Eduardo Graça

Cultura

Hollywood volta suas apostas para a China

Hoje foi publicado meu texto sobre Hollywood e seu novo mercado dos sonhos: a China, no “Segundo Caderno” do GLOBO. Olhem só:

A Nova Fronteira
Eduardo Graça, especial para O GLOBO

Hollywood volta suas apostas para a China, que em uma década deve ultrapassar os EUA e se tornar o grande mercado de audiovisual do planeta

LOS ANGELES – Quando decidiu dar o sinal verde para a sequência de “Kung Fu panda”, Jeffrey Katzenberg levou em conta o enorme sucesso do filme nos EUA, mas não se esqueceu do negócio da China que tinha nas mãos. A matemática não mente. A animação centrada na história de um panda que se torna mestre de kung fu – dois dos mais cultuados símbolos chineses – teve um custo de US$ 130 milhões e, nos EUA, contando apenas a bilheteria dos cinemas, embolsou US$ 215 milhões. O jogo fica ainda melhor para a Dreamworks e a Paramount Pictures, respectivamente produtora e distribuidora do filme, quando se leva em conta o tamanho do sucesso nos quatro cantos do planeta: US$ 416 milhões. Jack Black, Dustin Hoffman e Angelina Jolie chegaram a quebrar um recorde: deram voz aos personagens centrais do primeiro desenho animado (o panda Po, o mestre Shifu e a valente Tigresa) responsável por superar a marca dos 100 milhões de yuans de ingressos vendidos na China. Não por acaso, “Kung Fu panda 2″, que chega aos cinemas brasileiros no dia 10 de junho, é apresentado pelo criador da Dreamworks (os outros dois são Steven Spielberg e David Geffen) como “uma carta de amor” à China. Segunda maior economia do planeta, é lá, aposta Katzenberg, a nova fronteira de Hollywood.

- Estamos falando de um mercado potencialmente sensacional. É óbvio que há problemas. E, idealmente, gostaria que fossem resolvidos a curto prazo. A China é, hoje, um mercado com restrições, tanto por conta da censura do governo quanto da pirataria. Mas, apesar dos muitos desafios, trabalho com a previsão de que, em uma década, a China será o grande mercado de audiovisual do planeta. Maior, inclusive, que os EUA – diz Katzenberg.

Coproduções cada vez mais comuns

Não é de se estranhar que os dois estúdios, inicialmente, tenham planejado seu principal evento de divulgação do filme na China. Por conta da complicação com os vistos necessários para jornalistas internacionais, o encontro com a imprensa se deu em Glendale, um subúrbio de Los Angeles, onde fica a sede da Dreamworks. O local foi decorado com temas chineses, e as mesas usadas para as entrevistas, separadas por arranjos de bambu. Um ator vestido de Panda circulava para cima e para baixo e no cardápio do almoço o destaque eram os dumplings, pastéis chineses, favoritos de Po.

Uma das primeiras decisões de Katzenberg em relação a “Panda 2″ foi enviar a diretora Jennifer Yuh (que no primeiro filme foi uma das comandantes da direção de arte), os dois roteiristas e membros da equipe técnica para uma viagem ao Império do Centro. Foram 12 dias de trabalho duro, uma espécie de intensivão, que estreitou ainda mais a parceria transpacífica.

- O governo chinês nos deu apoio total. Conversei com pessoas na rua que adoraram o primeiro filme e se disseram surpresas que um filme passado na China Antiga fosse tão interessante para estrangeiros quanto era para eles – diz a diretora.

“Quando as autoridades chinesas viram “Kung Fu Panda”, elas perceberam que era um filme que mostrava uma China belíssima, rica, culturalmente relevante. Não tivemos qualquer problema com a censura. Pelo contrário “

A China retratada por Hollywood pouco ou nada tem a ver com a realidade da segunda maior economia do planeta. Um outro sucesso recente do cinema americano, o “Karatê Kid” reinventado no ano passado, se tornou a grande surpresa do verão na zona norte do planeta, se pagando já no primeiro fim de semana de exibição. Uma produção barata para os padrões da indústria do entretenimento americano, o longa teve custo estimado em US$ 40 milhões e, apenas com a bilheteria, arrecadou US$ 360 milhões (sendo US$ 182 milhões fora dos EUA). Mais: foi coproduzido pela China Film Group Corporation, em parceria com a Columbia Pictures, estúdios que devem lançar a segunda edição do filme com Jaden Smith e Jackie Chan em 2013.

De acordo com dados divulgados pelo governo chinês, em 2010 o cinema movimentou na China cerca de US$ 1,53 bilhão, um aumento brutal de 64% em relação ao ano anterior. Mais de mil salas de cinema estão sendo construídas anualmente no país e já há análises de estudiosos do mercado asiático, como Yang Xuepei, presidente do Instituto de Filme, Ciência, Pesquisa e Tecnologia da China, dando conta de que em cinco anos as bilheterias chinesas chegarão a US$ 6 bilhões/ano.

