Eduardo Graça

Coluna

Patti & Cher

A coluna da semana, no Segundo Caderno, do GLOBO, foi sobre duas sessentonas que envelhecem, cada qual a seu modo, nos palcos da zona norte do mundo:

‘Will you still need me when I’m sixty-four?’
EDUARDO GRAÇA, de Nova York

Patricia Lee Smith nasceu em Chicago em uma noite gélida nos últimos dias de 1946. Cherilyn Sarkasian La Pierre veio ao mundo sete meses antes, em El Centro, na Califórnia, no calor do deserto. As duas completaram 64 anos nos palcos em 2010 e, nos dois casos, a agridoce questão proposta no clássico de Sir Paul McCartney foi respondida com um sonoro yeah. Patti foi a anfitriã de uma das festas de ano novo mais disputadas de Manhattan, uma tradição iniciada quando a madrinha do punk era uma menina de 52 anos. Cher encerra em fevereiro uma maratona de 200 espetáculos no Caesar Palace de Las Vegas e voltou a Hollywood, protagonizando “Burlesque”, que estreia nos cinemas brasileiros antes do Carnaval.

Diferentes em quase tudo, elas envelhecem em público, observadas com especial atenç˜åo por milhares de baby boomers,, a geração nascida entre 1945 e 1964. Quem está enfrentando melhor o fantasma da terceira idade? Patti surge no Bowery Ballroom vestida com uma jaqueta preta, camiseta branca e calça jeans, cabelos castanhos longuíssimos jogados para trás. Compacta. Cher invade o palco do cassino montada em uma espécie de altar móvel, todo trabalhado no dourado, que passeia longamente por cima da audiência boquiaberta. Cabelos isos partidos ao meio, pernas de fora. Curvilínea.

O fundo do palco de Patti é negro, simples. O de Cher é gigantesco, com profundidade suficiente para receber um telão de alta definição, recheado com imagens do passado, da jovem cantando “I got you babe” com seu então parceiro Sonny Bono. Cher foi hippie antes dos hippies. Patti é a punk ilustrada. Seu passado foi revisto este ano no belíssimo “Só garotos”, memórias da juventude passadas nas ruas de Nova York, ao lado do parceiro e genial fotógrafo Robert Mapplethorpe. Recebu o National Book Award.

Patti escreve como canta: direta, rascante, gutural, emoção à flor da pele. Um dos melhores momentos da confraternização da virada do ano foi quando a poeta leu a carta escrtita ao amigo que iniciara a batalha contra o vírus do HIV. Batalha que perderia em 1989. “Jamais esqueça que, das muitas lindas obras que você completou, a mais bela de todas é você mesmo”. O passado, para Patti, é um armazém repleto de guloseimas de onde ela retira o sumo do que oferece a seus leitores, ouvintes, parceiros de festa. Parceiros como Michael Stipe, a mente criadora do R.E.M., que dançava feliz no terceiro andar da casa de shows do Lower East Side depois de distribuir no palco o figurino da noite: chapéus temáticos de 2011, daqueles vendidos a US$ 2 nas ruas da cidade.

Cher troca de figurino 13 vezes. Divide o palco com 18 dançarinos e chega a entrar dentro de um armário gigantesco instalado no palco. Seu espetáculo é um caleidoscópio de luzes e não se sabe bem ao certo em que momentos ela canta de fato, ou quando usa o lip-synch. Ela já fez plásticas no nariz, boca e seios. Ela quer seu passado presente nas imagens, nas narrativas, no seu reflexo no espelho.

Patti trabalhou como operária na Pensilvânia para juntar grana e morar em Manhattan. Cher deixou para trás uma mãe instável para viver primeiro com Warren Beatty e depois com Sonny, mentores e facilitadores de sua vida artística em Hollywood. Patti canta a beleza das inconstâncias da juventude em sua mais nova música, “Just kids”, olhando para o começo como um período iluminado que a vem guiando na vida dedicada à arte. Cher canta novos velhos hits como “I still haven’t found (what I’m looking fir)”, olha para trás com alguma amargura (a briga com Sonny, que a deixou economicamente depauperada nos anos 70, a modificação do sexo da filha Chastity, que agora se chama Chaz Bono) enquanto finca o pé no presente.

Patti vive no East Village, boêmio, apertado e sujo. Cher se esparrama em sua mansão de Malibu, com vista panorâmica para o Pacífico. Patti prega a Revolução no palco, a necessidade de os americanos combaterem os racistas, os xenófobos, os homofóbicos. Cher ee a rainha das minorias, é uma parada gay sozinha no palco do velho cassino de Nevada. Faz piada com Sarah Palin, paquera os garotões em busca de diversão na “Sin City”, fala com desdém do tamanho do seu derrière.

No espetáculo de Cher, a estrela é ela. O público é convidado a admirar a boa forma física e mental da performer. No de Patti, a protagonista é a plateia. A profeta oferece as palavras, mas a comunhão se dá mesmo na pista. Estranhos dão-se as mãos, olhares cúmplices juram que “a noite é dos amantes, a noite é nossa”, lutam para gritar mais alto “G-L-O-R-I-A”. Em Vegas, a orquestra preununcia tanto os momentos disco quanto os mais meigos, comandados pela maestrina andrógina.

Patti canta “Strawberry fields forever”. Cher cantou “Two of us” como ninguém. Patti tem rugas acima das sobrancelhas. As expressões no rosto de Cher são mínimas. Patti lembra uma das Fúrias. Cher ainda é uma senhora atriz. Patti entrou para o Rock and Roll Hall of Fame há quatro anos. Cher se diz esnobada pela academia da música popular americana. Não importa. As duas sessentonas, cada qual a seu modo, ainda fazem, ruidosamente, o carnaval. E dão uma bela banana para a tal da velhice.

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