Eduardo Graça

Coluna

Tom Zé: Sertanejo, Tropicalista & Global

A coluna desta semana no Segundo Caderno d’O GLOBO foi sobre o espetáculo que Tom Zé deu na terça-feira no Alice Tully Hall, dentro do Festival do Linclon Center de 2011.

Segue o texto:

O Sertanejo Global

Logo no começo de seu arrebatador e caótico show no Festival do Lincoln Center, o evento mais nobre da programação cultural de Nova York, Tom Zé conta que recebeu de uma banda do interior dos EUA uma gravação com uma versão de uma música dos Mutantes. Emocionado, ele fala da alegria de ter composto com Rita Lee a moda de viola “Astronauta libertado”, gravada com o título “2001” por Gilberto Gil em 1969. Parceiro do futuro, ele pede que a plateia cante com ele trechos da composição. Em vão.

É que o mais sertanejo dos tropicalistas, em delicioso paradoxo, é também o mais internacional dos medalhões de nossa música popular. A audiência, nesta terça-feira, era formada majoritariamente por fãs americanos, ansiosos por ouvir e ver “Tom Zee”, incapazes de cantar verdades nunca tão obviamente escancaradas como “Nos braços de dois mil anos/Eu nasci sem ter idade/Sou casado, sou solteiro/Sou baiano e estrangeiro”.

O show estava marcado para as 20h, mas o espetáculo começou mais cedo, nas escadarias do lado de fora do Alice Tully Hall. Os 1,1 mil ingressos postos à venda estavam esgotados e a fila de desistência impressionava tanto pelo tamanho quanto pela animação. Os muy simpáticos nova-iorquinos sem entrada, carentes de português, eram rápidos na agulha, feições de especialistas, ao tratarem, seriíssimos, da importância de “Estudando o Samba”, o disco de Mr.Zee de 1976 que tanto impressionou David Byrne.

“Ele me salvou. Se ele não tivesse encontrado meu disco em um sebo do Rio, não estaria aqui. Ele me tirou do destino de trabalhar em um posto de gasolina de Irará”, diz Tom Zé, recordando o impacto em sua vida do lançamento de “The best of Tom Zé: massive hits” em 1990, pelo selo do criador dos Talking Heads. Na plateia, Yale Evelev, o outro lado da moeda do Luaka Bop, ria sozinho.

Em entrevista que me deu no ano passado, para a revista de arte “Florense”, Evelev contou jamais ter sonhado em ser um dos responsáveis por “reapresentar Tom Zé ao público brasileiro”. Esta foi, ele jurou, a “maior” epifania de sua longa carreira iniciada na mitológica loja de discos SoHo Music Gallery, quando dividia as funções de vendedor com um certo Arto Lindsay. “Escutamos ‘Estudando o Samba’ e caímos para trás. O disco mudou a perspectiva do que imaginávamos ser a música popular brasileira. Aquilo, definitivamente, não era a ‘Garota de Ipanema’”, contou.

Nove anos depois do lançamento da coletânea nos EUA, acompanhado pela banda de indie rock Tortoise, Tom Zé excursionou pelo país mas nunca mais voltou a Nova York. Daí a inquietação de boa parte da audiência. Pois o artista brasileiro entra no palco assim: “Se vocês vieram aqui ver o espetáculo de um cantor sério, voltem para casa. Agora, vieram ver o Tom Zee? Oh, Yeah!”.

Ao meu lado, um casal não muito mais novo do que os 74 anos de Zé, olho arregalado, abandona o recinto logo depois dos gritos viscerais da banda – Jarbas Martins, Renatinho Lélis, Felipe Alves, Lauro Lélis e as “meninas” Cristina Carneiro e Rosangela Silva – no fictício suicídio de Brigitte Bardot engendrado pelo baiano na composição homônima. Não entenderam nada. Mas foram as únicas defecções da noite. Quem ficou, aplaudiu de pé repetidas vezes, exigiu um bis mais longo do que o desejado por Tom Zé e riu à vera com uma master class de improvisação que incluiu criações inspiradas nas páginas amarelas de Manhattan e no aviso automático do metrô da cidade.

Faz-se necessário aqui um parênteses. Mais operário do que sertanejo, ainda assim preciso confessar meu imenso acanhamento em tratar de Tom Zé neste espaço n’O GLOBO. Aqui mesmo, na página 2 do “Segundo Caderno”, escrevem Caetano Veloso e Zé Miguel Wisnik, parceiros, amigos e companhias infinitamente mais ilustres neste footing pela Augusta, Angélica e Consolação transportado para as ruas sem nome da capital do planeta, nada humilde ao receber, em êxtase, aquele que a “Rolling Stone” original batizou de “o pai da invenção”. Mas, meninos, eu vi. E mais que nunca é preciso contar.

Oiticicamente vestido com um avental-saia ilustrado por um desenho das pedras portuguesas do calçadão de Copacabana, Tom Zé, em pouco mais de uma hora e meia de espetáculo, tratou do deslumbre cafona da imprensa brasileira pelo prefeito Bloomberg, implicou com Woody Allen – “mas por que é que ele agora faz filmes sobre aquelas aldeiazinhas européias, Paris, Londres, e deixou Nova York de lado?” – desconstruiu o “Pato” de João (Gilberto), fez amor com um violão, saltou como rã imaginária no centro do palco e se deslumbrou com a dupla aliteração de “Stand clear of the closing doors”, o som do metrô da cidade, repetido a cada estação. “Fiquei pensando: mas será que há um Departamento de Poesia na Secretaria de Transportes de Nova York?”, questionou, compenetrado. Se tal cargo existisse, Tom Zé o ocuparia, por aclamação, depois de lavar a alma dos nova-iorquinos na rica apresentação de anteontem no Lincoln Center.

p.s: a foto promocional é de André Conti.

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