Eduardo Graça

Cultura

Incontrolável

Hoje o Segundo Caderno do Globo publicou meu texto sobre o filme Incontrolável, que estréia na próxima sexta nos cinemas brasileiros. Tony Scott não é meu diretor favorito mas o filme é dos melhores da recente – e desigual – lavra do diretor de Top Gun. Por aqui, a crítica foi, em geral, positiva. Segue o texto:

A Situação-milite de Denzel Washington
Eduardo Graça, de Los Angeles, Especial para O GLOBO

Em “incontrolável”, nova parceria com o diretor Tony Scott que estreia no Rio, ator enfrenta trem desgovernado

Gene Hackman, em uma conversa de pé de ouvido, convenceu o diretor Tony Scott, há exatos 16 anos, de que Denzel Washington era a aposta certeira para encabeçar, a seu lado, o elenco de “Maré Vermelha”. O resultado foi um campeão de bilheteria, com três indicações ao Oscar e o início de uma parceria que renderia outros cinco filmes: “Chamas da Vingança”, “Déjà Vu”, “O Seqüestro do Metrô 123″ e “Incontrolável”. Este último chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira.

- Sempre tenho Denzel em mente, juro que não é preguiça. Tento encontrar alguém diferente, mas acabo sempre convidando o Denzel, pois amo sua capacidade de internalizar seus medos e pensamentos, ao mesmo tempo em que se comunica com o público com maestria – conta o irmão de Sir Ridley Scott, quase pedindo desculpas ao repórter pela decisão de escalar mais uma vez como protagonista o ator que fez Julia Roberts dar pulinhos de felicidade durante a entrega de um de seus dois Oscars.

Filme baseia-se em história real

Em “Incontrolável”, baseado em uma história real, Washington é Frank, um engenheiro veterano da rede ferroviária que se vê numa situação-limite: é a última esperança de salvação de uma cidade operária no estado da Pensilvânia, ameaçada por um trem descarrilhado, carregado de substâncias tóxicas. Para aumentar a tensão, ele conta apenas com a ajuda de um jovem e inexperiente condutor, recém-contratado por conta de um belo pistolão. No papel do parceiro, Scott investiu em uma das novas apostas de galã em Hollywood: Chris Pine, o capitão Kirk da ótima versão de “Jornada nas Estrelas”, revitalizada no ano passado por J.J. Abrams, o homem responsável pela série “Lost”.

- “Incontrolável” é, de certo modo, o tempo passando para mim. Mal comparando, agora Denzel faz o papel do Gene em “Maré Vermelha”, e Chris é o Denzel daquela época. Curiosamente, foi o Denzel quem me convenceu a escalar o Chris – conta Scott, entre uma e outra conferida no azul do Pacífico que teima em desviar sua atenção do outro lado da janela do hotel de Santa Mônica em um típico dia de outono no sul da Califórnia.

O diretor de “Top Gun – Ases Indomáveis” pensou inicialmente, para viver o condutor Will, em um ator com um visual mais identificado com o típico trabalhador do chamado Rust Belt, formado por estados das regiões do Meio Oeste e do Meio-Atlântico dos Estados Unidos, como Ohio, e Pensilvânia, marcados pela imigração europeia e duramente afetados pelo processo de desindustrialização da economia americana. Nada mais distante do visual californiano de Chris Pine, com seu rosto de menino, olhos azuis, nariz de modelo e um sorriso que leva à loucura suas fãs, conhecidas por aqui como pinenuts (numa brincadeira com a palavra que significa, literalmente, uma noz saborosa, o pinhão, e a gíria nuts, resultando em algo como ‘loucas por Pine’).

- Foi Denzel quem me disse: “Tony, Cris e eu daríamos uma dupla e tanto!”. E lembrei que havia conhecido, durante o processo de pesquisa, um menino muito bonito, exatamente como Chris, empregado em tempos de recessão por conta do nepotismo. E decidi que deveríamos escrever o papel especificamente para ele – conta Scott.

Denzel Washington aponta esta como a segunda decisão mais importante de Tony Scott no processo de filmagem de “Incontrolável”.

- A primeira foi a de filmar no Rust Belt, onde a recessão foi mais sentida. Você não consegue reproduzir o mesmo em um set de filmagem. Tenho 56 anos, e nunca vi esta parte do país em Hollywood – atesta.

