Eduardo Graça

Política e Economia

Murdoch: Desculpas Não Bastam

Na Carta Capital desta semana, minha reflexão sobre a queda de Murdoch. E melhor ilustração não há: a capa da New Statesman de ontem.

Desculpas Não Bastam
Eduardo Graça, de Nova York, para a Carta Capital

Este é o dia em que me sinto mais humilde em toda a minha vida.” A afirmação, pronunciada por Rupert Murdoch de modo imperativo, bem ao seu estilo, interrompendo o filho, James, no depoimento que ambos prestaram ao Parlamento britânico na terça-feira 19, sintetiza o tamanho do assalto às estruturas do segundo maior grupo de mídia e entretenimento do planeta, atrás apenas da Disney. Durante a semana, um anúncio de página inteira, assinado de próprio punho pelo bilionário australiano, pedia desculpas aos leitores por “sérios erros de julgamento”.

O texto foi publicado não apenas nos dois principais títulos britânicos da News Corp., o vetusto Times e o tabloide Sun, mas nos principais jornais da concorrência, incluindo o Financial Times, o Independent e até mesmo o Guardian, responsável pelas denúncias que podem, de acordo com especialistas em mídia, alterar significativamente o tabuleiro político nos dois lados da poça – como americanos e ingleses se referem, jocosamente, ao Atlântico Norte. Murdoch também é dono do jornal de maior circulação dos Estados Unidos, o Wall Street Journal, do tabloide The New York Post, do estúdio de cinema 20th Century Fox, de dezenas de canais locais de tevê aberta e do canal de notícias 24 horas de maior audiência nos EUA, a Fox News, ultraconservadora e de oposição declarada ao governo Obama.

“Um amplo pedido de desculpas seria a melhor definição para o conglomerado de Murdoch. Eles são piratas da imprensa, uma gente que despreza as leis e a decência, e que, como bem disse William Shawcross em sua biografia do empresário, ‘espalha mexericos, sensacionalismo e vulgaridades’ para conquistar leitores, e usa histórias inventadas ou distorcidas com o objetivo de alimentar uma agenda ideológica de extrema-direita. Mas as desculpas também deveriam vir dos políticos americanos e britânicos que se deixaram seduzir pelo dinheiro de Murdoch-, temendo seu poder”, disparou a editora-chefe da The Nation, Katrina vanden Heuvel, no mais duro ataque àquele a qual ela outorgou os epítetos de “Cidadão Murdoch” e “ex-intocável”, em sua coluna semanal no Washington Post.

O pesadelo dos Murdoch parecia ter chegado ao ápice na semana passada, com o fechamento do tablóide News of the World, por suspeita de repetida prática de escuta e gravações ilegais de conversas telefônicas de celebridades, membros da família real britânica políticos e súditos da rainha. Um total de mais de 4 mil pessoas podem ter sido vítimas do “jornalismo pirata” das organizações de Murdoch, mas o capítulo mais chocante teria sido a revelação, pelo Guardian, de que jornalistas do News of the World apagaram mensagens do celular de Milly Dowler, de 13 anos, assassinada em 2002. O objetivo era abrir espaço na caixa de mensagens para descobrir novas pistas sobre o caso que prendeu a atenção dos ingleses por seis meses, até o corpo da menina ruiva ser encontrado. O ato criminoso acabou fazendo com que a família de Dowler alimentasse esperanças de que ela ainda estivesse viva e disseminou um sentimento de ‘basta’ na sociedade britânica.

Annus Horribilis

Mas o ano horrível de Murdoch começou mais cedo. Este repórter estava na Inglaterra, a trabalho, em abril, quando a revista New Statesman iniciou, de forma implacável, o que o colunista Joe Nocera, do New York Times, qualificou esta semana como ‘grande virada de mesa’ contra Murdoch. A editora convidada Jemima Khan sugeriu ao ex-namorado Hugh Grant que escrevesse sobre algum tema envolvendo o universo dos papparazzi na edição da primeira semana abril. O protagonista de “Um lugar chamado Notting Hill” não titubeou: decidiu se vingar dos métodos usados pelos jornalistas de Murdoch e gravou um encontro que teve com o repórter Paul McMullan, do agora defunto News of the World. Mais: publicou toda a conversa, tim tim por tim tim, nas páginas da Statesman.

