Eduardo Graça

Cultura

Frank Sinatra: A Voz

O caderno de Cultura do Valor trouxe neste fim de semana meu texto sobre Frank Sinatra, a partir da nova biografia, considerada definitiva pela crítica, escrita pelo queridíssimo James Kaplan. Um abuso seus livros jamais terem sido lançados no Brasil.

Segue o texto:

Música: Com mais de 700 páginas, e inacabada, nova biografia de Frank Sinatra fala do que é mais importante: a genialidade do cantor.

The Voice”, uma vida
Por Eduardo Graça | Para o Valor, de Nova York

O mais controverso perfil da história da imprensa americana foi publicado na “Esquire” em 1966. “Frank Sinatra está gripado” tratava dos 50 anos do maior intérprete da história da música popular do planeta, com uma peculiaridade: o autor jamais conseguiu entrevistar o personagem objeto de seu interesse. O texto primoroso, de Gay Talese, um dos marcos do chamado novo jornalismo, é referência imediata quando se pensa em “Frank: the Voice”, primeiro volume da monumental tarefa iniciada há cinco anos pelo jornalista James Kaplan: escrever a biografia definitiva de Frank Sinatra. Com 718 páginas, “Frank”, como o perfil de Talese, carece de um entrevistado crucial: o próprio Sinatra, morto em 1998 depois de um ataque cardíaco, aos 82 anos. “Não poder entrevistá-lo acabou não sendo danoso para o livro. Ele era famoso por ser um entrevistado difícil, sempre preocupado em não dividir com o público detalhes de sua vida privada. Não sei se conversas com ele acabariam por ofuscar, mais do que esclarecer determinados tópicos”, disse Kaplan, em entrevista ao Valor.

Um dos textos mais saborosos das revistas americanas, publicado com frequência na “New Yorker”, na revista do “New York Times” e na “Vanity Fair”, Kaplan já escreveu dois romances (o mais recente, “Two Guys from Verona”, está sendo adaptado para o cinema por Jeremy Garelick, roteirista de “Separados pelo Casamento” e “Se Beber, Não Case”), a história do aeroporto internacional de Nova York, o JFK, e as biografias de John McEnroe e Jerry Lewis, cerzidas com a ajuda dos biografados. Esta última, “Dean & Me”, publicada em 2005, está na origem da empreitada Sinatra, que só deve terminar em 2014, quando Kaplan entregar à Doubleday o segundo tomo da biografia, “Sinatra: The Chairman of the Board”, com detalhes do encontro da “Voz” com Tom Jobim e do mitológico show no estádio do Maracanã, em janeiro de 1980, para 175 mil fãs, o maior público de sua carreira.

Em setembro de 2004, Kaplan se viu em um evento beneficente, promovido por Jerry Lewis, em que todos os convidados contavam histórias e falavam com admiração do Old Man, alcunha dada a Sinatra pelos íntimos. O modo respeitoso como gente do calibre de Jack Eglash, Jack Jones e o pianista e um dos últimos maestros e arranjadores de Sinatra, Vincent Falcone, falava de Sinatra, tocou Kaplan. Em determinado momento, Falcone lembrou como fracassou ao tentar convencer o cantor a gravar “Lush Life”, o clássico de Billy Strayhorn e Duke Ellington, dos mais difíceis da música popular americana. Falcone disse a Kaplan que até Deus tinha seus limites. “Ali aparecia uma visão de homem e de artista, sem as armadilhas da celebridade, sem um traço do homem celebrado por ser malcomportado e que seguia vivo nas histórias repetidas e celebradas por seus colegas”, relembra Kaplan.

Um dos mais entusiasmados com o projeto foi o próprio Lewis. O comediante foi um dos muitos entrevistados que deram forma a “Frank”. “Ele não me deu a ideia, mas ajudou a plantar a semente. Frank e Jerry eram grandes amigos. Em 1946, quando Jerry e Dean Martin se apresentaram pela primeira vez no Copacabana, em Nova York, foi Sinatra quem os apresentou ao público. Previu que eles se tornariam estrelas. Sinatra os viu, riu muito com os dois, e decidiu apadrinhá-los. Era também fã do Dean Martin cantor. Vinte anos depois de os dois se separarem de forma brusca, foi Sinatra quem os reaproximou. Foi ele quem bolou a visita-surpresa de Dean Martin a Jerry Lewis, em 1976. Foi um momento especialíssimo na vida dos dois, que voltaram a ser grandes amigos. Sinatra ficou felicíssimo.”

