutos a gigantesca tela do Ziegfeld com tamanha intensidade? Viola Davis, a razão de ser do filme, é um monstro. Uma das pérolas do teatro nova-iorquino, ela ficou conhecida do grande público pela senhora Miller de “Dúvida”, quando transformou uma participação de oito minutos em veículo para uma merecida indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. E por que a gigantesca Cicely Tyson não tem um grande papel em Hollywood desde “Tomates verdes fritos”, há vinte distantes verões?

Subitamente “Histórias cruzadas” deixa de ser uma equivocada peça de época para tratar, ainda que sem querer, da desigualdade de oportunidades para profissionais negros na terra de Barack Obama. Harris termina o texto com uma provocação: “Se você se incomoda com este desequilíbrio, vá ver o filme logo. E se, por qualquer razão, este fato não o perturbe, pegue correndo a primeira sessão no cinema mais próximo de sua casa”. Touché!

No “Times”, a socióloga Patricia A. Turner, da Universidade da Califórnia, sublinha a perversidade mais incômoda do filme do diretor e roteirista Tate Taylor: o estabelecimento de uma linha divisória entre “brancos maus, racistas” e os “bons, não-preconceituosos”. O simplismo do blockbuster coloca em um mesmo patamar a vergonha moral das donas de casa intimadas a representar determinado papel social, como a mãe de Skeeter, e o tratamento desumano sofrido pelas negras em tempo integral. Pat Turner reconhece que seus pais ficariam satisfeitos com a melhoria da condição social dos afro-americanos desde os anos retratados por “Histórias cruzadas”, quando, ao lado da mãe, empregada doméstica e negra, decorava os discursos de um certo Martin Luther King Jr. na acanhada tevê de casa. Mas também enfatiza que eles não gostariam de ver aqueles tempos tão difíceis e transformadores pintados a cal de forma tão escancarada.

Não consegui evitar um sorriso de reconhecimento quando Aibileen respondeu para Skeeter, positivamente, em outra cena impactante, sobre a inevitabilidade de seu destino profissional. A avó fora escrava doméstica, a mãe trabalhara na casa da mesma família vida afora. Em criança, convivi com mulheres negras tratadas “como se da família fossem”, agraciadas com um lugar à mesa nas refeições, um quartinho nos fundos, uma vida sexual nula e a certeza de que se dedicariam aos “familiares” até o fim da vida. No momento em que uma inédita transferência de renda modifica sensivelmente a relação entre patrões e empregadas nos grandes centros urbanos brasileiros, “Histórias cruzadas” pode servir, com seus equívocos gritantes e belas atuações, como curioso objeto de reflexão sobre mudanças sociais tão profundas em nossa sociedade.

3 Responses to Histórias Cruzadas

  1. Olga disse:

    Li “A Resposta” – e foi uma gratíssima surpresa!
    Vou esperar o filme, claro…

    • Eduardo disse:

      achei o livro quase tão problemático quanto o filme. mas achei o filme ainda mais simplista. em fevereiro vc me conta! beijos e saudades.

  2. Olga disse:

    Achei o livro bem traçado, como livro. A história é pra lá de previsível. O que achei realmente interessante foi a forma, não o tema – que sempre esbarra nos clichês tradicionais. Comecei a ler e fui em frente. É raro esse tipo de livro – que fica 800 anos em lista de New York Times – me agarrar.
    Tenho um certo temor de Viola Davis, uma atriz intensa, que domina de tal modo a atuação que… sei lá. . A cena que menos me impressiona em “Dúvida” é exatamente a dela – feita pra ganhar indicação de Oscar, com toda aquela exuberância de secreções …
    Tratar de racismo nos EUA sempre tem um tom doutrinário e moralista. Aqui, a coisa é diferente. Dolorosamente diferente, montada em sutilezas sociais e culturais difíceis de serem compreendidas por quem é de fora.

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