Eduardo Graça

Cultura

O noivo da minha melhor amiga

Meu texto sobre a comédia “O noivo da minha melhor amiga”, no Rio Show, d’O GLOBO de hoje:

Entre o amor e a amizade

Uma comédia romântica marca a estreia da produtora de Hilary Swank no cinema

Eduardo Graça*, de Los Angeles, para O GLOBO

A grande curiosidade em torno de “O noivo da minha melhor amiga” não aparece na tela. Está na assinatura da produção da comédia romântica, adaptação do best-seller da escritora americana Emily Giffin. É Hilary Swank, que escolheu um enredo meloso, cujo cenário é o mundo dos ricos e felizes em Manhattan – com a clássica escapadela para os Hamptons no fim de semana – para a estreia de sua 2S. A atriz, que arrebatou o Oscar duas vezes, por “Garotos não choram” e “Menina de ouro”, diz querer produzir filmes em que não se vê atuando, mas de cujas histórias ficou enamorada.

O enredo do filme trata, jura Swank, 37 anos, de tema caro às mulheres da sua geração. Seis anos antes da ação começar, Rachel, uma tímida advogada, se apaixonou por Dex, seu colega na faculdade, mas não mexeu uma palha ao ver sua amiga, a deslumbrante Darcy, conquistar o rapaz. Quando nos encontramos com os personagens pela primeira vez, melhor amiga e ex-paixão enrustida irão se casar e, semanas antes, a tragédia se dá: Dex acaba na cama de Rachel. E agora?

Swank conta que uma das razões para abrir sua 2S – que já adquiriu outro título na mesma linha, “Mulheres francesas não ficam gordas” – foi a de poder controlar todos os aspectos de um filme. Foi dela a decisão de escalar Ginnifer Goodwin, conhecida do público brasileiro pela Margene da série “Amor imenso”, da HBO, para viver Rachel. E Kate Hudson, a Darcy, para, uma vez mais, se travestir de “party girl”, dando gritinhos a cada cinco minutos de filme. Dex é o ex-modelo Colin Egglesfield, uma espécie de Tom Cruise remoçado e contido.

O filme é uma novela de uma nota só, levada ao cinema para atrair um público intimado a responder à tal questão que encafifou Emily Giffin: em uma situação dessas, o que você faria? Será que teria a coragem de trocar a velha amizade pelo amor proibido? Lupiscínio Rodrigues e Felisberto Martins, no imortal samba “Se acaso você chegasse”, apresentaram a questão, pela ótica masculina, com muito mais profundidade, emoção, e picardia, na distante década de 1930.

Mas, sem perder o gingado, há sim um pulo do gato, relacionado ao quarto personagem principal do filme, o Ethan vivido por John Krasinski. O Jim Halpert da sére “The office” às vezes exagera na sutileza de um personagem ingrato, espécie de conselheiro de Rachel e inimigo número um de Darcy. Mas o colega de escritório da personagem de Goodwin é quem garante as poucas risadas do filme e as melhores tiradas, embora as produtoras resolvessem modificar sua história, criando um possível romance – mais um – que não existia no livro, revelado em Londres, para onde ele é transferido.

Tudo, em Hollywood, se explica. É que “O noivo da minha melhor amiga” já foi pensado como o primeiro capítulo de uma série de filmes criados a partir dos personagens imaginados por Giffin. No segundo livro, Darcy e Ethan, de inimigos, descobrem-se, apaixonados. “Something blue”, conta Hudson, já começaria a ser filmado em janeiro deste ano, mas a atriz engravidou de seu segundo filho e a volta ao batente foi adiada. “Mas o que me interessou neste personagem foi mesmo o segundo filme, você consegue ver a transformação de Darcy em uma outra pessoa”, conta Hudson.

Apesar do maciço esforço de divulgação, e das boas atuações de Goodwin, Egglesfield e Krasinski, o filme não explodiu nas bilheterias americanas, lucrando quase US$ 14 milhões, para uma produção de US$ 35 milhões. O público, de acordo com pesquisas, reclamou da ausência de um personagem masculino forte. E a crítica foi impiedosa, com A.O. Scott, do “New York Times”, perguntando: “mas as pessoas, nos filmes, não deveriam ser interessantes? ‘O noivo da minha melhor amiga’ é uma comédia sobre casamento bem-intencionada, mas que parece decidida a provar ardentemente que seus personagens são todos vazios”.

O que não deixa de ser irônico ao se levar em conta que Swank levou para casa suas estatuetas douradas por papéis dramáticos, fortes, densos. Quando o nome da produtora aparece nos créditos finais de “O noivo da minha melhor amiga” resta a esperança, depois de quase duas horas de clichê atrás de clichê, de que as novas produções por ela assinadas tragam ao menos parte da força de seus melhores momentos do lado de lá da tela.

* Eduardo Graça é colunista do “Segundo Caderno”.

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