Eduardo Graça

Cultura

Q&A: Kenneth Branagh

Também para o UOL, a conversa com o diretor Kenneth Branagh:

“Jamais tive tantos fãs tão interessados assim em um filme meu”, diz o diretor de “Thor”

EDUARDO GRAÇA
Colaboração para o UOL, de Londres

Kenneth Branagh está calmo. Ele sabe que fez de “Thor”, se não o blockbuster de seus sonhos (quem sabe como o público, esta incógnita, reagirá à adaptação cinematográfica de uma das mais bem elaboradas histórias em quadrinhos do universo Marvel?), um filme que funciona muito bem.

Para começo de conversa, ele amealhou um belo elenco: no papel-título, a aposta Chris Hemsworth (veja entrevista exclusiva aqui), já comparado pela parte mais apressada da imprensa britânica a Robert Mitchum; o ótimo Tom Hiddleston como Loki, o irmão sonso e perigosíssimo do herdeiro do trono de Asgard; sir Anthony Hopkins como Odin, caprichando nas expressões de loucura e poder que valoriza até os limites da exaustão; e Natalie Portman como a cientista que acaba revelando o que é que as terráqueas tem para o galanteador à moda antiga, o viking ideal vivido por Hemsworth.

Que ninguém se iluda, Thor, como Branagh deixa bem claro, é para se ver sem grandes expectativas filosóficas, curtindo batalhas monumentais contra os gigantes azuis, representações das montanhas e geleiras para os escandinavos. As imagens são impressionantes e o ex-marido de Emma Thompson não teve medo nem de usar imagens em C.G.I. (criadas digitalmente em computador) nem de usar o 3D, quase banalizado na atual safra de filmes de aventura de Hollywood. Mais: o diretor usa seu privilegiado conhecimento do artesanato da atuação – ainda a matéria-prima do cinema, afinal de contas – para conduzir diálogos críveis em meio a tanta fantasia.

Com o semblante de quem terminou uma tarefa hercúlea, Branagh, que se apaixonou por Thor ainda menino, quando comprou o gibi do Deus do Trovão em uma banca de jornais de Belfast, onde passou a primeira infância, conversou com o UOL Cinema na noite de um dia de sol intenso e céu aberto na primavera londrina, como se os deuses do trovão, da chuva e dos ventos, tão íntimos da capital inglesa, dessem uma folga para o ilustre diretor. Abaixo, os melhores trechos da conversa:

UOL Cinema: Antes mesmo de fechar com Chris Hemsworth para o papel principal, o senhor teve a certeza de que Tom Hiddletson, outro nome não tão conhecido dos americanos, seria seu Loki. Ele tem um papel essencial nas tramas tanto de “Thor”, quanto de “Os Vingadores”. O que o senhor viu nele?
Kenneth Branagh: O teste de vídeo dele foi brilhante. Brilhante. Ele era o Loki. Inteligente, exato, emocionalmente complexo. Ele entendeu o que queríamos e foi a primeira grande vitória desta produção, quando vimos que tínhamos encontrado o ator ideal para fazer personagem tão importante.
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“Thor”

UOL Cinema: E Chris parece o oposto de Tom, de certa forma. Um é musculoso, apolíneo, exagerado. O outro é contido, soturno, maquiavélico…
Kenneth Branagh: Exato. Eles funcionam perfeitamente para estabelecer esta oposição. Chris entendeu que ele teria de ser arrogante ao ponto de perder a simpatia da audiência. E Tom teria de lidar com uma complexidade de emoções, não é o vilão óbvio.

UOL Cinema: Este talvez seja um dos segredos de se tornar interessante um filme sobre um deus da mitologia nórdica transformado em super-herói. O que o interessou tanto por este projeto?
Kenneth Branagh: Acho que a dimensão do projeto, inicialmente. Não vou mentir. E o desafio de criar um grande produto de entretenimento, comercial. Veja bem, eu vou ao cinema toda semana, praticamente. E vejo todos os filmes de Hollywood que você possa imaginar. E costumeiramente saio metendo o pau no que vejo. Achei que poderia fazer algo diferente com “Thor”, que embute temas que genuinamente me interessam.