Grant, 50 anos, se tornou um inusitado líder na campanha por decência na imprensa inglesa, que acabou levando às denúncias publicadas dois e meses e meio depois no Guardian. Em entrevista esta semana à Entertainment Weekly ele contou que se indignou ao saber da escuta em seu celular, com conhecimento da polícia. “E eles não fizeram nada a respeito. Meses depois meu carro quebrou numa rua de Londres, fiz uma ligação, e um jornalista do News of the World apareceu do nada. Começamos a conversar e ele começou a contar vantagem, dizendo como meu celular e o de várias outras pessoas haviam sido grampeados e que eles sabiam de tudo sobre nossas vidas”, conta o ator.

Grant ficou tão chocado que planejou uma vingança. Esperou algumas semanas e convidou o jornalista para tomar uma cerveja. O repórter falastrão contou que a toda-poderosa Rebekah Brooks, abaixo apenas de Murdoch no comando do News of the World, tinha conhecimento e aprovava as gravações clandestinas. A denúncia causou um celeuma na imprensa inglesa e a edição especial da Statesman se esgotou em poucas horas. “Mas foi somente com a história de Milly Dowler que a sociedade britânica resolveu reagir em uníssono”, faz questão de ponderar Grant, que reconhece “ter sido um prazer gravar o repórter de forma clandestina, foi um toma lá dá cá”. Esta semana, a Statesman saiu com uma capa impactante: páginas dos jornais da News Corp. enrolados sob um epitáfio da “Grã-Bretanha de Murdoch: 1969-2011”, referência ao ano em que ele comprou o News of the World e o Sun, transferindo o centro nervoso de sua empresa da Austrália para Londres.

Como boa parte das vítimas do “jornalismo pirata” de Murdoch são celebridades – entre elas o músico George Michael, os príncipes William e Harry, o ator Jude Law e as atrizes Sienna Miller e Gwineth Paltrow – as revistas mais sérias dedicadas à cobertura da indústria do entretenimento foram as primeiras a revelar como suas concorrentes menos éticas conseguiam vender milhões de exemplares utilizando-se de métodos nada éticos. O Hollywood Reporter publicou na edição desta semana um texto anônimo de um ex-repórter do “News of the World” contando como foi pautado pelos editores para conseguir criar uma história em torno de Mike Tyson e uma orgia regada a cocaína. “Fui instruído a ir a um pub em East London com uma mini-câmera escondida em uma caneta. Com medo de ser demitido, fui ao hotel dele, consegui me aproximar e tirei umas fotos dele perto de algumas meninas. No dia seguinte levei um susto quando vi que a edição havia criado toda uma narrativa, incluindo detalhes de atividades sexuais – incluindo um ménage à trois – que jamais aconteceu”, conta.

O repórter sem nome conta como era a rotina no News of the World, um ambiente misterioso, cujo principal repórter, responsável pelas principais manchetes, jamais aparecia na redação. “Uma vez perguntei a um repórter como ele havia conseguido informações tão íntimas a respeito do divórcio de Paul McCartney e Heather Mills e ele me olhou de forma incrédula. Pensei que o Beattle havia passado a informação por conta da briga judicial, mas hoje tenho uma boa ideia de como ele conseguiu aquela história”, escreve, referindo-se às escutas ilegais.

A virtual complacência da polícia, já apontada na diatribe de Hugh Grant, levou a uma investigação da Scotland Yard em torno do pagamento de um mesada a detetives para obter informação em primeira mão para o tablóide que era, até seu fechamento, o campeão de vendas das bancas de jornais britânicas. Os dois principais cabeças da Scotland Yard pediram demissão esta semana. E a crise se instalou de vez na 10 Downing Street quando o ex-editor-chefe do tablóide, Andy Coulson, responsável direto pelo conteúdo da publicação entre 2003 e 2007, foi preso. A ruiva Brooks, sua antecessora imediata, também foi parar na cadeia. Mais grave, Coulson foi, até janeiro, o diretor de Comunicação do primeiro-ministro conservador David Cameron.

O ataque da oposição a Cameron aumentou quando o ex-primeiro ministro Gordon Brown, trabalhista, denunciou que o diário mais respeitado de Murdoch na Inglaterra, o Times, empregou “notórios criminosos” para violar sua conta bancária e a declaração de imposto de renda. O escândalo acabou forçando Murdoch a abandonar aquele que era considerado seu mais novo golpe de mestre, depois da compra do Wall Street Journalm em 2007: a aquisição, por US$ 12 bilhões, do controle acionário da British Sky Broadcasting, a maior rede de tevê aberta da Grã-Bretanha. O abandono dos trabalhistas por Murdoch, que sempre teve uma relação próxima com o antecessor de Brown, Tony Blair, foi considerado importante para a vitória de Cameron nas mais recentes eleições gerais britânicas.

