Eduardo Graça

Cultura

Show: Jane’s Addiction no Terminal 5, 25 de julho de 2011

Texto sobre o show-promo do Jane’s Addiction, na segunda-feira, no Terminal 5, em Manhattan, publicado hoje no Segundo Caderno d’O GLOBO:

Todas as dimensões do Jane’s Addiction

Banda americana mostra boa forma e música nova em show registrado em 3D em Nova York

Eduardo Graça
Especial para O GLOBO, de Nova York

Perry Farrell é um pândego. Na noite em que seu Jane’s Addiction protagonizou aquele que a marca de celulares responsável pelo evento batizou de “primeiro show ao vivo de uma banda de rock documentado em câmeras 3-D acopladas a um novo tipo de aparelho celular”, o idealizador do Festival Lollapalooza encarou a platéia formada por fãs da banda californiana e disparou:

- Preciso confessar que sempre senti uma certa excitação quando roubava produtos em lojas de departamento e nunca era pego. Mas aprendi a minha lição de civismo americano. Virei um rockstar! Aí é só eu escolher o que quero em qualquer loja e a resposta é sempre a mesma: “claro, senhor Farrell!” – disse, para urros da platéia, em boa parte equipada com aparelhos celulares distribuídos pela empresa patrocinadora do show no Terminal 5, em Hell’s Kitchen, para cerca de 3 mil convidados.

Novo disco no segundo semestre

Se o espetáculo da segunda-feira – exibido ao vivo no YouTube – tinha como intenção atestar a forma da banda e reafirmar a química entre Farrell, Dave Navarro e o baixista Chris Chaney, que entrou saiu da banda várias vezes desde 2002, o resultado foi mais do que positivo. Mas faltaram, no pouco mais de uma hora em que os vovôs-meninos do funk-metal tocaram boa parte de seus clássicos, pistas fundamentais para se entender o disco que preparam para o segundo semestre, o primeiro de inéditas em oito anos, “The great escape artist”.

Farrell entoou – da forma costumeiramente teatral, para delírio dos fãs – o primeiro single do disco, “Irresistible Force”, em meio a petardos como o hino (anti-)consumista “Being caught stealing”, “Ocean size”, “Three days”, “Mountain song” e “Stop!”. A banda entrou no palco em 360 graus toda de preto, com a exceção de Navarro, peito nu, músculos a mostra, piercing em um mamilo, cigarro na boca, com direito a senhoras de meia-idade desmaiando na beira do palco. O público, aliás, deu um show à parte, registrando tudo o que acontecia em seus celulares – assim, como, é bom registrar, aqui e acolá, os próprios veteranos, munidos de aparelhinhos 3-D no palco – afim de ter algum trecho incluído no documentário a ser lançado pela banda em setembro, juntamente com o novo disco.

Marmanjos começaram a chorar já no primeiro número, “Whores”, do primeiro disco da banda, gravado ao vivo, de 1987. Em entrevista dada nos bastidores do show para uma publicação especializada em tecnologia, Navarro, seguindo a linha escrachada de Farrell, foi direto ao ponto:

- A coisa de que mais gosto quando penso em avanço tecnológico é o fato de podermos atingir mais gente, mesmo tocando em um clube pequeno no West Side de Manhattan. Este é o único aspecto que eu amo de fato quando penso nas mudanças que a tecnologia trouxe para nosso trabalho desde que começamos. Agora, não sei se esta coisa de 3-D é algo que necessariamente precisamos incorporar à nossa música. Há uma enorme pressão para tudo virar 3-D e eu, pessoalmente, não curto.

Quem curtiu mesmo a noite foram os fãs, que cantaram juntos a letra de “Ted, just admit it…” daquele que muitos consideram ser o melhor disco da banda, “Nothing’s shocking”, de 1988. Vestido como se estivesse se apresentando em Las Vegas, com casaco negro de veludo de forro branco e camisa brilhosa, Farell, aos 52 anos, macérrimo, pulando para cima e para baixo, transformou a história do serial killer Ted Bundy em uma esquizofrênica e exata reflexão sobre os acontecimentos do fim de semana na Noruega.

‘Isto não é Facebook’

O laser colorido que se seguiu a “Up the beach” foi a senha para o final apoteótico, com a banda revivendo a dóida “Jane says”, também do discaço de 1988, enquanto imensas bolas brancas e bonecos de inflar em forma de animais como vaquinhas, porcos e elefantes caíam do teto. Farrell gritava, feliz: “Isto não é Facebook, é Jane’s Addiction”, e os fãs, em êxtase, contando os dias para setembro chegar, disputavam os brindes com alegria. O experimento em 3-D terminou pouco depois das 22h15, com quarentões e quarentonas lembrando, na fila da saída, um tempo em que não precisavam voltar para casa cedo pra cuidar dos filhos. Um tempo em que o Jane’s Addiction era o tal.

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