Eduardo Graça

Cultura

Tinariwen: os orixás do deserto

Saiu hoje no Segundo Caderno d’O GLOBO minha reportagem sobre o grupo tuareg Tinariwen, que se apresenta no Brasil em agosto. Quem estiver no Rio ou em S.Paulo dias 26 e 30 de agosto, não deve perder. Eles são o máximo no palco!

Segue o texto, as fotos são de Wagz2it:

Os camaleões do Saara voltam às origens

Em show arrebatador em NY, o grupo tuareg Tinariwen, que toca no Rio em agosto, exibe seu retorno ao blues do deserto

Eduardo Graça
Especial para O GLOBO, de Nova York

Eles são guerreiros. Eles são mandingueiros. Eles são tuaregues. E, diferentemente do personagem misterioso da canção do então Jorge Ben lançada por Gal Costa em 69, eles vêm apresentar suas armas no Brasil, no Festival Black2Black, no Rio, dia 26 de agosto, na Estação Leopoldina, e em São Paulo, no dia 30, no Bourbon Street.

Eleito pela revista britânica Uncut o grupo musical de 2009 e com fãs como Robert Plant, Bono, Thom Yorke e Brian Eno, o Tinariwen acabou de gravar seu novo trabalho, “Tassili”, um retorno às raízes do blues do deserto que o notabilizou. Na semana passada, os músicos africanos conversaram com O GLOBO pouco antes de uma apresentação arrebatadora no Highline Ballroom, em Manhattan.

Descalço, instalado confortavelmente em um sofá cinza, o baixista Eyadou Ag Leche, de 33 anos, não se parece em nada com a imagem criada por Ben Jor no clássico tropicalista. Meia hora depois, com um traje dourado e coberto da cabeça aos pés, apenas os olhos à mostra, empunhando um baixo negro, ele domina o palco com a marcação precisa do ritmo aparentemente monocórdio do Tinariwen, mas suingado pelos instrumentos percussivos sob a batuta de Said Ag Ayad, as guitarras de Elaga Ag Hamid e os vocais harmonizados dos também guitarristas Abdallah Ag Alhousseyni e Ibrahim Ag Alhabib.

- É o mantra no terreiro – traduzia a cantora brasileira radicada em Nova York Fernanda Rowlands, que não conseguiu manter o corpo parado durante a hora e meia de música. – Aqui o público é tão careta…no Rio já estaria todo mundo se acabando na pista – apostava.

Ag Leche, animado, arrisca um convite que promete dar dor de cabeça aos organizadores do Back2Black:

- Se os brasileiros quiserem dançar conosco no palco, aí sim seria uma verdadeira festa. Na África, é sempre assim – dizia.

O baixista confessou que, do Brasil, os cinco músicos conhecem quase nada além do futebol. O tuareg do Mali, no entanto, se emociona com a letra da canção de Ben Jor. Quando sabe que foi composta durante a ditadura militar brasileira, no momento em que as guerrilhas e os militares se enfrentavam, arregala os olhos:

- Que letra bonita, que narrativa sensacional. Nossa música é exatamente isso! Adoraria conhecer o Ben Jor e a Gal – diz, colocando a mão no coração. (A reportagem do Segundo Caderno enviou um áudio com a gravação de Gal Costa para a banda, a pedido dos músicos).

A visão do tuareg tropicalista inspira Ag Leche a falar das origens do Tinariwen. A banda surgiu no começo dos anos 1980, em um acampamento rebeldes mantidos no Mali com auxílio do ditador líbio Muamar Khadafi. Em 2001, “The radio tisdas sessions”, foi lançado na Europa e EUA, e o culto ao Tinariwen (termo que significa algo como “espaços vazios”) se disseminou, incrementado por apresentações vitoriosas nos festivais de Glastonbury e Coachella.

- O Tinariwen é a expressão de nosso anseio por independência, por liberdade, e a música nossa forma de comunicação mais direta. Vivemos em campos espalhados pelo Mali, Níger, Líbia, Argélia e Burkina Faso. Nossa música foi difundida através de fitas cassete copiadas livremente e reproduzidas em gravadores comunitários. E o tema mais comum é: “Acorde, lute pelos seus direitos!”, conta.

No palco, no entanto, as músicas de protesto não parecem próximas do folk anglo-saxônico ou mesmo latino-americano. A dança transforma tudo numa festa regida por músicos afiados. Não por acaso, os guitarristas do deserto receberam da imprensa inglesa a alcunha de “Led Zeppelin da África”.

Um certo incômodo se instaura quando Ag Leche trata da situação política no norte da África. A imprensa ocidental publicou reportagens dando conta de que tuaregues estariam lutando como mercenários ao lado das tropas de Khadafi na Líbia.

- Os cinco países em que vivemos são como os cinco dedos de nossas mãos. Se algo ocorre em um deles, sentimos no corpo todo. O impacto em nossa comunidade está sendo imenso. Mas a postura do Tinariwen é clara. Se os rebeldes estiverem de fato lutando pela liberdade, se é esta é a real motivação, estamos do lado deles. Se eles buscam apenas remover os atuais governos da região para uma simples alteração de elite, não nos interessa.

À volta às raízes, depois de uma década se apresentando nos quatro cantos do planeta, foi justamente o mote de “Tassili”. O single “Tenere taqqim tossam” já está circulando, com as participações especiais de Tunde Adembipe e Kyp Malone, da banda TV on the Radio. No disco também marcam presença Nels Cline, do Wilco e a Dirty Dozen Brass Band, de Nova Orleans. Todos gravaram no oásis de Djanet, no sudoeste da Argélia.

Nas areias escaldantes

Quando Kyp Malone viu o Tinariwen no festival de Coachella, na Califórnia, decidiu que iria gravar com os africanos. No ano passado, comprou duas passagens para o Abu Dhabi, pegou o vocalista Tunde Adembipe pelo braço, e foi conferir uma apresentação dos tuaregues para uma platéia majoritariamente árabe. O fascínio dos indie rockers aumentou e gerou duas semanas inesquecíveis no deserto do Saara.

Se não poderão conferir os hermanos africanos ns areias brancas do deserto escaldante, os brasileiros serão presenteados em agosto com um mix de músicas novas e velhos sucessos, como a hipnótica “Amassakoul ‘N’ Ténéré”, que dá título ao disco de 2004. E se encontrarão com cinco tuaregs vestidos em seus trajes de labuta – túnicas azul-claro, dourada, azul-escura, lilás e branca –, curiosíssimos para decifrar a reação de cariocas e paulistas ao blues do deserto.
- Somos camaleões do Saara, pingos de leite no meio de uma xícara cheia de café. Exatamente como a imagem que temos do Brasil – disse Ag Leche, sem notar o significado de seu sobrenome na vizinha língua espanhola.

2 Responses to Tinariwen: os orixás do deserto

  1. wallace disse:

    assim como o povo judeu que caminhava pelo deserto assim vejo esse grupo qeu tambem caminha no deserto que essa jornada dermine aos pés de jesus.

  2. SUÉLIA NATAL RODRIGUES NOVAES disse:

    Ouvi hoje pela primeira vez. Gosto e me identifico com a filosofia do grupo. O ritmo me faz feliz.

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