“Voltaremos ainda mais fortes”, diz Murdoch. Será?

Mas Murdoch foi mesmo ferido de morte? Quem lê o Journal e vê a Fox recebe uma versão no mínimo simplista do affair Murdoch. Uma das principais estrelas da Fox, Bill O’Reilly jogou a culpa no rival New York Times, que estaria dando “uma manchete atrás da outra” pra um escândalo localizado na Grã-Bretanha. Em editorial, o Journal seguiu a mesma linha com um texto na segunda-feira digno do óbvio ululante rodriguiano, afirmando apenas ser de “responsabilidade das autoridades britânicas aplicar as leis que regem o país” e pedindo que seus assinantes “levem em conta os motivos comerciais e ideológicos de nossos competidores e críticos”. Em carta aos funcionários de sua empresa nos dois lados do oceano, Murdoch afirmou, na mesma terça-feira em que depôs no Parlamento inglês, que “nós emergiremos desta crise ainda mais fortes”. Ele reconhece que “vai demorar para recuperarmos a confiança da opinião público, mas estamos determinados a responder as expectativas dos acionistas, leitores, colegas de trabalho e parceiros”.

Um dos mais destacados repórteres da cobertura da mídia no New York Times, Jeremy W. Peters acompanhou com atenção os depoimentos de Murdoch e do primeiro-ministro Cameron à comissão parlamentar instituída na Câmara dos Comuns para investigar o escândalo. Os dois negaram saber de antemão o que acontecia nas redações dos jornais do grupo e Murdoch bateu na tecla de que “o News of the World representava menos de 1% de nosso conglomerado”. “O problema é que ele parece não ter entendido que o escândalo é sobre seu império, não sobre um título de sua propriedade. E é algo que preocupa, obviamente, os investidores de seu conglomerado”, diz Peters.

A editora-chefe da “The Nation” argumenta já ser óbvia a impossibilidade do desconhecimento da cúpula das organizações de uma prática corrente e acintosa. “Não podemos nos prender ao que está acontecendo na Grã-Bretanha. Nos EUA, o comandante da Dow Jones e publisher do Wall Street Journal, Les Hilton, antecessor de Brooks no comando da divisão britânica da News Corporation, teve de renunciar aos cargos. E Murdoch e seus lobistas pagam milhões para burlar o comitê regulador estabelecido para evitar o controle da mídia nas mãos de um só grupo jornalístico”, denuncia Heuvel.

Para ela, os paralelos entre o débâcle de Murdoch e a crise do sistema financeiro norte-americano são gritantes, transformando o barão australiano no novo inimigo público número um dos EUA. Uma imagem que certamente não ajuda os republicanos na luta pela reconquista da Casa Branca no ano que vem. Na folha de pagamento da Fox, afinal, estão alguns dos principais nomes do partido, como a ex-governadora Sarah Palin e o ex-governador Mike Hukabee.

Uma petição já circula em Capitol Hill, com as assinaturas dos seandores democratas Robert Menendez, Jay Rockefeller e Frank Lautenberg pedindo o início de investigações formais no Congresso sobre a prática de gravações ilegais nos EUA feitas por profissionais trabalhando para a News Corporation. “É a oportunidade de os democratas transformarem a mídia conservadora em inimiga preferencial em 2012, atacando o que o partido governista vê como um dos núcleos centrais da estrutura republicana”, lembra Ben Smith, uma das estrelas do site especializado Político. O think-tank liberal Think Progressive também iniciou uma campanha esta semana, com petição pública pedindo uma investigação direta da Secretaria de Justiça, sugenrindo que a dor de cabeça de Murdoch continuará nos próximos meses. “O que precisamos é de uma investigação nos dois lados do Atlântico, com o objetivo de punir todas as condutas criminosas e expor a cultura do conluio entre a imprensa e os políticos. No universo de Murdoch, a ética é uma piada, notícia é entretenimento ou desinformação e o poder está em criar a verdade, não em reporta-la”, lamenta Heuvel, cética quanto a mudanças imediatas na mídia e na política ianque, com ou sem Murdoch.

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