Eduardo Graça

Coluna

Coluna: Thurston Moore

A coluna desta semana, no Segundo Caderno d’O GLOBO:

Juízo Final

A falação na pista é intensa. A pergunta é a mesma: mas o Beck vai dar uma canja? As respostas variam. Há quem diga que sim, outros garantem que ele está em casa, do outro lado do país. Os cambistas faturam do lado de fora com a ansiedade dos incautos. E os antenados lembram que o importante é a banda, a cozinha do disco, marcar presença. Já me explico. É tarde da noite de sexta-feira no Brooklyn, e Thurston Moore vai apresentar pela primeira vez na cidade seu lindo, lindíssimo, “Demolished thoughts”, nas melhores lojas do ramo por aqui nesta terça. Moore, como se sabe, é o guitarrista do Sonic Youth, o padrinho do grunge, o marido de Kim Gordon. E, apesar de ter nascido na muy tropical Flórida, é uma das almas musicais de Nova York.

Não, Beck, o produtor do quarto solo de Moore, não apareceu. Mas ao lado do gigante macérrimo do Sonic Youth, ocuparam o palco, para felicidade geral da daydream nation, a harpa de Mary Lattimore (do grupo de folk psicodélico The Valerie Project), o violino de Samara Lubelski (dona de uma voz belíssima, que lembra a britânica Vashti Bunyan, idolatrada pela nova geração do folk americano), a bateria de Joey Waronker (constante parceiro do próprio Beck) e o baixo de Bram Inscore. Os mesmos músicos que toparam, no mais recente verão na zona norte do planeta, o desafio de Beck, de parir um disco notável de seu amigo mais velho. E foi mais do que suficiente.

Aos 52 anos, Moore é econômico no conversê, mas inicia os trabalhos perguntando se o público está ao menos curioso em relação às profecias sobre o fim do mundo, a se realizar na manhã seguinte. “Sei lá o que vai acontecer amanhã, mas aqui a energia vai ser muito boa na próxima hora”, garantiu. Se este foi o Juízo Final, passamos, nós, o público, imaculadamente, sem nem olhar para o purgatório.

Apesar de adorar “Goo”, o Sonic Youth da minha emoção faz parte da trilha sonora da primeira temporada em que vivi sob o mesmo teto que meu parceiro de mais de uma década, as sete canções do triste e belíssimo “Murray street”, lançado em 2002. Ali, Moore reverenciou a melodia pop dos sixities em “Empty page”, uma declaração de amor enviesada à Nova York machucada, apagada, passada, não por sua própria vontade, a limpo.

Ainda era um tempo em que apresentações gráficas de discos faziam algum sentido e Moore escolheu a dedo as de “Murray Street”: na contracapa, o edifício na esquina das ruas Murray e West Broadway em que funcionava o estúdio de gravação da banda, bem perto do que viria a ser conhecido como Ground Zero, curiosamente a poucos metros do escritório de design gráfico Number 17, onde meu companheiro trabalhava. Mas a capa é a reprodução de uma linda foto da filha de Moore e Gordon, Coco Hayley, colhendo morangos com sua amiguinha Stella, uma referência à faixa “Sympathy for the strawberry”. Ouvimos o disco sem parar, em nosso apartamento no Flamengo, no inverno carioca, distantes da outra cidade querida.

“Empty page” fala dos amigos exilados, em fuga desenfreada da cidade por conta do débâcle econômico e emocional gerado pelo ataque terrorista de setembro de 2001. Mas termina com reminiscências agridoces sobre uma “menina que quebrou a cabeça no espelho”, em seus primeiros anos na metrópole tão suja quanto fascinante.

Trinta anos depois da criação do Sonic Youth, Thruston Moore é o Lou Reed possível da Nova York pós-apocalíptica. Menos Television e cada vez mais Velvet Underground, o som retrô de sua nova banda agrada tanto os moleques de Williamsburg quanto os trintões, quarentões e cinquentões que dividiram democraticamente a pista da casa de espetáculos da rua Seis. Ele começa com “Mina loy” e “Blood never lies”, do novo disco, mas a coisa fica séria quando “Benediction” (o “single” de “Demolished thoughts”, em que Moore canta algo como “sou mais inteligente do que esta pessoa que deixa você partir”, uma promessa de amor à poderosa Gordon) e “Space” recebem a textura da harpa e do violino.

Sonic Youth unplugged, Moore decide terminar a noite com nova pérola melódica, “Orchard Street”, mais um título referente a outra rua querida do sul da ilha, faixa inspirada em um inferninho do Lower East Side. A ordem do show não é a mesma do disco. “Demolished thougths”, comparado por alguns críticos mais apressados com “Sea Change”, obra-prima de Beck, termina com “January”. Nas palavras de Moore, “uma canção de celebração do novo, que chega”. Exatamente. Saí do Music Hall of Williamsburg nas primeiras horas de um corajoso sábado, ignorante às profecias ingratas, sem nem sentir a falta que Beck sempre faz.

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