Eduardo Graça

Coluna

As Cidades Imaginárias do Rock

A coluna da semana, no Segundo Caderno d’OGLOBO, é sobre duas cantoras de primeira, uma delas atração da noite de hoje do Rock In Rio:

PELO MUNDO
Eduardo Graça, de Nova York

Janelle, Del Rey e as cidades imaginárias do rock

Subia a rua State em disparada, feliz com o fim do calorão que já durava quatro meses. Quanto mais me aproximava da avenida Flatbush, mais aumentava o volume do baticum. A sensação, do lado de lá do sinal que dá para a avenida Lafayette, nas imediações do imenso estacionamento em frente à sede do grupo de dança Mark Morris e da Academia de Música do Brooklyn, era a de que um batalhão de soldados se dirigia, veloz, rumo à Ponte de Manhattan. Do outro lado da rua, a miragem felizmente se transformava em realidade mais prazerosa ao som dos gritos: Janelle! Janelle! Janeeeeeelle!

Lá se vão quatro anos e não esqueci detalhe algum da tarde em que descobri a voz, os movimentos, o estilo retrô e a simpatia absoluta de Janelle Monáe, um dos acertos da turma responsável pela escalação do Rock in Rio, versão 2011. Se você vai hoje até os confins da Zona Oeste para ver o Stevie Wonder, chegue mais cedo. O show na feirinha de cultura africana do bairro de Fort Greene não tinha nada da opulência do palco principal da Cidade do Rock. Mas a energia de dona Janelle, traduzida na ferveção da pista, na bateção de pés em alta velocidade, inclusive os de seu padrinho Big Boi, do Outkast, todo feliz na boca do palco, me ganhou para sempre.

Foi naquela ocasião que ouvi pela primeira vez “Violet stars happy hunting!!!” e “Many moons”. Corri à J&R no dia seguinte para comprar o primeiro EP daquela moça que parecia o Prince, com seus terninhos finos, o cabelo a la garçonne e o apreço por narrativas de sabor futurista, que não combinavam imediatamente com o visual passadista. Janelle contou na ocasião que começara a criar uma trilha sonora informal – e atemporal – para o clássico “Metropolis”, de Fritz Lang. Cabeçérrimo. Mas o sotaque do Sul, o palco mambembe, o público majoritariamente negro, a pausa no meio do espetáculo para uma interpretação doída de “Smile”, de Charles Chaplin, as vocalistas de apoio vestidas como se estivessem saindo da noite de amadores do teatro Apollo, do outro lado da cidade, cada detalhe, suavizava virtuais aspirações intelectuais.

Barack Obama ainda não havia sido eleito, a crise havia começado a dar sinal de vida, a enorme ressaca do governo Bush II pesava o ar, e a menina de 22 anos olhava para um futuro distante, imaginando-se como uma andróide do distante ano de 2719, ao mesmo tempo em que fazia a poeira levantar do chão da feirinha. Boquiaberto por poucos minutos, antes de cair na folia com entusiasmo, nem vi que por ali também sassaricava, animado, Sean “Diddy” Combs.

Pois foi via P.Diddy que a menina nascida no Kansas e fruto da cena musical da Geórgia finalmente recebeu a oportunidade de mostrar a que veio. “The archandroid”, lançado no ano passado, é de uma originalidade sem tamanho. Janelle fez um disco conceitual na era dos singles digitais e é dona de uma voz poderosa, motównica, mas sem deixar o movimento em segundo plano jamais. Já se disse que ela tem o desespero de Michael Jackson no palco. Se ela fizer apenas um terço do que vi naquela tarde de fim de verão no Brooklyn, o ingresso desta quinta-feira já terá valido a pena.

***

Se você não vai encarar, nem por um decreto, as filas quilométricas, o transporte confuso e as mãos grandes dentro e fora da Cidade do Rock, use a noite de hoje para descobrir uma nova maravilha urbana de Nova York. Lana del Rey tem nome de vedete do teatro de revista, lábios de Angelina Jolie, cozinha hip-hop e um compacto simples matador. De um lado, “Video games”, do outro “Blue jeans”. A letra da primeira faixa, sofrida – “alguém me disse que você só gosta das meninas más, é verdade?” – lembra Amy Winehouse, os arranjos passeiam pelas baladas de Adele, mas há algo de country, do pop branco do fim dos anos 1950, que transporta o espectador para uma cidade imaginária, um passado que jamais existiu.

Espectador, sim. É que Del Rey (cujo nome real é Lizzy Grant, menina criada no norte do estado de Nova York, em um vilarejo na entrada das belas montanhas Adirondacks) se tornou conhecida por seus vídeos, disponíveis no YouTube, com uma estética próxima a dos documentários do britânico Adam Curtis, com muitas imagens de arquivo e a sensação de que se está vendo uma colagem de um álbum de fotos da linda chanteuse. A capa do EP não é simples acessório: lá está Del Rey, camiseta azul, longas madeixas castanhas avermelhadas, encarando o fotógrafo com a intensidade de quem já passou por poucas e boas.

Del Rey se apresenta, sem qualquer falsa modéstia, e com algum humor, como a ‘versão gangster de Nancy Sinatra’. “Vídeo Games”, remixado por Mover Shaker, apareceu na lista dos DJs mais badalados da mais recente Fashion Week de NY. E o “Guardian” cunhou o epíteto “Lolita Pop” para aquela cujo primeiro disco seria “uma promessa de Pet Sounds para a geração Kate Perry”. Vai por mim: você ainda vai ouvir falar muito de Lana del Rey, quiçá uma das atrações mais interessantes do Rock In Rio de 2013.

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