Eduardo Graça

Cultura

Q&A: Moby – Envelhecendo na cidade

Hoje, no Segundo Caderno, minha conversa com o Moby, uma figura adorável e que, aos 45 anos, pensa música de forma crítica e orgânica. O bate-papo, completo, segue abaixo:

Moby e a melancolia de envelhecer
Especial para O GLOBO, de Nova York

Aos 45 anos, o músico lança o belo e triste “Destroyed”, composto em quartos de hotéis e madrugadas solitárias

A festa acabou. E Moby não esá reclamando do silêncio. Ao contrário. Tecnicamente seu décimo-terceiro álbum de carreira, “Destroyed” nasceu de noites de insônia criativa em quartos de hotéis durante turnês. O título vem de um anúncio liminoso em um terminal do velho aeroporto La Guardia, no Queens, e sintetiza tanto a sensação de cansaço físico como a implosão do ser social e o renascimento de um artista menos interessado em modismos e cada vez mais atento à enciclopédia musical foramda por um paladar eclético, sofisticado e surpreendente.

A imagem da capa é da lavra de Moby, que, a partir de quarta-feira, expõe parte de sua produção em uma galeria da cidade. A melancolia elegante de “Destroyed” – disparado o melhor trabalho do careca nerd de 45 anos desde “Play”, no distante 1999 – também está presente no livro de mesmo título, com 55 fotos do artista. Camiseta de malha, calças jeans, óculos de aros pretos jogados sobre a mesa, Moby encara o horizonte único do sul do Manhattan do topo de seu escritório no SoHo, seu bunker em Manhattan.

A Grande Maçã também já não lhe pertence. “Destroyed” é o último disco de Moby produzido quando seu endereço oficial ainda era na cidade que o projetou musicalmente. Há seis meses o músico afficionado por aqrquitetura – “ir a Brasília, no ano passado, foi um sonho realizado” – comprou uma casa em estilo nomando, erguida nos anos 1920, em Los Angeles, onde montou o estúdio onde trabalhará daqui por diante. Conhecida como o Covil do Lobo, ela já foi residência dos Rolling Stones, dos Beatles e de Marlos Brando. Amadurecido, é de lá, ele conta, que surgirão coisas tão doídas e belas quanto a épica “The day”, a belezura de “Sevastopol” e a obsessão melódica de “Be the one”, três destaques de “Destroyed”.

- O GLOBO: Seu nome estará para sempre ligado à cena musical da NY do dos anos 90. Por que L.A.?
- MOBY: Lá ainda há um estranhamento cultural que morreu em Nova York, por conta dos preços abusivos da cidade. O aluguel de um quarto e sala no SoHo é US$ 4 mil por mês, em Hollywood é US$ 700. Romancistas, artistas plásticos, músicos, poetas, estão migrando para lá. Há uma boemia real no lado ocidental da cidade, longe de Beverly Hills. Vivo em Beachwood Canyon, que, com Los Feliz, East Hollywood, Echo Park e Downtown, formam uma área meio depauperada, belíssima, sem a pretensao de Manhattan.

- Mas você não tem saudade da loucura urbana de NY, tão presente em sua música, inclusive no melódico e um tanto quanto neurótico “Destroyer’?
- Hoje, L.A. tem mais loucura urbana do que NY, uma cidade cada vez mais previsível, domínio quase exclusivo dos meninos do setor financeiro de Wall Street, de advogados de grandes corporações e europeus ricos. Os artistas que ainda resistem, vivem nos cafundós do Brooklyn. Um amigo tem um barzinho em L.A. chamado Dragon Fly, marco ponto lá. Outro dia, tivemos um karaokê-punk, com os guitarristas dos Circle Jerks e do Bad Religion, o baixista dos The Adolescents e o batera dos Dead Kennedys, enquanto a galera subia no palco e cantava. Foi o máximo! L.A. é estranha, não é perfeita, mas em termos criativos e artísticos é muito mais inspiradora do que NY. Também queria fugir da raiva que existe em NY, Londres e São Paulo…

- Como assim?

- São cidades marcadas pela obsessão em se fazer dinheiro. Parece que só há dois tipos de gente: os que ganham muito dinheiro de forma desesperada e desesperadamente querem ganhar ainda mais, e os que estão desesperadamente tentando entender como sobreviver na cidade. É muito desespero para a minha cabeça.

- E o Rio, como entra nesta sua relação com as cidades mundo afora, que, de certa forma, são o mote de “Destroyer”?

- O Rio é uma de minhas cinco cidades favoritas no mundo. Fisicamente, é o centro urbano mais lindo do planeta. E tem a Floresta da Tijuca. Sem ela, a beleza do Rio seria reduzida pela metade. Interessa a mim mais do que a praia. Sempre que estou no Rio, estou feliz. Muito feliz. O que mais gosto é quando uma cidade me surpreende. O Rio não é óbvio. Por favor, tente pensar em qualquer outra metrópole em que as pessoas usam o horário de almoço para voar de asa-delta. A primeira vez que vi um homem-avião perto da Pedra da Gávea, me apaixonei.

- “Destroyed”, no entanto, é a tradução musical oposta de uma beleza tropical, não? Melodicamente complexo, ele transpira isolamento e solidão. Estou certo?
- Está. Quase todas as músicas foram compostas à noite, em quartos de hotéis, durante a turnê de “Wait for me”, entre 2009 e o ano passado, inclusive no Brasil. Sofro de insônia crônica e o jet-leg não ajuda. A maioria de meus amigos músicos, quando estão despertos às quatro da manhã, estão bebendo como loucos. Eu, não. Você vai me encontrar olhando pela janela uma cidade que não é a minha, prestando atenção nas poucas luzes ainda acesas. É estanho, desconcertante, mas há uma beleza e um conforto neste cenário que adoro.

