Eduardo Graça

Entrevistas

Q&A: Nayan Chanda

No caderno de fim de semana do Valor Econômico, minha entrevista com o jornalista Nayan Chanda, autor de “Sem Fronteira”, um estudo sobre a globalização:

“Bin Laden será um Che islâmico”
Eduardo Graça | Para o Valor, de Nova York
06/05/2011

Acaba de chegar às livrarias brasileiras o livro “Sem Fronteira” (Record), tratado sobre a globalização cerzido por Nayan Chanda, diretor da revista
digital “Yale Global Online”, do Centro de Estudos sobre a Globalização da Universidade de Yale. No dia seguinte à morte de Osama bin Laden, em
conversa com o Valor, o escritor disse que o líder terrorista personificou como ninguém o “lado negro” da globalização. “Ele foi, essencialmente, um produto da guerra santa global contra os invasores soviéticos no Afeganistão, que atraiu militantes islâmicos de todos os cantos do mundo”, comentou Chanda, que fez também curioso alerta sobre seu livro: a velocidade da era global já modificou a leitura de sua obra de mais de 500 páginas, lançada há quatro anos nos Estados Unidos.

O capítulo derradeiro de “Sem Fronteira”, já traduzido em 17 línguas, foi escrito um ano antes da deflagração da crise financeira global, mas Chanda já soava pessimista, tratando da maré de xenofobia e da expansão da desigualdade social no mundo industrializado, assim como da crescente sensação de alheamento das populações mais pobres dos países em desenvolvimento. Em texto introdutório à edição brasileira, o historiador Alexandre de Freitas Barbosa, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), enfatiza, no entanto, que, pela primeira vez na história, graças aos avanços tecnológicos, não podem os vencedores simplesmente ignorar os perdedores, pois estes sabem onde e como vivem os privilegiados pela globalização.

A tese central de Chanda em “Sem Fronteira” é a de que a globalização não é um fenômeno de nossos tempos, mas, sim, uma condição sine qua non do ser humano. Esqueça a americanização “McDonáldica” ou “Starbucksiana”. Não transforme a integração do comércio no século XXI em sinônimo de termo tão popular quanto aviltado. Globalização já havia, em dimensão diversa, muito antes da internet e da transformação do cidadão em consumidor, diz Chanda. Ela seria, pois, anterior ao consenso capitalista.

Chanda convida o leitor a acompanhá-lo em uma viagem que começa na África imemorial e, na companhia sempre rica de comerciantes,
missionários, soldados e aventureiros (e, mais adiante, de empresários, CEOs de multinacionais, “ongueiros”, ativistas sociais, mercenários e turistas), descreve – por meio da história de gente mais ou menos comum, bebendo, assumidamente, da obra daqueles que classifica como “pioneiros do campo da história global”, como William H. McNeill, Fernand Braudel, Immanuel Wallerstein e os historiadores da cultura Bruce Mazlish, Phillip D. Curtin e Jerry Bentley – a longa jornada da globalização, “tentando mostrar que ela é fruto, entre outras coisas, de uma necessidade humana básica de uma vida melhor e mais recompensadora”.

“O fim de Osama bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava”

Em texto duro no “New York Times” à época do lançamento do livro nos Estados Unidos, William Grimes, hoje responsável pela laureada editoria de
obituários do diário mais influente do planeta, acusa Chanda de assumir uma atitude “fatalista” diante dos vencedores e perdedores da globalização tal qual a conhecemos após a Segunda Guerra Mundial.

Na entrevista ao Valor, o escritor de origem indiana, que durante sua longa carreira cobriu a guerra do Vietnã e editou a “The Far Eastern Economic Review”, fala sobre os alijados do tsunami globalizante, do novo papel do Brasil no tabuleiro mundial (no livro, o país é mero coadjuvante, citado com maior frequência durante o período colonial ou por causa do desflorestamento da Amazônia) e arrisca algumas previsões sobre o mundo pós-Osama.

Valor: Com o assassinato de Osama bin Laden, desaparece também um dos maiores símbolos da chamada era da globalização?
Nayan Chanda: Sim, Bin Laden era a encarnação do lado negro da globalização. Ele foi, essencialmente, um produto da guerra santa global contra
os invasores soviéticos no Afeganistão, que atraiu militantes islâmicos de todos os cantos do mundo. Bin Laden, como sabemos, se transformou na
inspiração de milhares de jovens muçulmanos descontentes. Também não podemos esquecer que computadores, celulares, internet e transferência eletrônica de capital – todos produtos diretos da globalização – foram usados pelos terroristas nos ataques do 11 de Setembro de 2001. E, nos últimos dez anos, a Al Qaeda usou a internet para recrutar militantes, arrecadar fundos e treinar terroristas, além, é claro, de usar a rede para propagar sua ideologia.

Valor: O senhor acredita que haverá uma diminuição do radicalismo islâmico?
Chanda: Não, o fim de Bin Laden muito provavelmente não vai diminuir o carisma do homem ou da ideologia que ele representava. Em algumas
partes do mundo islâmico a imagem dele será a de um novo mártir, uma espécie de Che Guevara islâmico, um símbolo de resistência contra os “novos cruzados” e o Estado judeu. A morte de Bin Laden está longe de ser o marco do fim do lado negro da globalização. Há outras faces, como a do líder religioso radical iemenita Anwar al Awlaki, que passará a simbolizar a jihad islâmica global contra o Ocidente.

Valor: Mas o tento das Forças Armadas americanas no Paquistão ajuda, de alguma forma, os movimentos pró-democracia no mundo árabe?