Inicialmente, o contrato com a Doubleday previa apenas um livro sobre a vida de Sinatra, com 352 páginas. Kaplan passou três anos pesquisando o começo da vida do cantor, seus dias de infância em Hoboken, do outro lado do rio Hudson, a relação intensa com a mãe, uma italiana pró-aborto, enfronhada na politicalha local, a dificuldade em se enturmar, a adolescência passada durante a Grande Depressão, o início da carreira no auge da era do swing, o fenômeno pop que somente seria bisado por Elvis Presley e os Beatles, o casamento, ainda jovem, com a vizinha Nancy Barbato (mãe de Nancy Sinatra, Frank Jr. e Christina), a vida de luxo na Califórnia, a polêmica em torno de sua dispensa do serviço militar em plena Segunda Guerra Mundial, a decadência no pós-guerra, a paixão por Ava Gardner e a impressionante reinvenção do mito em Hollywood com o Oscar por “A Um Passo da Eternidade”. E ele estava apenas em 1953. “Percebi que era uma trajetória de vida riquíssima, com uma carreira de mais de 60 anos. Sinatra tocou todos os aspectos da vida americana no século XX. Ao mesmo tempo, percebi que não se sabia muito sobre os primeiros anos da vida dele, o momento de sua ascensão. Pronto, tinha de escrever dois tomos, cada um com pelo menos 700 páginas.”

Stephen Holden, crítico de música do “New York Times”, diz que “Frank” presta aos fãs de música popular um imenso favor ao “nos lembrar que, dos primeiros dias ao lado da banda de Tommy Dorsey até o final de seus anos na Columbia, em 1951, Sinatra foi um fenômeno vocal incandescente e singular”. Por causa do advento do LP justamente naquele ano, é comum afirmar que o mais sublime da produção de Sinatra está nos LPs clássicos da Capitol, notadamente “Songs for Young Lovers!” (1954), “In the Wee Small Hours” (1955), “Songs for Swingin’ Lovers!” (1956), “A Swingin’ Affair” (1957), “Where Are You?” (1957), “Only the Lonely” (1958), “Come Fly With Me” (1958), “Come Dance With Me” (1959) e “Nice ‘n’ Easy” (1960), uma sequência impressionante de álbuns perfeitos, registros do encontro de Sinatra com aquele que talvez tenha sido o maior arranjador da música popular americana, Nelson Riddle. “As gravações da Columbia nos anos 1940, ainda que espaçadas, são sensacionais. As baladas dessa época também são fabulosas. Depois dos anos na Capitol, Sinatra ainda produziu obras-primas, incluindo os dois discos que fez com Tom Jobim.”

Kaplan também revela a profunda admiração de Sinatra por Billie Holiday, sua reação ao vê-la pela primeira vez no Famous Door, com o pianista Teddy Wilson. Ela tinha 20 anos e o menino magricela de Hoboken, apenas oito meses menos do que aquela mulher que parecia de outro planeta, desejou, garante o jornalista, “poder cantar como ela”. Ele passou a ir a todos os shows da sofrida rainha do jazz, nos clubes da rua 57, tentando absorver algo sem paralelo: ninguém revelava o poder das composições como Billie, sentimento puro. “Ele ajudou muito Billie nos últimos dias, foi extremamente generoso, inclusive financeiramente, pagando contas de hospital. Ele a admirava intensamente. E a colocava em um panteão que incluía pouquíssimas pessoas, entre as quais, Ella Fitzgerald, Tony Bennett e Joe Williams”.