- Daí surgem coisas como “The Broken places” e “Victoria Lucas”, presentes em “Destroyer”, esta última batizada com o pseudônimo usado pela poeta Sylvia Plath, nome que rima com as dores mais profundas da alma…
- Sim. Algumas vezes cheguei a ficar desapontado quando a cidade acordava, a madrugada tinha ido embora e a magia desaparecido. Sentia uma saudade verdadeira do vazio das quatro da manhã. Dali nasceu o som deste disco.

- “Destroyed” não é também uma reflexão sobre envelhecer na cidade?

- É, sim, uma metáfora do envelhecer. Depois de “Play” (1999), as turnês passaram a significar também uma festa sem fim. Muita piração. Parei de beber há três anos, porque meu fígado não agüentava mais. E os shows se transformaram em exercícios constantes de observação. Acabou a festa. “Destroyed” reflete este momento. Passou a celebração niilista. Quase passou também a raiva de se perceber estar neste antigo universo por apenas um átimo de segundo. Este talvez seja um momento de aceitação. Daí a calma, o foco na observação, em capturar o que está à minha volta, visto através das janelas dos quartos de hotel e dos aeroportos por que passo o tempo todo.

- Incomoda o fato de que, muito provavelmente, você terá menos pessoas ouvindo “Destroyer” do que “Play”?

- Nos anos 90 a indústria musical funcionava como uma loteria. Algumas poucas pessoas tinham milhares de ouvintes, enquanto a maioria lançava discos para ninguém. Hoje quase todos conseguem se fazer escutar. Já não penso mais em vendagem. Minha esperança é apenas de que alguém ouça alguma faixa do disco e se emocione. Em 2011, se você conta com uma grande audiência, meu caro, você teve de aceitar tanta coisa, de fazer tantas concessões, que comprometeu sua integridade.

- Mais do que em 1999, quando todo mundo ouvia “Play” de cado a rabo?
- Difícil dizer. Naquela época, aqui e acolá, artistas preocupados em manter um trabalho íntegro, coerente, ainda eram capazes de encontrar uma audiência de massa. Agora é impossível. A escolha é clara: ou bem você se vende para ganhar as multidões ou você esquece das multidões e mantém sua integridade artística. Não penso em disco de ouro. Sucesso é alguém reagir a algo que criei. E só. Meu foco é na relação com esta pessoa.

- E quem o emociona na música pop?
– Não ouço muita música produzida nos dias de hoj. Gosto do Interpol, mas prefiro ouvir Joy Division. Curto Grizzly Bear, mas sou mais Brian Wilson. Os White Stripes são legais, mas não é muito mais divertido ouvir Willie Dixon ou Howlin’ Wolf? Ouço blues antigo, R&B, algum rock dos anos 60, eletrônica dos 70. Gosto de ouvir a produção num disco. Hoje em dia tudo é tão limpo, profissional e frio. Prefiro correr atrás da disco music da Somália de 1974. Vou ao iTunes e fuço para ver o que falta na minha coleção do Holwin’Wolf.

- Não há uma loja iTunes para os brasileiros. Como você vê o download ilegal de música?
- Meus objetivos criativos e profissionais são muito claros: quero criar música que amo e tentar fazer com que alguém se emocione com o que faço. Não me interessa se o ouvinte comprou um CD, baixou na internet, adquiriu um vinil para tocar na velha vitrola.

- Mas você não precisa vender discos?
- Sim, mas ganhei muito dinheiro, e, honestamente, não quero ser um especialista na parte comercial do que faço. Posso me dar ao luxo de não ser, melhor dizendo. Se for conversar com meu agente e disser que não quero mais fazer turnês, ele não trabalharia mais comigo. Algum lucro a indústria precisa ter com meu trabalho, mas o que busco é um certo equilíbrio.

- Daí você ter disponibilizado algumas músicas do disco novo na rede, em um formato EP…

- Isso. E nunca penso sobre quanto estou ganhando. Quando o dinheiro entra na minha conta, acho ótimo. Mas meu foco é na música, que é sagrada. O mercado, não. Simples assim. O mundo comercial em que vivemos é pobre e vão. A música, quando emociona, é profunda. Não leio mais revistas de música, a não ser a Mojo, britânica. As outras todas me deprimem.

- Por que?
- Parece que aqui nos EUA, especialmente, o foco está na tendência do momento ou no sucesso comercial. Não estou nem um pouco interessado nas novas bandas do Brooklyn ou em quanto estão vendendo os Kings of Leon. Não estou nem aí. Vou ler um artigo sobre Leonard Cohen, Nick Drake ou Scott Walker na Mojo É um equívoco estra transformação da imprensa escrita em blogs impressos. Quando meus amigos buscam um jornal ou uma revista, eles querem jornalismo cultural de fôlego.

- “Destroyed” recebeu cotação máxima na Mojo e David Buckley escreveu que este é seu disco mais próximo da música produzida pelos artistas que mais o influenciaram, David Bowie e Brian Eno. Você está de acordo?
- Sabe que esta foi a primeira vez que recebi uma crítica positiva deles? E, rapaz, venho esperando este momento por mais de uma década! Meus três discos favoritos de Bowie, pela ordem, são Station to Station, Low e Heroes e não serei jamais capaz de chegar perto da qualidade destes discos. Jamais farei algo tão interessante, desafiador e, sejamos francos, bom, quanto as melhores safras de Bowie e Eno.

- Alguma música brasileira que o emocione intensamente?
- Sim, e não é nada da Tropicália e samba-jazz, que ouvi muito e gosto bastante. Volta e meia retorno a “Roots”, do Sepultura, um disco que ainda me deixa arrepiado. Para mim, “Roots” é o momento mais sofisticado da história do heavy metal.

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