Chanda: A julgar pelo silêncio incômodo com o qual a Al Qaeda reagiu à Revolução de Jasmim na Tunísia, não creio que a morte de Bin Laden vá
ter qualquer importância nas revoltas populares que assolam o Oriente Médio e o norte da África neste momento. A visão estreita e autoritária de
sociedade que ele representava não atrai um número grande de jovens protestando na praça Tahrir, no Egito, ou em Benghazi, na Líbia. É mais
provável que, embora sua morte não seja lamentada por muitos no mundo árabe, ele seja, sim, lembrado como uma figura heroica, que ousou desafiar o Ocidente, mas havia ficado um tanto defasado. A morte e a destruição que seu estilo de resistência causaram e seu fim violento serão vistos como prova inconteste de que a luta pacífica pela democracia, que já conquistou mudanças significativas em alguns países, é o melhor e natural caminho para a região.

Valor: O senhor avalia que a crise financeira global muda, de alguma maneira, a leitura de seu livro?
Chanda: É interessante porque, se você ler “Sem Fronteira” com cuidado, verá que já previa a crise chegando. Mudanças econômicas alteram
drasticamente a maneira como as pessoas agem e pensam. E hoje, no mundo mais globalizado, no momento em que Wall Street anuncia resultados muito negativos, pessoas são afetadas diretamente em todos os cantos do planeta. A reação é imediata. É o impacto de um tsunami, que vai, quase instantaneamente, do centro nervoso cada vez mais para longe das margens, invadindo o planeta todo. E um dos pontos importantes do livro, uma das alavancas da globalização, é o comércio…

Valor: E uma das primeiras reações à crise, obviamente, foi a retração de certos mercados.

Chanda: Muitos países ricos diminuíram a importação de produtos, reduzindo o ritmo da globalização. A crise foi, inegavelmente, um golpe imenso ao estímulo globalizante. Mas ela foi, ao mesmo tempo, paradoxalmente, um resultado direto da interdependência planetária que vivemos neste momento histórico. O movimento globalizante sofreu outros golpes no passado, como a peste negra na Idade Média e a Primeira Guerra Mundial. A diferença agora é a velocidade da transmissão de informação, da troca de bens, e sua visibilidade, clara como água. Internet, satélites, TV a cabo, o movimento cada vez mais veloz de transmissão de ideias – tudo isso intensificou o problema. E não há volta. Não há como reduzir o ritmo da integração.

“O Brasil é especial: conta com uma matriz energética invejável e iniciou sua industrialização antes da explosão global”

Valor: Já que o senhor falou em tsunami econômico, um exemplo claro dessa irreversibilidade da integração seria o modo como o mundo foi afetado pelo desastre natural no Japão no começo do ano, não?
Chanda: Exato. Um desastre natural no Japão que afetou o preço do iPhone no mundo inteiro. Afetou consumidores vivendo muito longe de Tóquio. Somos dependentes da produção de semicondutores no Japão. É fato. Mas essas tragédias – uma crise de proporções gigantescas ou a destruição da costa japonesa – acabam exigindo uma mudança de estratégia de certos personagens da máquina globalizante. Já percebo empresas com reservas cada vez maiores de produtos se movendo para trazer a linha de produção mais próxima do mercado, o que modificaria a narrativa mais recente da globalização. A ida da Foxconn, fundamental parceira da Apple na produção do iPad, de Taiwan para o Brasil, resultante provavelmente da visita da presidente Dilma à China, já reflete esse novo momento. Parte-se do princípio de que o consumo, no Brasil, vai crescer de forma exponencial.

Valor: O senhor fala de ganhadores e perdedores na era da globalização. Na América Latina, o Brasil seria o caso de um país que se beneficia com
a globalização, enquanto o México, a segunda maior economia da região, estaria no extremo oposto?

Chanda: Sim. O México é um exemplo clássico a ser usado para os que acreditam ser possível parar a globalização. A proximidade com o mercado
americano, com um ritmo de produção muito mais acelerado e eficiente, afetou de forma terrível a economia e a população mexicanas. Por outro lado, o México conseguiu finalmente acelerar seu processo de industrialização e adquirir tecnologia que pode incrementar em um futuro próximo suas exportações. Esta é a regra da globalização, com poucas exceções: ganha-se aqui, perde-se acolá.

Valor: E qual é o lado negativo da maré globalizante no Brasil?
Chanda: O Brasil conseguiu aumentar consideravelmente sua classe média e melhorou muito as condições dos trabalhadores, como efeito direto de políticas sociais, mas também de sua reinserção no comércio internacional. O Brasil é um caso muito especial, porque conta com uma matriz
energética invejável e iniciou sua industrialização antes da explosão global. Por isso pode exportar aviões para a China, não apenas matéria-prima. O Brasil se beneficiou claramente da globalização e, ao mesmo tempo, criou um mercado enorme para seus produtos com a revolução agrícola no
cerrado, incluindo, e não podemos tapar o sol com a peneira, a destruição da Amazônia. Algo que, obviamente, afetará o Brasil a curto prazo, de
forma negativa, e, a longo prazo, todo o planeta, por causa do efeito climático. O grande ponto negativo da era global no Brasil é a destruição
criminosa da Amazônia.

Valor: O senhor é muito amigo de Thomas Friedman, autor de “O Mundo É Plano”, outro best-seller que lida com a globalização, embora focado
exclusivamente em nosso tempo. Ele segue sendo um de seus principais interlocutores?

Chanda: Sim. Conversamos muito quando ele escrevia “O Mundo É Plano”, discutimos, apresentamos ideias um ao outro em primeira mão, é uma
grande parceria intelectual que cultivo com gosto. Friedman é um ser fascinante. Diria que temos uma longa parceria intelectual e, apesar de toda a crítica que se faz ao livro, ele ainda é uma das mais interessantes reflexões sobre o período pré-crise, em que a prosperidade gerada pela era global fascinou o autor.

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