Eduardo Graça

Cultura

11 de Setembro: a delicada pena de Lorrie Moore

Para a edição especial sobre o 11 de Setembro do Eu&Fim de Semana, do Valor Econômico, a partir de hoje nas bancas brasileiras, conversei com a escritora Lorrie Moore, autora do belíssimo “Ao Pé da Escada”, finalmente traduzido para o português do Brasil, este mês nas prateleiras via editora Record. O texto segue abaixo:

Outros sentidos para a violência, com toque delicado
Eduardo Graça
Para o Valor, de Nova York

Dono de um dos melhores textos do caderno de artes e espetáculos do “Los Angeles Times”, Reed Johnson escreveu no início do mês um artigo sobre como a cultura popular americana lidou, em uma década de intensa produção, com um evento que “tirou a vida de quase 3 mil pessoas num espaço de tempo equivalente à duração média de um longa-metragem”. Para Johnson, as obras de maior ressonância foram as que fugiram da pura descrição do maior ataque terrorista da história dos Estados Unidos, encontrando novos significados para o 11 de Setembro de modo sutil, na vida de criaturas reais ou fictícias.

É o caso da narradora e protagonista de “Ao Pé da Escada”, de Lorrie Moore, lançado com toda a pompa nos Estados Unidos em 2009, que agora chega às livrarias brasileiras, pela editora Record. “Sabe que me surpreendi com as referências ao 11 de Setembro que apareceram o tempo todo nas discussões em torno do livro? Estava interessada nos oito meses que se seguiram aos atentados. Queria escrever sobre a confiança passiva, insana, que os americanos passaram a ter no governo imediatamente depois dos atentados”, disse a escritora em entrevista ao Valor. Nas semanas que se seguiram à queda das torres gêmeas, o então presidente George W. Bush chegou a ter 90% de aprovação popular, de acordo com pesquisas de opinião.

Escritor mais festejado da literatura contemporânea americana, Jonathan Lethem escreveu para o suplemento de livros do “New York Times” um texto deslumbrado sobre “Ao Pé da Escada”. Para o autor de “A Fortaleza da Solidão”, Lorrie consegue fazer que o leitor reflita sobre o 11 de Setembro e suas sequelas com tamanha delicadeza que se contrapõe ao tratamento dado “a essa página ainda não encerrada da vida americana, muitas vezes tratada por artistas como se estivessem usando um taco de críquete para fazer uma cirurgia do coração”. Primeiro escritor vivo a ganhar a capa da “Time” em uma década, Lethem escreveu ainda que Lorrie é a “escritora americana mais irresistível do momento”.

“Ele é um escritor talentoso e cerebral, mas se me conhecesse pessoalmente não escreveria isso. Fico matutando o que exatamente ele quis dizer ao qualificar meu trabalho de ‘irresistível’ ”, reage com humor a contista e romancista de 54 anos, cabeça de um dos laboratórios de criação literária mais disputados do país, o da Universidade de Wisconsin-Madison. “Ao Pé da Escada” é narrado pela jovem Tassie Keltjin, filha de um casal luterano-judaico do Meio-Oeste americano, estudante universitária e dublê de babá, e trata das modificações em sua vida no outono de 2001.

Suas relações com o irmão mais novo, com o casal Edward e Sarah — às voltas com um burocrático e doloroso processo de adoção de uma criança —, e até com seu primeiro amor, Reynaldo, que finge ser brasileiro para conquistar a atenção da protagonista, traçam uma história de amadurecimento forçado de uma jovem da América profunda, enquanto seu país se vê igualmente forçado a reinventar-se.

“Creio que nações, como seres humanos, estão sempre amadurecendo. A memória, no entanto, é curta, e sofremos com as constantes bravatas e a falta de cuidado de nossos líderes”, diz a escritora. Lorrie, que cresceu no Estado de Nova York e trabalhou como assistente de advogados no sistema judiciário em Manhattan, antes de se tornar conhecida com seus contos publicados na “Paris Review” e na “New Yorker ”, vê a distância geográfica como um aspecto positivo de sua caracterização do cotidiano americano pós-11 de Setembro. “O Meio-Oeste é o grande celeiro de soldados para as Forças Armadas desde a Guerra Civil. Basta um passeio pelo cemitério militar de Vicksburg, à beira do Mississippi, para ver que ainda é assim”, diz.

Um dos fantasmas enfrentados pela protagonista de “Ao Pé da Escada” é o racismo. O bebê adotado por Sarah e Edward é descendente de negros, exatamente como o adolescente adotado na vida real pela escritora. Lorrie diz que o 11 de Setembro potencializou discussões sobre assuntos fundamentais para a sociedade americana, incluindo a xenofobia e o racismo. Em uma entrevista, ela chegou a dizer que o tema central de seu primeiro romance em 11 anos é o ódio. “O racismo sempre fez parte da sociedade americana, e, embora tenham ocorrido muitos avanços, ainda há muito a fazer. O 11 de Setembro expandiu, a meu ver, os preconceitos raciais que já estavam presentes no país”, diz.

2 Responses to 11 de Setembro: a delicada pena de Lorrie Moore

  1. Giuliana Morrone disse:

    Os textos de Edu Graça sempre nos levam a uma reflexão interessante.

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