Como se pode imaginar, o fascínio de Hollywood tem tanto a ver com a saturação do mercado americano quanto com a pujança dos investimentos de Pequim na criação paulatina de uma indústria de entretenimento lucrativa. Mas as limitações para os americanos ainda são grandes. Dentro da política de proteção de mercado, apenas 20 filmes estrangeiros podem ser mostrados nos cinemas locais. O pulo do gato são as coproduções, consideradas domésticas, escapando assim da linha de corte de Pequim.

E como a mão de obra local é mais barata, as coproduções começam a se tornar mais comuns. Em 2009, um ano depois da explosão de “Kung Fu panda”, foram 74. No ano passado, 84 (oito delas parcerias com Hollywood). Em novembro, a Asia Society promoveu em Beverly Hills o U.S.-China Film Summit, com o mote “Aproximando a China de Hollywood”. Foi um sucesso total, com mais inscritos do que cadeiras disponíveis no Writers Guild Theater. Entre os empolgados apresentadores estavam os produtores de “Karatê Kid”, “Coraline e o mundo secreto” e “O rei Leão”.

A Disney, por sua vez, anunciou em abril o início da construção, em Xangai, de um parque de diversões gigantesco, com o maior Magic Kingdom, marca registrada das Disneylândias, jamais visto. O projeto de US$ 2,3 bilhões é uma parceria com um grupo local.

Para Pequim, além da criação de uma nova indústria, os benefícios vão muito além dos ganhos econômicos. A imagem que Hollywood leva da China milenar para o mundo não inclui, até o momento, qualquer crítica ao caráter autoritário do regime comunista, como bem pontua o próprio Katzenberg. Em “Karatê Kid”, Sherry, a personagem de Taraji P. Henson, deixa o Meio-Oeste americano para trabalhar numa fábrica na China e em nenhum momento se discute o aspecto surrealista de tal decisão, tanto do ponto de vista financeiro quanto do das liberdades individuais.

Sem compromisso com a História

Curiosamente, na mesma semana em que a estratégia de divulgação de “Kung Fu panda 2″ era deslanchada – incluindo, além do game e dos tradicionais bonequinhos, o kungtofu, criado pela maior produtora de tofu nos EUA, que invadiu os supermercados americanos unindo a imagem de Po e seus parceiros de luta no Furious Five a um produto mais saudável do que hambúrgueres e cachorros-quentes -, as páginas de noticiário internacional dos principais jornais dos dois lados do Atlântico tratavam daquele que seria um dos maiores ataques de Pequim a artistas e dissidentes políticos no país.

Advogados, militantes de direitos humanos e artistas estão sendo presos desde fevereiro sob as mais variadas acusações. Um dos maiores nomes da arte contemporânea chinesa, Ai Weiwei, em cuja obra a crítica social é quase sempre o carro-chefe, também foi detido, acusado de evasão de capital e distribuição de pornografia. A reação à sua detenção mobilizou de artistas à Casa Branca, se concentrando na Inglaterra, onde sua mais recente exposição, na Tate Modern, fica em cartaz até 2 de maio.

Longos cabelos negros com fios grisalhos, óculos de aros brancos equilibrados na ponta do nariz, Jennifer Yuh sabe exatamente a natureza do filme que fez.

- O sucesso do primeiro “Kung Fu panda”, que considero uma pequena pérola, vem também de as pessoas quererem ser levadas para cenários diversos do que elas vivem. É uma possibilidade de escapar da realidade. E, no caso do panda, funciona como um transporte direto para a China Antiga. Não há uma preocupação histórica no sentido acadêmico, obviamente, em uma animação cujos personagens centrais são animais mestres de kung fu. O importante, para mim, é levar as pessoas para lugares nunca antes navegados, ao menos no cinema – diz.

Raciocínio exato para plateias ocidentais ou, quiçá, principalmente, chinesas. A narrativa e a qualidade técnica do segundo “Panda” são tão ou mais eficientes do que o original. Em seu retorno à tela grande, o urso Po inicia uma jornada que o levará a descobrir tanto suas origens quanto a história e os significados mais profundos do próprio kung fu. A civilização chinesa serve de belo pano de fundo para as estripulias do urso, cuja voz no Brasil será mais uma vez de Lúcio Mauro Filho, em um roteiro que tem a mão um pouco mais pesada nas cenas de ação. Até Jean-Claude Van Damme, fã do desenho, entrou no bonde para a China, como a voz de Master Croc, um dos guardiões da arte marcial.

- Quando as autoridades chinesas viram o “Panda”, elas perceberam que era um filme que mostrava uma China belíssima, rica, culturalmente relevante. Não tivemos qualquer problema com a censura. Pelo contrário, eles ajudaram em tudo o que precisamos na produção do segundo longa, que, eles acreditam, será o filme de maior bilheteria na China este ano – diz Katzenberg.

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