Eduardo Graça

Coluna

Cinema Gastronômico em Williamsburg

A coluna de hoje, no Segundo Caderno d’O Globo, é sobre o Nitehawk, o primeiro cine-gastronômico de NY, a módicos US$ 11/entrada. E os quitutes são do chef Saul Bolton. Aprovado:

Cinema Gastronômico

O clássico programa filme-jantar também é uma instituição por aqui. Em Williamsburg, a pedida da vez é o Nitehawk, o primeiro cinema-restaurante de Nova York, com um atrativo fundamental em tempos de recessão: o preço da entrada, os mesmos US$ 11 cobrados em qualquer multiplex de Manhattan. Minha escolha em um sábado pré-11 de Setembro, sem metrô e com uma atmosfera ligeiramente carregada do lado de cá do East River, foi “The future”, o novo esforço de Miranda July,

O barato do Nitehawk é que ele se apropriou do conceito do cinema vip – incipiente em Nova York, mas já presente em São Paulo, por exemplo, nas salas do Iguatemi e no Cinépolis Alphaville – e o adaptou para os barbudos de Williamsburg. O primeiro andar é um bar transado, com drinquinhos inspirados por clássicos do cinema independente. O eleito pelos meus vizinhos foi o Amores Perros, com tequila El Jimador, limão siciliano, grapefruit, agave e uma pitada generosa de sal do mar com chipotle. Por conta da legislação municipal, as bebidas alcoólicas não entram com o público no escurinho do cinema. Talvez o grande porém do Nitehawk seja a necessidade de se chegar ao menos meia hora antes do início do filme, para que a cozinha tenha tempo de preparar os quitutes da noite. Apressadinhos passam fome ou ficam restritos aos dois tipos de pipoca gourmet, a salgada (deliciosa, com queijo parmesão reggiano, limão e manteiga de alho) e a doce, coberta por caramelo inglês.

A cozinha, que fica no primeiro andar, nos fundos do bar, ao lado da Sala 3 (sim, o serviço, ali, é mais rápido do que o das outras duas salas), é uma maravilha. Quem a comanda é Saul Bolton, chefe do primeiro restaurante do Brooklyn a receber uma estrela do guia Michelin. Pode-se dizer que o Nitehawk é sua terceira casa no distrito mais populoso de Nova York. E o cardápio é original, no meio do caminho da sisudez do “Saul”, um dos melhores endereços culinários de BoCoCa (acrônimo para os bairros da moda Boerum Hill, Cobble Hill e Carroll Gardens) e das experimentações do “The Vanderbilt”, um oásis em Prospect Heights, a localização emergente a meio caminho do Prospect Park.

Comecei com as empanadas de queijo, recheadas por um mix de cotija com mussarela e cheddar, com salsa verde orgânica, um auxílio luxuoso mas não obrigatório, já que a massa, embora crocante, desmancha na boca do faminto cinéfilo. O filme já na metade, apertei o botão luminoso abaixo da mesinha de madeira localizada em frente à poltrona para informar que era hora de devorar o sanduíche de filé marinado com kimchi (preparado de repolho coreano, um favorito dos nova-iorquinos), ligeiramente apimentado. Um sucesso, e tudo por U$ 18. O cine-restaurante também já é famoso pelo hambúrguer de primeira, os arancini caseiros (bolinhas fritas de arroz com maçã caramelizada, bacon defumado e queijo cheddar), os tamales (mal-comparando, a pamonha mexicana) de cogumelos com chile poblano e a salada de melancia com jicama e hortelã.

Garçons atenciosos, treinados para não atrapalharem a visão do público durante a projeção

Para além das comidinhas de primeira, o cinema gastronômico vale pelo custo-benefício do espaço generoso das poltronas – não há o risco de se ouvir o vizinho ao lado cochichando sobre a trama ou, mais importante, de se levar um chute no encosto da cadeira – e da decisão de se tratar cada filme de modo artesanal. Além de um menu de especiais exclusivos (no caso de “The Future”, o extra era um sundae de mamão), os trailers são todos escolhidos a dedo. No sábado, vimos uma série de curtas independentes, pequenas estripulias de John C. Reiley e Steve Buscemi, uma cena do filme de Miranda July apresentada pela diretora-roteirista-atriz, como se estivéssemos de fato em casa, curtindo um DVD, além de trechos dos filmes que sucederão “The Future” na sala 3, entre eles o ótimo “Drive”, com Ryan Gosling.

Os garçons são atenciosos, treinados para não atrapalhar a visão do público, o cardápio foi preparado especialmente para facilitar a vida do espectador, já que se come no escuro (use as mãos!), e não há obrigatoriedade de se jantar na casa, embora a tentação seja grande. Uma outra experiência parecida na cidade – o reRun Gastropub, em Dumbo, também no Brooklyn – é mais um bar com uma tela do que um cinema com cardápio incrementado.

No Nitehawk, que fica na avenida Metropolitan, entre Berry e Whyte, a poucos passos da estação Bedford do metrô L, as salas de 60 lugares dão menos a sensação de que se está em um videoclube improvisado e mais a de se ter alugado, por uma noite, um teatro VIP para se deliciar com um filme especial em grande estilo. A tela é maior do que a maioria das encontradas nos cinemas de arte da cidade. E, nunca é demais enfatizar, por US$ 11 a entrada! Em comparação, uma seção no Cinépolis Vip de São Paulo não sai, nos fins de semana, por menos de R$ 54.

Mas não vou mentir: com tantas atrações além da tela, Miranda July e seu irregular “The Future” acabou ficando em segundo plano em uma noite de múltiplos prazeres sensoriais. Para um turista zanzando pela cidade, interessado em se adiantar na agenda cinematográfica experimentando guloseimas de primeira, o Nitehwak é um achado. Vá.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>