Eduardo Graça

Entrevistas

Q&A: Stephen Duncombe – execução de Bin Laden revela barbárie americana

Minha entrevista com o professor Stephen Duncombe, da NYU, um dos mais interessantes estudiosos de semiótica política da academia americana, para o Terra Online, um dia após o que ele qualifica de “execução” de Osama Bin Laden, foi publicado neste fim de semana nas páginas de Mundo do portal de notícias.

Segue o bate-papo:

Analista vê barbárie na reação americana à morte de Bin Laden

Eduardo Graça, de Nova York

“Quem disse que os americanos não são um pouco bárbaros?”, provoca o cientista político Stephen Duncombe, um dos principais especialistas na história política das imagens e em seu uso pela mídia, autor do seminal Dream: Re-Imagining Progressive Politics in an Age of Fantasy (Sonho: Re-Imaginando Políticas Progressivas na Era da Fantasia, em tradução livre).

Em entrevista ao Terra, o professor da Gallatin School da Universidade de Nova York (NYU) fala da importância das imagens nas grandes batalhas contemporâneas, aposta que Washington será forçado a revelar imagens do corpo de Osama bin Laden, diz que os EUA usaram métodos utilizados há décadas pelos terroristas no ataque ao bunker da Al-Qaeda e caçoa da mídia ianque, covarde ao não dizer com todas as letras o que aconteceu no começo desta semana: uma execução muito bem-arquitetada de um inimigo político da maior potência do planeta.

Duncombe também faz uma comparação entre a maneira como o ex-presidente George W. Bush ilustrou a vitória sobre Saddam Houssein com a imagem já icônica do “war room” dos democratas, observando cada detalhe da operação, divulgada para a imprensa mundial.

A seguir, os principais trechos da conversa:

Terra – Celebrar a morte de alguém, ainda que um inimigo público número 1 de seu país, não se configura em um ato de barbárie? Qual a sua análise sobre as festas geradas pelo anúncio da morte de Osama bin Laden em Nova York, Washington e outras grandes cidades norte-americanas?
Stephen Duncombe – E quem foi que disse que os cidadãos dos EUA não são um pouco bárbaros? Algumas pessoas de fato estavam celebrando a morte de um ser humano, mas a maioria, creio, dançavam e cantavam o que acreditavam ser o ritual do fim daquilo que Bin Laden passou a representar: terrorismo, radicalismo islâmico. Em outras palavras, Bin Laden deixou há tempos de ser um homem, era uma símbolo, tanto para seus admiradores quanto para seus inimigos. O que vimos esta semana nos EUA foi a comemoração de nossa vitória sobre o símbolo. E aí, na verdade, é que está o x do problema.

Terra – Pois fica a ilusão de que uma era terminou, quando na verdade o terrorismo segue sendo uma ameaça ao ocidente.
Duncombe – Exato. Símbolos não planejam atos terroristas. Pessoas e organizações foras da lei o fazem. Há muitos líderes radicais, inclusive nos flancos da Al-Qaeda, vivos e capazes de atos terroristas. Mas as guerras, hoje, mais do que nunca, são vencidas tanto no campo de batalha quanto no simbólico.

Terra – Por isso o ataque tanto às Torres Gêmeas quanto ao Pentágono.
Duncombe – Símbolos do poder político, econômico e militar dos EUA. Ao assassinar Osama bin Laden os EUA se engajaram no mesmo tipo de batalha na esfera dos símbolos tão cara ao líder da Al-Qaeda.

Terra – Por isso a preocupação em não oferecer ao público qualquer imagem de Osama morto? Não há corpo, não há funeral propriamente dito, não há nem uma foto histórica, como no caso de Che Guevara, outro inimigo dos EUA, de quilate e posições políticas diversas. Foi uma decisão pensada, a fim de evitar o culto ao terrorista tombado?
Duncombe – Foi. A imagem do Che Guevara morto na Bolívia, em tudo se parecendo com o Cristo Morto da famosa obra do pintor Andréa Mantegna, estava na cabeça de quem decidiu não liberar as imagens para a imprensa. O “enterro no Mar da Arábia” foi uma providência relacionada com a preocupação de que se criasse um templo de peregrinação aonde Bin Laden fosse sepultado. Ele se tornaria um ícone, ainda que morto. E os EUA decidiram negar esta presença simbólica a ele. Foi um movimento extremamente inteligente, um tento na batalha da narrativa do espetáculo que domina nossa sociedade. De novo, símbolos e sinais são, mais do que nunca, armas poderosas nas guerras contemporâneas. O terrorismo internacional, aliás, sempre se apropriou da imagética política de forma inteligente. Os EUA estão apenas fazendo o mesmo, não apenas com a violência dos assassinatos de lideranças terroristas como, no caso de Bin Laden, na supressão de qualquer símbolo.

