Eduardo Graça

Coluna

Quem Matou Rosie Larsen?

A coluna desta semana, no Segundo Caderno d’O GLOBO:

Quem matou Rosie Larsen?
EDUARDO GRAÇA, de Nova York

O leitor do GLOBO que me perdoe mas está difícil, muito difícil, sair de casa aos domingos. Não há show, exposição, peça, filme, DJ da moda que me faça deixar de lado a sensacional sequência de séries televisivas em cartaz na HBO e no AMC. Você vai me perguntar se algum gravador de programas ainda não chegou ao Brooklyn. Vou fingir que não registrei a provocação, mas garanto: não é a mesma coisa ver “The killing” uma semana, um dia, uma hora depois de novas pistas e suspeitos serem revelados numa trama que gira em torno da pergunta: quem matou a adolescente Rosie Larsen?

“The killing” passa aos domingos, às 22h. “Game of thrones”, às 21h, já cantado em prosa pelo Xexéo em sua coluna aqui no Segundo Caderno, transporta o espectador para o universo imaginado por George R. R. Martin, com uma pitada a mais de erotismo do que a apreciada pelo espectador médio americano. E “Treme”, minha série favorita desde o ano passado, um quitute daqueles de se saborear aos poucos, reúne a melhor trilha sonora da tevê a uma protagonista fenomenal, Melissa Leo, Oscar de melhor atriz coadjuvante este ano por “O vencedor”, encarnando com destreza a dor e a sensualidade da Nova Orleans pós-Katrina. E o mais importante: além do horário das 22h, que bate com “The killing”, a HBO reapresenta o programa às 23h.

Sim, dos três, é “The killing” o que mais me apetece. A série, originalmente produzida na Dinamarca, termina, impreterivelmente, com a revelação do (s) criminoso(s), depois de 13 episódios (o oitavo vai ao ar no próximo domingo). A trama foi transferida da fria Escandinávia para a não menos úmida, mas muito mais soturna Seattle. Logo aprendemos que todos os personagens, inclusive os detetives Sarah Linden (vivida pela ótima Mireille Enos) e Stephen Holder (o sueco Joel Kinnaman, sempre fumando um cigarro, projeto de símbolo sexual), têm algo a esconder. Ninguém é o que parece ser.

(In)felizmente não há como descobrir a identidade do assassino fuçando o seriado original. Os produtores deliberadamente trocaram o malfeitor para não estragarem a surpresa. E atenção: se você é fã do novo suspense nórdico, “The killing” é melhor do que Henning Mankell e Steig Larsson juntos. Sarah Linden e Stephen Holder dão um banho em Lisbeth Salander e Kurt Wallander. Quem avisa amigo é – comece a ver “The Killing” e você não vai querer mais sair de casa até descobrir quem matou a menina Rosie Larsen.

***
Como não há “The killing” durante a semana, peguei amiga querida na terça-feira pelo braço, decidido a conferir a série dedicada a David Bowie no Museu de Artes e Design, ali na Columbus Circle. Na sexta entrevistei para o Segundo Caderno o Moby, e ele é absolutamente fascinado pelo marido de dona Iman. Como o autor de “Play” me falou que seus três discos favoritos são de Bowie, “Low” (77), “Heroes” (77) e “Lodger” (79), todos produzidos por Brian Eno, minha expectativa era grande para a tal “David Bowie, artista”.

É que para além da chamada “Trilogia de Berlim”, também estão na minha lista de discos favoritos de todos os tempos “The man who sold the world” (70), “Hunky dory” (71), “Ziggy stardust” (72) e “Aladdin sane” (73). Sou fã de carteirinha. Pois bem, depois de um bom almoço no Café Luxemburg, convenci a amiga que havia chegado do Rio naquela manhã a deixar o jet-lag para trás e se aventurar no mundo maravilhoso do verdadeiro karma chameleon.

A ideia da mostra é das mais interessantes: focar no trabalho de Bowie que ultrapassa os limites da defunta indústria musical. Ele, afinal, não lança um disco com produção nova desde 2003. Mas na entrada do museu, a recepcionista, mais nova-iorquina impossível, avisa, cúmplice, depois de dois minutos de papo: “Ih, não vai esperando muito não. Olha, além dos filmes, há uns vídeos no sexto andar, entre o elevador e as escadas, e só”.

“David Bowie, artista” vale pelos filmes, em cartaz durante todo o mês de junho, incluindo meu querido “Ziggy Stardust and the spiders of Mars” e suas parcerias com Nagisa Ôshima, Tony Scott, Martin Scorsese e Julian Schnabel. Há, também, o relançamento comemorativo – lá se vão 35 anos – de “O Homem que caiu na Terra”, e com tal cardápio não há como discordar do curador Jake Yuzna, empolgado defensor da “obra multifacetada de um dos maiores iconoclastas da cultura contemporânea”.

O desagradável é encontrar o tal multi-Bowie em um corredor nos fundos do sexto andar. São quatro telas, com videoclipes, entrevistas e cenas de filmes. Certamente para não atrapalhar os programas educativos e as visitas guiadas à exposição dedicada à arte, design e moda contemporâneas do continente africano, só se ouve Bowie sussurrar nos “quiosques interativos” dedicados ao starman. E não havia como aumentar o volume. Vindo em NY neste quase-verão, reveja Bowie, aproveite os filmes, mas fuja da “mostra”. Ainda estou pensando em como me desculpar com minha incauta amiga.

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