Eduardo Graça

Cultura

Mini-perfil: Joshua Redman

Saiu hoje, no Segundo Caderno do GLOBO, meu texto sobre uma das principais atrações da temporada de jazz no Rio e SP este ano, Joshua Redman, um lorde. Segue o texto:

Saudado por quase todos os medalhões
Eduardo Graça, de Nova York

Leitor do Segundo Caderno, morra de inveja. Este repórter teve o privilégio de conferir uma das apresentações do saxofonista Joshua Redman, com o The Bad Plus, um power trio inclassificável que tomou o jazz de assalto. Fãs de Black Sabbath, eles fazem versões venenosas tanto de “heart of glass”, do Blondie, quanto da “Sagração da primavera”, de Stravinsky. E, não, eles não vão se apresentar com o filho do lendário Dewey Redman no BMW Jazz Festival, dia 10 de junho, em São Paulo, nem em seu braço carioca, três dias depois. Mas nem tudo é tristeza: na comemoração dos dez anos dot rio, na semana passada, no Blue Note, Redman, que raramente se aopresenta com o plus de outra formação musical, brilhos com solos de arrepiar o público e seus colegas de palco, o baterista David King, o baixista Reid Anderson e o pianista Ethan Iverson.

- Quando recebi o convite, fiquei um pouco cabreiro, pois eles são uma senhora banda. O Bad Plus criou algo singular, um som que aprecio muito e que não tem igual no universo do jazz. Não queria me intrometer naquela química musical. Não queria soar como um impostor. Fiquei um pouco apreensivo, mas eles deixaram claro que queriam fazer música comigo, não apenas contar comigo no palco – conta Redman, no camarim principal da casa do Village, refestelado em um sofá cinza, momentos antes de começar o segundo dia de shows de uma semana dedicada ao aniversário do grupo amigo.

A modéstia e o falar cadenciado contrastam com o vocabulário sofisticado – Redman se graduou em Havard e estudou Direito em Yale – e a segurança do músico de 42 anos saudado por praticamente todos os medalhões como o sax-tenor mais talentoso de sua geração, comparado, já ems eu primeiro álbum, lançado em 1993, com John Coltrane, Dexter Gordon e Sonny Rollins. Curiosamente, Redman também flertou com o pop em sua estreia, gravando uma versão de “i got you (I feel good)”, de James Brown. Mas acabaria se dedicando mais a composições próprias ou interpretações de peças de seus parceiros mais próximos, como os que completam o trio da excursão brasileira, o baixista Rueben Rogers e o baterista Gregory Hutchinson. Em “Compass”, seu disco mais recente, de 2009, a exceção é a “Sonata ao luar”, de Beethoven.

- Os shows brasileiros serão totalmente diferentes do que você viu aqui. Acabo decidindo o repertório no palco, mas posso adiantar que teremos músicas de meus dois últimos discos para o selo Nonesuch, “Black East” e “Compass”, mescladas com alguns standards, umas coisas mais free jazz, outras com mais suíngue. O mais importante é o fato de não contar com instrumentos harmônicos ao meu lado. Será uma apresentação mais crua (sax-baixo-bateria) e intensa. Sei que exigirá mais de nós e do público, mas posso garantir que nós três temos, assim como o The Bad Plus, uma química própria, de anos tocando juntos. Nosso foco é tanto no abstrato quanto no prazer, sempre evitando o maior perigo dos trios: os músicos acabarem tocando iguais uns aos outros. Isso não vai acontecer conosco – promete.

Monotonia passou longe do encontro de Redman com o Bad Plus em Manhattan. Para a semana no Blue Note, Redman recebeu uma lista de 12 composições originais do trio e compareceu a um único ensaio conjunto, de uma hora e meia, depois de ouvir atentamente coisas como People like you, The Radio tower has a beating heart e a ultra-romântica 2 pm, todas do trabalho mais recente de Iverson-Andersen-King, Never Stop, lançado em agosto. O resultado foi a platéia de pé, ovacionando o set de pouco mais de uma hora, triste em deixar o Blue Note para trás e enfrentar a noite gélida de 4 graus em plena primavera nova-iorquina. Um público heterogêneo – cabelos grisalhos dividiam espaço com meninos e meninas de jeans e camiseta – que desafiava a tese de que o jazz é um gênero musical mumificado.

- Este é um mérito do Bad Plus. O que me interessa cada vez mais é tocar com grandes músicos. Veja bem, tenho a ambição de criar música que considero boa, e, obviamente, quero que muita gente me escute, mas não me preocupo, nesta altura do campeonato, em amealhar uma nova audiência. Tive a imensa sorte de começar a me apresentar profissionalmente no início dos anos 90, quando a cena do jazz estava se renovando e minhas platéias eram constantemente formadas por jovens. Mas, como eles, não sou mais um garoto de 20 anos. Fico pensando: o que significa, para mim, hoje, ser um músico de jazz? Essencialmente, ser capaz de improvisar, de lidar com o coração e a alma da música. Mas também ter o conhecimento de um vocabulário musical complexo, com a habilidade e a experiência necessárias para dominar uma língua tão específica de um modo autoral, diz.