Terra – Mas a pressão para a liberação das fotos, até como prova factual de que o nome do homem morto é mesmo Osama bin Laden, não vai acabar forçando Washington a liberar algumas imagens?
Duncombe – Aposto que sim. Neste momento já há imagens falsas pela internet. Na era do photoshop, símbolos são gerados a todo tempo, sejam eles oficiais (e “reais”), ou não. A batalha semiótica, deste modo, é radicalmente democrática. Ícones e imagens não podem ser controlados como foram um dia pela Igreja Católica e as monarquias europeias. A única esperança de Washington sair ganhando é mostrar as imagens que têm e deixá-las gradualmente se transformarem em domínio público.

Terra – Por que a imprensa americana não está dando nomes aos bois, dizendo que, ao contrário das tentativas, durante a Guerra Fria, de assassinato de líderes soviéticos e de Fidel Castro, desta vez a ação da CIA deu certo? Foi um assassinato bem-sucedido. Bin Laden, afinal, não estava sequer armado. Não seria correto prendê-lo e levá-lo a julgamento? Ou seja, um ato civilizado e não de barbárie?
Duncombe – No momento em que a mídia americana admitir que a ação militar responsável pela morte de Bin Laden foi uma execução muito bem planejada – que, para deixar claro, é como eu a entendo e aprovo – ela terá de questionar um dos grandes mitos de consumo interno dos EUA. O de que somos uma nação de Leis e da Justiça. Assassinato, assim como tortura, é o que as “outras” nações fazem, não nós. A discussão sobre se Bin Laden estava ou não armado é absurda. Assim como se o despejo de seu corpo no mar foi “respeitoso” e “de acordo com as práticas islâmicas”. Foi uma execução! Uma execução, ou seja, não cabe a discussão se ela foi feita de modo justo e respeitoso. Não cabe. Mas esta é uma tentativa desesperada, um tanto quanto patética, de se ater ao mito liberal que os EUA construíram sobre si mesmos.

Terra – Em seu livro mais popular o senhor fala da apropriação inteligente – embora quase nunca correta – de imagens e símbolos pelo governo Bush II durante a invasão e ocupação do Iraque. Como o senhor compara os dois momentos políticos? Os democratas conseguiram controlar a guerra das imagens como os republicanos no episódio Bin Laden?
Duncombe – Obama se apresentou como mais se sente à vontade: calmo, razoável, racional, cool. Fez questão de dividir os louros da vitória, ao mesmo tempo deixando claro que quem está no controle é ele. É interessante comparar a imagem de Bush II descendo no porta-aviões para declarar com toda pompa “missão cumprida” no Iraque, com a da foto, já icônica, de Obama e seus auxiliares, incluindo a Secretária de Estado, Hillary Clinton, no “war room” acompanhando o ataque ao bunker de Osama. Na imagem de Bush ele está no centro, vestindo um uniforme de aviador com terno e gravata por baixo. Já Obama aparce num canto, à direita, numa cadeira mais baixa do que a de seus auxiliares, vestindo um casacão negro, seu rosto sério, sem grandes emoções, no comando da ação. É uma imagem que certamente vai calar fundo nos eleitores interessados em líderes competentes e inteligentes. A questão é: quantos cidadãos americanos pensam assim?

Terra – Ou seja, a execução, com o senhor mesmo definiu, de Bin Laden, ajuda na reeleição de Barack Obama, no ano que vem?

Duncombe – Sim, mas o peso é menor do que o da economia. É muito mais íntimo, rotineiro, o declínio da qualidade de vida da maioria dos americanos nos últimos anos. Há a sensação de que uma classe política afastada da população comanda o país, pouco pensando no interesse público. O problema, para os republicanos, é que eles fazem parte, também, desta mesmíssima classe de políticos.

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