Eduardo Graça

Cultura

Show – Wanda Jackson & Jack White

O Segundo Caderno publicou hoje meu texto sobre o show histórico de Wanda Jack e Jack White aqui em Williamsburg. A foto do show foi cedida ao GLOBO por Roxxan Hanson.

‘Bad Boy’ do rock traz a rainha de volta

Eduardo Graça
Especial para O GLOBO * NOVA YORK

“Jack é um doce de pessoa, não tenho medo dele, não”, jura a miúda Wanda Jackson, jaqueta branca de franjas, calça de couro preta colada, logo após pedir gentilmente para o parceiro diminuir a velocidade de sua guitarra no palco do Music Hall of Williamsburg, no Brooklyn. Com seu 1,86m e em plena forma aos 35 anos, Jack White, o bad boy por trás dos White Stripes, produziu o retorno aos discos da rainha do rockabilly. E fez questão de excursionar com uma das lendas vivas da música americana, em turnê que começou no sábado. Aos 73 anos, e há seis invernos sem entrar em estúdio, dona Wanda sabe que a garotada está ali para ver White. Mas, depois da entrada de uma banda envenenada – com trio de sopros, órgão, baixo acústico, cantores de apoio, bateria e guitarras de White e de sua mulher, Karen Elson -, a cantora desce vagarosamente a escadaria instalada entre o camarim e o palco, encara o público e grita com toda força, a voz fina, o sotaque de Oklahoma:

- Vocês estão prontos para o rock? Porque já estou começando a sacudir o esqueleto!

O jogo estava ganho ao fim do primeiro petardo, “Riot in cell block 9″, um rock clássico à la Johnny Cash, com Jackson cantando que “estava dormindo na cela de uma penitenciária na Califórnia, no verão de 53, quando a confusão começou”. A reação não poderia ser mais barulhenta. Os gritos da platéia transportam o clube diretamente para os anos 50. O estilo retrô-rock aparece nos vestidos de bolinhas com cintura marcada tomara que caia das meninas, nos rabos de cavalo remexendo para lá e para cá e nas camisas xadrezes e jaquetas de couro dos galalaus. E, como não poderia de ser, no dedilhado de Jack.

- Já aconteceu muita coisa legal na minha vida. Uma das maiores emoções foi dividir o palco com Little Richard enquanto Tina Turner fazia os vocais de apoio. Não é pouca coisa! Mas quando iria imaginar que a esta altura do campeonato dividiria o palco com o grande Jack White? – diz Wanda, pouco antes de usar uma cola para terminar de cantar “Busted”, presente no novo disco. – Uma vez vi Elvis fazer isso num show em Las Vegas. Se o rei pode, a rainha, pelo menos uma vez, tem o mesmo direito, né?

Jackson foi mesmo a rainha do rock no fim dos anos 50. Namorou Elvis, tornou-se a primeira dama do rockabilly e foi pioneira ao empunhar sua guitarra nos palcos antes de as mulheres receberem permissão para ir além do vocal. A partir da segunda metade dos anos 60, ela migrou para o country e o gospel, duas paixões de White, que vive em Nashville, templo da música de raiz branca dos EUA.

No entanto, “The party ain’t over”, o novo disco de Jackson, é uma viagem completamente diversa da que Jack White fez em 2004 com outra diva, a princesa do country Loretta Lynn. “Van lear rose” foi um sensacional mix de country e indie rock. Mas é um disco de Lynn. Para sua querida dona Wanda, além de selecionar um repertório de clássicos como “Nervous breakdown”, “Busted” e “Rip it up”, a parcela masculina dos White Stripes apresentou à cantora coisas como “You know I’m no good”, composta por Amy Winehouse, e “Thunder on the mountain”, sugerida pelo certo compositor, um certo Bob Dylan, para a seleção feita pelo amigo White. Aqui são as escolhas, a guitarra e a direção musical dele – entre o rock dos anos 50 e o blues – que fazem a diferença. É um disco com duas assinaturas.

Não foi diferente no show.

- Vocês estão gostando? Então, quando Wanda voltar, gritem bem alto! – pede White, em um número instrumental.

Uma hora e meia de ‘hi-fi’

Aos gritos de “Wan-da! Wan-da! Wan-da!”, ela volta para cantar seu maior hit, “Let’s have a party!”, de 1958, ao lado de White. É o único momento em que se ouve a voz do astro pop, cantando “algumas pessoas gostam de rock, outras de roll”, enquanto Jackson capricha no agudo em um “uuuuuuuuuu” de fazer qualquer leigo se ajoelhar em êxtase.

- Agora sei. Isso, sim, é rock’n'roll – dizia Marcus Blank, 22 anos, quase se jogando do parapeito do segundo andar, se quebrando no ritmo de “Mean, mean, mean”, outro clássico, de 1960, em que Jackson diz: “Eu adoro um homem mau!”, para, ao fim, receber um “Eu te amo!” de uma garota no gargarejo e, marotamente, soltar um “querida, preciso conversar com meu marido sobre nós”.

A ex-namoradinha de Elvis, cabeleira negra jogada para cima em estilo bolo de aniversário, o remexer dos quadris, abaixando o corpo até perto do solo, a capacidade vocal intacta, bisando com exatidão o quase-soluço de “Fujiyama Mama”, de 1960, não perde a pose. E ensina a cartilha do rock com garbo em uma hora e meia do mais puro “hi-fi” no coração nervoso do Brooklyn.

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