Eduardo Graça

Cultura

Sob o martelo de Kenneth Branagh

Saiu hoje, no Rio Show, d’O GLOBO, meu comentário sobre “Thor”, principal estreia dos cinemas brasileiros neste finde, a partir da conversa com Kenneth Branagh em Londres.

Tá aqui:

Eduardo Graça, de Londres*

Sob o martelo de Kenneth Branagh

Ator Shakespeariano transforma o herói dos quadrinhos Thor, deus do trovão, num filme sobre os bastidores do poder

O poderoso Thor e “Otelo”, os quadrinhos da Marvel e a dramaturgia de Shakespeare, na mesma tela? Quando Kenneth Branagh foi escalado para dirigir a adaptação cinematográfica de um dos mais queridos heróis dos quadrinhos, fãs rezaram aos deuses vikings para que o britânico de Belfast, famoso por suas adaptações de obras-primas do Bardo para a tela, como “Henrique V” e “Hamlet”, não deixasse a ação de lado e caísse na tentação de fazer um filme-cabeça. É verdade que a Asgard (espécie de Olimpo da mitologia nórdica) do ex-marido de Emma Thompson tem deuses negros e asiáticos dividindo espaço com os caucasianos Odin de sir Anthony Hopkins, e Loki, do ótimo Tom Hiddleston. Mas, com a exceção desta liberdade criativa, imperou o respeito à criação quase cinquentenária de Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber.

- Nem tinha como ser diferente. Desde o início, queria fazer, pela primeira vez na vida, cinema-pipoca. Nunca havia feito nada nesta escala. E, nem se quisesse, poderia mudar o original. Havia um grupo de conselheiros da Marvel acompanhando meus passos, o que, no fim, foi ótimo. Para detalhes como a arquitetura de Asgard, contei com a expertise deles – conta o diretor, entre uma e outra porção de nozes e frutas secas, seu almoço no dia ensolarado de primavera reservado para entrevistas na capital inglesa.

Branagh é um fã das histórias do Deus do Trovão desde moleque. Num belo ensaio publicado na revista “Empire”, ele se recorda de quando comprou, pela primeira vez, o gibi de um super-herói diferente, “similar a Sansão ou Hércules, pois parecia ter sido feito de granito…”. Mais de três décadas depois, quando filmava na Suécia a série “Wallander”, da BBC, ele recebeu o convite da Marvel para levar “Thor”, para o cinema em 3-D. Aceitou sem pestanejar.

- Por conta deste fascínio pelo personagem, passei meses analisando gravações de atores, do mundo todo, interessados em encarnar Thor. Chris Hensworth fez uma primeira audição, mas estava gripado e as coisas não andaram bem. Eu não sabia direito que Thor queria mostrar no cinema. Quando afinal descobri, liguei para o Chris. A gripe tinha passado. Nós já tínhamos algumas acena do roteiro. Ele leu o texto, e tive a certeza: ali estava Thor, bruto, agressivo, romântico na medida certa! – diz Branagh.

Loiro, alto, olhos claros, musculoso, o australiano Chris Hemsworth parece mesmo destinado a empunhar Mjolnir, o famoso martelo do Deus do Trovão. Curiosamente, entre os competidores para o papel estava seu irmão mais velho, Luke. E o destaque do filme fica por conta dos dramas familiares celestiais e das boas atuações de Hemsworth e Hiddleston, perfeitos na luta pelo trono do idoso pai. Nenhuma surpresa: Branagh é festejado por seu trabalho na direção dos atores, mais do que na magia de efeitos especiais. Mesmo assim, é bom prestar atenção na assustadora e gélida apresentação de Jotunheim, o lugar onde vivem os perigosos gigantes, que guardam um segredo fundamental para o desenrolar da trama.

Neste primeiro “Thor” – os atores assinaram um contrato de seis filmes, incluindo aparições em outras franquias da Marvel, como “Os Vingadores” – Branagh investe nas tramoias (quase shakespearianas) da corte de Asgard, que culminam num confronto monumental em Bifrost, a Ponte de Arco-Íris, portal místico que liga a terra dos deuses ao planeta dos mortais. E, claro, deixam as portas escancaradas para uma seqüência.

Esta hipótese afã brilhar os olhos de Branagh, de 50 anos:

- Thor é uma investigação dos bastidores do poder, pelo viés dos arquétipos de uma mitologia riquíssima. O que é um líder de verdade? Como se dão as grandes sucessões políticas? Quando uma era termina e outra começa? Há tanto para contar… – diz ele, esfregando as mãos e transformando-se , ainda que por um momento, no garoto curioso da cinzenta Belfast, do fim dos anos 60.

* Eduardo Graça é colunista do GLOBO.

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