UOL Cinema: Que temas são estes?
Kenneth Branagh: O mundo clássico, o que acontece nos bastidores do Poder, a tensão de um pai vendo no filho os defeitos que, ironicamente, o levaram aonde ele chegou. E os cenários fantásticos, com o filme começando no mundo gélido dos gigantes, passando pelo brilho de Asgard, com as cores do Arco-Íris sempre no meio, acreditei poder equilibrar estabelecendo o tempo, na Terra, como sendo o agora e não o passado, como nos quadrinhos. Assim poderia explorar bem outro aspecto que gosto muito em “Thor”: o humor gerado por um Deus vivendo no meio de homens contemporâneos. Sem esquecer, claro, do aspecto romântico, de seu encontro com Jane Foster, vivida por Natalie Portman.

UOL Cinema: O senhor comentou não gostar da maioria dos filmes de aventura produzidos recentes em Hollywood. O que procurou evitar em “Thor” para não repetir o erro de seus pares?
Kenneth Branagh: Não quero parecer estar fazendo uma pontificação sobre filmes de super-herói em Hollywood, o que deve e o que não deve ser feito. Não é isso. O que não quis fazer foi simplesmente resumir ou satirizar a ideia dos mitos nórdicos. Creio piamente que os arquétipos criados por civilizações passadas revelam verdades sobre o comportamento humano. A questão central deste filme que, espero, seja um exemplo de cinema pop de verão (no Hemisfério Norte), é feita por Thor: quem sou eu? E eu queria fazer esta pergunta de uma forma interessante. E feita por um personagem que comete um erro terrível. Imagino que a imensa maioria do público nunca imaginou ir à terra dos gigantes. Mas tenho certeza de que eles já cometeram – ou quase cometeram – uma grande burrada. É esta resposta catártica que estou buscando com meu “Thor”. É o que eu gostaria, como público, de encontrar nos filmes de super-heróis. Quando estava fazendo testes de elenco, um ator me disse, depois de ler as notas que havia dado a ele, que havia entendido o que eu queria fazer com Thor, um “ligeiramente intelectualizado filme de super-herói”. Eu ri e disse que ele não tinha entendido patavinas. O que eu queria era apenas fazer o melhor que podia fazer. Simples assm. Filmes são bons ou ruins, sejam eles o “Hamlet” russo ou “Tootsie”.

UOL Cinema: Um aspecto singular de se adaptar um personagem do universo Marvel para o cinema é a importância que os fãs dão a cada detalhe…

Kenneth Branagh: Desculpe interromper você no meio da pergunta, mas é preciso dizer que nunca vivi isso antes. É muito divertido! Cada detalhe, eles usam escudos ou não, como será o martelo, o vestuário do Loki, as cores de Asgard, a arquitetura primitiva e obviamente, cada escolha do elenco, foi submetida a debates intensos. É impressionante e nunca, repito, jamais tive tantos fãs tão interessados assim em um filme meu. Adorei a experiência.

UOL Cinema: O senhor falou da importância do humor no filme. É algo que o chamou a atenção quando o senhor leu, em criança, as aventuras do Deus do Trovão?
Kenneth Branagh: Sim, eu achava aquilo tudo muito divertido. É o tecido que conecta os mundos retratados no filme, é o ritmo da aventura. Tentei recriar o dinamismo dos quadrinhos – do aspecto físico do gibi mesmo, a divisão em quadros – no filme. O que não usei foi a linguagem antiquada, o mylord aqui, mylady acolá. Mas o humor, ah, é essencial. Ele pode acabar trazendo ternura, compaixão, quando bem feito. A primeira reação quando tive ao ler o roteiro, que já estava sendo feito há cinco anos, foi a de que parecia hermético e soturno, sério demais. Eu queria encontrar o meio-termo do Super-Homem clássico, puro, fantástico e brilhante, com o Batman contemporâneo, pós-moderno, o homem das trevas, introspectivo. Thor estaria no meio: é primitivo, bruto, mas também traz a relíquia viking, o bom-humor, o beberrão nórdico. Ali estava o tom do filme que eu queria fazer.

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