Estas são apenas algumas das grandes sacadas de Kaplan. O autor reconhece que um de seus maiores desafios foi enfrentar o fato de que muito já se escreveu sobre Sinatra. A primeira biografia do “Ol’Blue Eyes” foi publicada em 1947 por E.J. Kahn Jr. Sinatra tinha apenas 32 anos. “Li todos os livros e confesso que me surpreendi pela ênfase quase sempre na máfia, nas mulheres, nas fofocas. E pouco em relação à música. Talvez minha biografia seja menos sexy, mas tem o mérito de focar no gênio musical e na capacidade vocal do grande cantor”, diz Kaplan. A família de Sinatra não participou do projeto (Nancy Barbato segue bem de saúde aos 93 anos), mas o autor celebrou o fato de que Nancy, a filha mais famosa de Sinatra, tem seu livro no escritório.

Um dos fatores que levou os Sinatra a jamais participarem de qualquer projeto biográfico em torno do pai foi o divórcio sofrido e as muitas traições públicas amargadas por Nancy Barbato. “Não há como negar que o grande amor da vida de Sinatra foi Ava Gardner. E isso até os últimos dias da vida dela, em 1990, época em que ele também a ajudou financeiramente. Eram dois seres explosivos, que se amavam intensamente, mas eram muito parecidos, com temperamento difícil, bebiam muito, adoravam sexo, detestavam dormir e não se complementavam. Brigavam e faziam amor o tempo todo. Anos depois de separados, Sinatra sentia a dor de saber impossível uma reconciliação amorosa. Riddle conta que quem ensinou Sinatra a cantar com dor foi justamente Ava. A vulnerabilidade que ele destila nos anos da Capitol vem dessa solidão, da dor da perda do grande amor.”

Ava é a personagem-central na parte final de “Frank”, por ser fundamental na reinvenção do cantor em “A um Passo da Eternidade”. Foi ela quem convenceu Sinatra de que ele poderia atuar, não era apenas uma “figura de musical”, e que Angelo Maggio era um personagem perfeito para sua nova comunhão com o público americano. “Seus cinco anos na MGM, ao lado de Gene Kelly, pareciam mostrar que ele não levava a sério o ofício de atuar. Foi Ava quem bateu na porta de Harry Kohn, o todo-poderoso da Columbia Pictures, e ofereceu fazer três filmes por praticamente dinheiro nenhum, desde que ele desse a Sinatra a oportunidade de um teste, para encarnar Maggio. E o romance dos dois estava no fim. Mas ela o amava tanto que conseguiu o que queria”, conta. Foi, como escreve Kaplan, a maior reviravolta na história do “show biz” americano.

Kaplan também promete revelações sobre a parceria com Jobim. “As sessões gravadas com Antônio Carlos Jobim foram consideradas por Sinatra como uma de suas obras-primas. A conexão entre os dois foi tão mágica que durante anos a gravadora baniu a divulgação da versão de “Desafinado” por achar que era homoerótica, com um homem cantando uma história de amor para o outro. Isso, apesar de os dois serem notórios fãs do feminino. Sinatra considerava Tom a bossa nova em pessoa, um gênio musical como Duke Ellington, Count Basie, Lester Young, Cole Porter e Louis Armstrong. E absorveu o impacto emocional da bossa nova de forma intensa, apesar de não compreender de imediato as letras em português. A prova de que Sinatra estava certo é a retenção do poder das músicas de Tom Jobim com o passar do tempo. Os dois tiveram uma conexão intensa e pessoal, com uma afeição mútua que é palpável, nos discos e nas fotografias.” Mas esta é uma outra história, guardada para o segundo tomo da biografia, juntamente com detalhes sobre o show no Maracanã. “Frank: the Voice” é um belo livro, que deixa o leitor pedindo por mais ao fim de suas quase 800 páginas.

4 Responses to Frank Sinatra: A Voz

  1. Parabéns pelo post!
    Existe alguma previsão desta biografia ser traduzida para português?
    Abraço!

  2. Antonio Carlos Cunha disse:

    Já existe previsão para lançamento desta biografia (Frank the Voice)
    em Portugues.
    Aguardo sua informação

    Grato e parabens pelo texto publicado.

    Abs.

    Antonio Carlos

    • Eduardo disse:

      Olá meus caros, obrigado pelos comentários aqui no blog. Ainda não há previsão, infelizmente. O melhor caminho ainda é a Amazon, creio…

  3. vanessa disse:

    amo o Frank sinatra.

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