A insularidade do jazz se revela quando Redman confessa desconhecer algumas das atrações do BMW Festival, como Sharon Jones e os Dap-Kings, responsáveis pelo ressurgimento do soul em Nova York, uma apresentação imperdível para o fã da boa música popular. Mas ele vibra ao saber que Wayne Shorter é um dos destaques da programação:

- Wayne é um dos maiores músicos de todos tempos. Vou além: é, ao lado de Duke Ellington, Thelonious Monk e Ornette Coleman, o maior compositor da história do jazz. E o quarteto de Shorter é um dos melhores grupos de jazz da atualidade. Na última década, uma das minhas experiências mais ricas, como ouvinte, como público mesmo, foi vê-los em ação, diz, com entusiasmo.

Curiosamente, no panteão de compositores do músico californiano não entrou seu pai, Dewey Redman, falecido em 2006, adorado por críticos e aficionados do jazz, mas que jamais recebeu da mídia a atenção dedicada a Joshua.

- Você não vai me ouvir tocando composições dele no Brasil, embora já tenha considerado isso. Mas a influência dele em minha música é imensa, maior até do que como pai. Os primeiros discos que ouvi em minha vida foram os que ele fez e, mais importante, eu tive a enorme alegria de poder tocar com ele, por dois anos, quando me mudei para Nova York. Tive naquela época uma educação musical extraordinária, que carrego comigo para sempre, ao mesmo tempo em que finalmente descobri quem era meu pai, conta.

Quando chegou em Nova York, o quase-advogado foi recebido por um pai tão orgulhoso do talento musical do filho quanto temeroso de seu namoro com um mundo mais inseguro do que o dos gabinetes e tribunais. O músico foi criado pela mãe, a bibliotecária e dançarina Renee Shedroff, em um dos redutos da intelectualidade liberal americana, Berkeley.

- A primeira reação dele foi: mas, meu filho, você pirou de vez? Mas aí em seis meses na cidade já tinha tocado com ele, com Charlie Haden, Pat Matheny, Jack DeJohnette, Milt Jackson. Eu me inseri quase que imediatamente na cena musical local, me vi dividindo o palco com meus grandes ídolos. Aí, meu caro, foi a decisão mais fácil de minha vida e nunca olhei para trás.

Observar Redman no palco é tarefa das mais prazerosas. Em momentos mais quentes do espetáculo, ele marca o ritmo se movimentando de cima para baixo, e vice-versa, tal qual seu corpo fosse uma sanfona humana. Nas músicas mais delicadas, como em 2 pm, em que troca o sax pelo clarinete, Redman fecha os olhos e só volta a enxergar as mesas do Blue Note após a última nota da composição.

- Faço isso para me concentrar mais. O que tento é estar presente no tempo da música, mais do que no local em que toco. Sim, estou no palco para servir à audiência, mas não para entretê-los, necessariamente. Procuro comunicar, de modo criativo, o que ouço, o que sinto. Nunca penso no que o público quer ouvir. Para mim, a música precisa, necessariamente, nascer e fluir de modo mais intuitivo.

Redman não é um profundo conhecedor de música brasileira – “gosto dos clássicos todos, o básico, os fantásticos ritmos e harmonias da Bossa Nova, via Stan Getz, e adoro, infelizmente, não vou além disso” – mas diz que a expectativa em se apresentar novamente no Rio é grande. No Brasil, Redman também já se apresentou em Porto Alegre, Ouro Preto e Belo Horizonte.

- Adoro o público carioca, ao mesmo tempo caloroso e atento.. Tenho ótimas memórias do Rio, algumas, inclusive, que prefiro não dividir com você, conta, antes de dar uma gargalhada gostosa e zarpar escada abaixo rumo ao palco do velho clube de jazz.

4 Responses to Mini-perfil: Joshua Redman

  1. Ivo Rocha disse:

    Eduardo,

    Deixei um comentário no site do Globo sobre essa materia (nao sabia que voce tinha um site) Desculpe se pareci grosseiro, mas acho que voce se enganou ao dizer que Joshua toca clarinete (pode ate tocar). Provavelmente voce confundiu o sax soprano com o clarinete, pois normalmente o formato do soprano é reto, como o do clarinete. O som porem tem timbre bem distinto. A intencao é apenas esclarecer.

    Bela matéria.

    Um abraco,

    Ivo (YAMR)

    • Eduardo disse:

      Obrigado, Ivo! Mas o Joshua toca clarinete também, embora não tão comumente quanto sax soprano e alto. Mas agora você também me deixou encafifado…

  2. Ivo Rocha disse:

    Tenor, soprano, clarinete ou alto, tanto faz. O que importa é que ele toca muito e vou continuar morrendo de inveja por não ter assistido esse show. Quem sabe a apresentacao no Rio compensa um pouco (mas não vai ser a mesma coisa…)

    Um abraço,

    Ivo

  3. Eduardo disse:

    Oi Ivo, sem querer ser chato, também acho que não vai ser não…o encontro no Blue Note foi único e mágico. Mas acho que o Joshua estava mesmo empolgado com o show no Rio. Depois você me conta? Outro abraço!

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