Eduardo Graça

Coluna

Uma Zanzada pelo L.E.S.

A coluna desta semana foi publicada hoje, no Segundo Caderno d’O GLOBO:

Uma zanzada pelo L.E.S.
EDUARDO GRAÇA, de Nova York

Exatamente como em 2010, a primavera passou batida em Nova York. Semana passada os termômetros não ultrapassavam os quatro graus e agora, como num passe de mágica, já é verão. Uma boa pedida para se aproveitar um espaço pouco explorado da cidade, especialmente durante os meses mais frios, é alugar uma bicicleta para visitar as galerias de arte às margens do East River.

Comece o seu dia na Traif Bike Gesheft (o nome significa algo como “loja de bicicletas não-kosher”, em iídiche), na South 6th, entre a Bedford e a Berry, ao lado da Ponte de Williamsburg e da estação de metrô da Marcy Avenue (linhas J, M e Z). Ali você consegue alugar bicicletas por até US$ 10/dia. Nos últimos quatro anos mais de 400 quilômetros de ciclovias foram adicionados à malha da cidade. Não por acaso, a primeira ciclovia dos EUA surgiu no Brooklyn, em 1894, e a Ponte de Williamsburg é a melhor, das que ligam os dois principais distritos da cidade, para se zanzar de Manhattan para o lado mais cool da cidade, e vice-versa, em duas rodas. Há uma faixa separada, com entrada entre as avenidas Driggs e Roebling, e se chega ao Lower East Side em 10 minutos.

Não, o L.E.S., como é conhecido pelos íntimos, não é o Chelsea. Ainda não. Mas me animei a percorrer as galerias do bairro depois de um belo texto de Karen Rosenberg no Times destrinchando os novos espaços que se agrupam nas cercanias do New Museum e seguem a linha Chelsea de ser, funcionando de terça a sábado, com uma pequena diferença: os animados openings aos domingos, concessão ao espírito boêmio do bairro imortalizado por Martin Scorsese em “As gangues de Nova York”.

Nesta terça-feira, minha aventura começou na Sperone Westwater. Localizada no primeiro andar de um prédio projetado por Norman Foster na Bowery, a galeria tem três andares divididos de forma pouco convencional, esparramados em meio a um luxuoso condomínio. A entrada conta com gigantescas portas de aço pintadas de preto e para se admirar um dos quadros de Malcolm Morley – presente com sua série sobre a aviação, “Rules of engagement” – é preciso entrar dentro de um elevador de carga. A imagem de aviões de guerra da Primeira Guerra Mundial pintados em uma seqüência que lembra desenhos sobre o Barão Vermelho dentro do elevador dão uma sensação de náusea, certamente desejada pelo artista.

O melhor da casa, no entanto, está no último andar, com as mirropieces do veterano Robert Barry. Subitamente, você vê seu reflexo nos espelhos espalhados para todos os lados, ao lado de palavras com grafias imensas, que se interpõem em sua face: possibilidade, acontecimento, continuidade. Ou, em espelho menos simpático: cuidado, distanciamento, explicações.

Ande uma quadra e você encontrará, ao lado do New Museum, o Salon 94 Bowery. Até pouco tempo mais um depósito especializado em produtos usados por restaurantes da cidade, o espaço de dois andares impressiona pelo cuidado, a elegância e as dimensões das salas de exibição. E conta com metade de uma das exposições mais interessantes de fotografia da cidade, a de Katy Granann, “The happy ever after”, com imagens de mulheres clicadas por Grannan nos últimos três anos nas ruas de Los Angeles e São Francisco. Preste atenção na dublê envelhecida de Marylin Monroe. Uma mescla de documentário e ficção, o trabalho se completa em um espaço vizinho, no Salon 94 Freemans, na alameda mais deliciosa da cidade.

Deliciosa porque, além da galeria em miniatura, ali se encontra um dos restaurantes mais gostosos da cidade, o Freemans, ao lado da Rua Rivington, entre o Bowery e a Chrystie. Ponto de encontro de artistas, famoso pelo cheesebuguer à piamontese. Mas a pausa para o lanche também pode ser um acontecimento se você atravessar a Houston e se internar no Prune, tecnicamente já no East Village. Por US$ 15 o veal paillard da chef Gabrielle Hamilton é a pedida certa. E, convenhamos, bem mais em conta do que os R$ 90 do filé ao metro do Lamas, no Flamengo. Nova York, definitivamente, está bem mais barata do que o Rio.

Muitíssimo bem alimentado, você pode continuar a procura por arte contemporânea de primeira no L.E.S. voltando para o sul da Houston e descendo a Chrystie até a Stanton. Ali fica a Lehmann Maupin, até junho com um presentão para os fãs de arte mais política: “Fall frum grace, miss Pipi’s blue tale”, a nova individual de Kara Walker, resultado de sua viagem pelo Delta do Mississippi. “Uma área imortalizada na cultura popular, mas que vive, mais do que nunca, uma depressão econômica sem tamanho”, conta, no catalogo. Os vídeos – especialmente o da tela principal, com o uso de marionetes para narrar o sofrimento dos negros na América dos anos da segregação racial – são pungentes e tocam fundo na consciência de quem vive a experiência pós-racial da Era Obama. Se ainda não é o espaço definitivo para a arte contemporânea na cidade, o L.E.S. disse a que veio nesta primavera.

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