Eduardo Graça

Cultura

O novo Paul Auster: “Sunset Park”

O Cheiro da Derrota
Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

LITERATURA: Paul Auster cerca-se de um elenco de egos em frustração absoluta, como também parecem sentir-se alguns críticos de seu novo livro

O vulto que se move rapidamente parece ainda mais alto com o elevar incessante do pescoço. O escritor aguarda o momento de encarar seu público observando atentamente o teto da livraria. Os óculos balançam, nervosos, na mão esquerda. Paul Auster é a quintessência do escritor nova-iorquino. Do Brooklyn, ele corrigiria. Seu visual pós-recessão – sapatos escuros, calça jeans negra, suéter cinza-escuro – funciona como um prólogo andante para o lançamento de seu mais recente livro, “Sunset Park”, nome de um bairro ao sul de Park Slope, onde o autor vive com a mulher, a também escritora Siri Hustedt, com quem tem uma filha, a atriz Sophie, de 23 anos. O sucessor de “Invisível” será lançado no Brasil em agosto, pela Companhia das Letras.

“Os personagens de ‘Sunset Park’ vivem em um mundo habitado por pessoas que perderam suas casas durante a bolha imobiliária, famílias
desesperadas, imóveis vazios, ocupados por fantasmas. Um dos poucos ramos de trabalho no país que parecem estar em expansão é o chamado ‘trashing out’, ou seja, a limpeza das casas e apartamentos abandonados pelos moradores que foram sendo despejados”, conta Auster em rápida introdução para uma plateia de pouco mais de 300 pessoas. O autor da “Trilogia de Nova York” teve a ideia de escrever seu novo romance nas longas caminhadas que faz diariamente, contornando o cemitério de Greenwood em direção ao bairro que deu titulo ao livro, cada vez mais ocupado por imigrantes mexicanos. Além das cantinas que servem a preços módicos boa comida chicana, a área é famosa pelo parque, situado em uma das principais elevações do Brooklyn, de onde se vê com clareza toda a parte setentrional da ilha de Manhattan.

O protagonista é Miles Heller, um jovem de 28 anos, exilado da família nova-iorquina depois de um trágico acidente na adolescência, que vive do “trashing out” na Flórida, um dos estados mais afetados pela crise financeira. Quando a irmã de Pilar, sua namorada com tiques de Lolita, ameaça denunciá-lo por ter dormido com uma menor de idade, ele decide aceitar a oferta do melhor amigo e retorna a Nova York. Passa a ocupar ilegalmente, com outros três jovens, uma casa decrépita em Sunset Park. Pretende ficar ali até que Pilar ganhe a maioridade. A casa, que existe realmente, foi fotografada na mente de Auster em suas caminhadas rumo ao sul, na industrial Quarta Avenida do Brooklyn.

Na casa vivem seu amigo Bing, dedicado ao negócio de consertar lixo eletrônico alheio; a estudante Alice, que precisa terminar um texto sobre a vida nos Estados Unidos pós-guerra, a partir do clássico “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, de William Wyler, vencedor do Oscar de 1947; e Ellen, que trabalha, ironicamente, em uma agência imobiliária, enquanto sonha retomar a carreira de pintora.
Voz cadenciada e firme, Auster pinça os trechos que, acredita, exemplificam mais a atmosfera do livro, para dividir com os leitores presentes ao lançamento. “O cheiro de dentro da casa, de comida estragada, horrível, ácido, é o que marca mais. É o cheiro da derrota. Há também os objetos deixados para trás, os livros, as meias sujas, as raquetes de tênis, os brinquedos de plástico, um canário morto”, quase recita, o olhar fixo nos bem-arrumados fãs presentes no último andar da livraria da Union Square, tentados a viajar para um mundo tão próximo quanto doloroso: apesar da diminuição de 15% em relação ao mesmo período do ano passado, mais 10.500 famílias de Nova York tiveram de abandonar suas casas entre julho e setembro de 2010 por não conseguirem pagar as hipotecas.

Ninguém parece muito feliz – ou funcional – em “Sunset Park”. Como era de esperar, Miles se reencontra, em Nova York, com a família. Seu pai, Morris, dono de uma editora independente, sofre com a recessão. A mãe, Mary-Lee, quer manter a carreira de atriz, e o distanciamento do mundo real. Tantos egos fora do lugar não conquistaram a crítica americana. No “Washington Post”, Rodney Welch escreveu que “Sunset Park” parece ser uma tentativa desnecessária de busca de relevância por Auster, “um esforço de engajamento no mundo pós-recessão, pós-literário, da cultura dos desabrigados”, que conseguiria dividir com o leitor o humor da nação em tempos de crise, mas acaba sendo apenas uma série de capítulos, sem coesão. No “New York Times”, a escritora Malena Watrous se surpreendeu com um “amontoado de pronunciamentos que deixam pouco espaço para ambiguidades ou para descobertas feitas pelos próprios leitores das vozes [os personagens] que vão surgindo no livro”.

O narrador onisciente – condição que a voz de Auster preenchendo a casa do Village somente reforça – acaba dando a “Sunset Park” o epíteto de obra aparentemente mais linear, menos sofisticada, do autor do Brooklyn. Curiosamente, foi um crítico de cinema, Jan Stuart, no “Bloston Globe”, quem apontou ser este, também, o menos frio dos livros de ficção de Auster. Para ele, “Sunset Park” é um desvio do pós-modernismo característico do autor, um esforço de narrativa permeada por perdas, derrotas, morte. “Auster foi sempre saudado como o frio príncipe do pós-moderno. ‘Sunset Park’ emprestou-lhe um muito bem-vindo coração. Aqui, Auster parece carregar toda a humanidade dentro de si.”

Se lesse as críticas – “Ou me deprimiriam ou me inflariam o ego de forma desnecessária”, já disse – o escritor de 63 anos talvez achasse graça em tanta discussão. No lançamento do livro, aliás, ele seguiu à risca a receita de um dos personagens de “Sunset Park”: “Um escritor jamais deve dar entrevista a jornalistas. Esta é uma forma literária sem base, cujo único propósito é simplificar aquilo que jamais deve ser resumido”.

Em uma das poucas entrevistas dadas recentemente por aquele que é considerado por muitos o mais importante autor nova-iorquino contemporâneo – seu amigo Jonathan Franzen, o celebrado autor de “Freedom”, eleito um dos cinco melhores livros de ficção do ano pelo “New York Times”, que foi parar na capa da “Time” este ano, acaba de se mudar do Brooklyn para a Califórnia – Auster argumentou que todos os seus livros são sobre o mundo real. Ao “Sunday Telegraph” britânico, lembrou que “não escreve fantasias escapistas” e dá uma pista importante para os interessados em descobrir os segredos do escriba das “brownstones” do Brooklyn: “O que luto para encontrar, em cada sentença por mim criada, é lucidez”.

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