Scott decidiu que a história real de um trem em movimento possivelmente causando o maior desastre ferroviário da história dos EUA não poderia ser recriada em estúdio.

- Também não quis construir um mundo digital. A história é grandiosa justamente porque é real e aconteceu há nove anos no coração geográfico do país. Filmei com três câmeras, uma no trem desgovernado e duas em terra firme. E deixei o que acontecia, em pleno movimento, guiar-me, quadro a quadro. Não trabalhei muito com cortes, queria registrar a espontaneidade da ação que recriávamos – conta.

Em “Incontrolável”, a velocidade insana é capturada pela câmera do diretor, que parece decidido a acompanhar o ritmo do trem desgovernado.

- No entanto, você vê o filme e pensa imediatamente na adrenalina, mas determinadas cenas, como a sequência da explosão, demoraram mais de uma semana para serem filmadas. Eu até hoje fico impressionado!, diz Chris Pine.

O ator, figura carimbada no teatro nas duas costas americanas, ainda é um rosto pouco conhecido do grande público, com quem iniciou um namoro em “Jornada nas Estrelas”.

- “Incontrolável” não é apenas um filme de ação passado num trem. O trem, aqui, é somente mais prático do que uma nave espacial. Tony, com seu poder visual, faz com que este meio de transporte pareça perigoso, ameaçador, insano. Aí está o gênio dele – diz.

A relação entre os dois protagonistas oferece ao espectador um diálogo entre a velha e a nova América, economicamente mais vulnerável, nem sempre feliz na busca do equilíbrio entre a experiência e a inovação.

- “Incontrolável” é um comentário social sobre o estado do mundo ocidental contemporâneo. O Frank de Denzel é um reflexo do que acontece hoje um dia com toda uma geração forçada a se aposentar, já que é mais barato contratar gente mais nova, sem pagar os mesmos benefícios” – diz o diretor de 66 anos, que já discutira o tema em seu filme anterior, uma refilmagem de um clássico dos anos 70, com Washington encarnando um experiente funcionário do sistema de transportes urbanos de Nova York envolto em um estranhíssimo seqüestro de um vagão do metrô.

– As pessoas me perguntam por que eu fiz “O Seqüestro do Metrô 123″ e agora “Incontrolável”. A resposta é simples: é o Tony, sempre o Tony. Ele me ligou dizendo que tinha uma nova ideia, mostrou-me a pesquisa, a cobertura jornalística da época e, quando vi, já estávamos filmando – conta Wasington.

Separadamente, tanto o vencedor do Oscar por “Tempo de Glória” e “Dia de Treinamento” quanto Pine falam de Scott como um “general”, que filma “como se estivesse indo a uma batalha, comandando seus soldados”. Os dois lembram que os dias no set de filmagem começavam invariavelmente às 6h, mas que Scott acordava às 3h, tomava suas doses cavalares de café expresso, fazia seus exercícios e arquitetava, minuciosamente, à mão, todo o story-board das cenas a serem filmadas no dia.

- Quando fiz “Fome de Viver”, meu primeiro filme, que hoje considero um tanto quanto esotérico, acreditava que meu destino era o de ser um artista plástico. Em “Top Gun”, por exemplo, o que eu queria mesmo era fazer uma espécie de “Apocalipse Now” no ar. Mas ninguém deixou!” – conta Scott.

Ainda bem. Ao menos é o que pensa Pine, cuja obsessão por Tom Cruise o levou a colecionar livros e modelos dos aviões utilizados no filme.

- Vi o filme e decidi que seria um piloto de caças. Cheguei a tentar a carreira militar, mas não passei no exame de vista. Acabei seguindo a profissão de meu pai (o ator Robert Pine, o comissário Getraer, da série televisiva Chips – conta.

Durante as filmagens de “Incontrolável”, para descontrair o ambiente, Pine fazia Washington e Scott rirem com sua capacidade de relembrar diálogos inteiros de “Top Gun”. Chegou a apelidar o diretor de Maverick, o nome do personagem de Cruise. Uma brincadeira que pode iniciar uma nova parceria em Hollywood.

- Se de fato acontecer, o Chris está pronto para “Top Gun 2″. Ele é inteligente, dedicado, um ótimo ator e tem aquela pitada sexy fundamental para o papel – diz Scott, dando uma enigmática piscadela antes de desaparecer pelos corredores do hotel.

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