Eduardo Graça

Política e Economia

Entrevista: Mohamed Bazzi

O Terra Online publicou hoje meu texto sobre a conferência de imprensa com o professor da Universidade de Nova York (NYU) e meu colega jornalista Mohamed Bazzi, premiado especialista em tópicos relacionados ao Oriente Médio, sobre os movimentos populares no Líbano, Tunísia e Egito. Segue o texto:

Crise árabe coloca Washington em posição difícil, diz analista

EDUARDO GRAÇA
Direto de Nova York

Professor de Jornalismo da Universidade de Nova York (NYU), Mohamed Bazzi foi chefe do escritório do Newsday no Oriente Médio entre 2003 e 2007. Ele viveu em Beirute durante esses quatro anos e comandou a equipe responsável pela cobertura da invasão do Iraque pelo governo americano durante o governo Bush para o maior jornal de Long Insland, o mais importante do subúrbio de Nova York. Um dos principais especialista em Líbano do Council of Foreign Relations (CFR), Bazzi cobriu a intifada palestina em 2000, a invasão do Afestanistão em 2001 e a guerra entre Israel e o Hezbollah em 2006.

Bazzi escreve para a revista do New Yokr Times, a The Nation e a Newsweek, entre outras publicações. Em entrevista coletiva na sede do CFR, Bazzi diz que os acontecimentos desta semana no Líbano, com a emergência de Najib Mikati, um político sunita apoiado pelo grupo xiita Hezbollah, na Tunísia, com os desdobramento da Revolução de Jasmin, e no Egito, com as manifestações gigantescas nas ruas das grandes cidades do país, podem modificar a política norte-americana para a região e alterar a geopolítica do planeta.

Como o senhor vê a atuação do governo Obama no momento em que as tensões no Oriente Médio aumentam de escala, não apenas no Líbano, mas também na Tunísia e no Egito?
É muito difícil, neste momento, prever o que vai acontecer no Egito. Estou acompanhando atentamente os protestos nas ruas das grandes cidades do país e amanhã veremos qual será o efeito do retorno do principal nome da oposição, Mohamed ElBaradei, vencedor do Prêmio Nobel e que tenta unificar os grupos descontentes com o governo Mubarak em torno de seu nome. Washington está em uma posição muito difícil. O governo Obama tenta exercer uma política coerente, mas Mubarak é um dos maiores aliados dos EUA no mundo árabe. Ele é o maior símbolo da decisão de se priorizar a estabilidade e não a democracia, na região, pelos americanos.

O discurso de Barack Obama no Cairo, logo depois de ser eleito, foi muito bem-recebido no mundo árabe…
Foi um discurso eloqüente e houve sim um grande entusiasmo popular. Mas rapidamente a velha questão filosófica de Washington, estabilidade versus democracia, engessou sua política externa. O que esta semana talvez revele de mais interessante do ponto de vista de Washington é justamente o fato de que estes regimes totalitários não são mais estáveis. Não tenho dúvida de que há um enorme debate no governo sobre de que lado da História a administração Obama quer ficar. É um momento delicado e dificílimo de se prever para onde a balança de Washington vai pender depois da semana que passou.

O senhor crê que o presidente Mubarak ainda consegue se sustentar no governo ou há a possibilidade de se repetir o que vimos em Túnis há duas semanas?
Mubarak ainda conta com o apoio da elite e das Forças Armadas, mais um motivo para Washington se manter cauteloso. Na Tunísia, as forças armadas abandonaram o governo Ali.

Qual o papel dos grupos islâmicos radicais nos eventos que vimos tanto no Líbano quanto no Egito e na Tunísia este mês?

Na Tunísia, os grupos religiosos radicais foram dizimados, não tiveram grande importância na Revolução de Jasmin. No Egito é interessantíssimo notar a participação majoritária de jovens, profissionais liberais, trabalhadores e movimentos seculares. Os mega-protestos de amanhã (hoje) nos dirão a força da Irmandade Islâmica, o principal grupo religioso islâmico de oposição no Egito. No Líbano, precisamos levar em conta que o Hezbollah é um grupo bem diverso da Irmandade. O país também é bem mais diverso, e, neste sentido, não seria honesto incluir as três nações em um mesmo saco.

Quando o primeiro-ministro libanês Rafik Hariri foi assassinado, houve um consenso de que os responsáveis eram agentes do governo sírio. Esta percepção foi, inclusive, uma das forças de pressão necessárias para a retirada do exército sírio do Líbano. Quando é que a suspeita se moveu de Damasco para o Hezbollah?
Esta é uma pergunta que muitos libaneses se fazem. Ainda teremos de esperar pelas próximas seis semanas, quando os primeiros relatórios oficiais da investigação deverão ser divulgados. O que se fala em Beirute é que políticos sírios e libaneses serão acusados por crime de conspiração e terrorismo, talvez atingindo até mesmo o governo iraniano.

Um dos primeiros atos de Saad Hariri, filho de Rafik, quando assumiu o governo em junho de 2009, foi o de estabelecer boas relações com Damasco…
Exato, foi uma espécie de condição para manter um governo de união nacional com maioria no Parlamento, que durou 14 meses. No verão do ano passado ele foi a Damasco e, para o choque de muitos libaneses, de certa forma absolveu o regime sírio da responsabilidade para a morte de seu pai. Logo as suspeitas recaíram sobre o Hezbollah, que, no entanto, acusa as testemunhas que apontam o dedo para eles, de serem instrumentos de um complô para atingirem seu grupo político.

Em que medida a tensão entre xiitas e sunitas é responsável pelos protestos nas ruas de Beirute esta semana?

Em 1943 quando o Líbano se tornou completamente independente da França as lideranças nacionais estabeleceram um pacto dividindo os principais cargos políticos entre os grupos religiosos do país, incluindo os cristãos. Tradicionalmente, o primeiro-ministro é um muçulmano sunita. Mas boa parte da comunidade vê o sunita Mikati como mais próximo da Síria e do Hezbollah do que dos próprios libaneses sunitas. Se a tensão entre sunitas e xiitas continuar, a tendência é o conflito ganhar escalas regionais. A Arábia Saudita se vê como protetora da comunidade sunita no Líbano e o Irã é o principal financiador dos xiitas agrupados no Hezbollah.

O senhor diria que Mikati é um político anti-americano?
Não, esta seria uma simplificação perigosa. Ele sabe que precisa trabalhar com Washington. Mikati não é apenas o candidato do Hezbollah, ele representa vários outros fatores. Ele ainda está formando o governo e está se movimentando na direção de um governo de união nacional, conversando com independentes e até mesmo algumas personalidades que circulam em torno da família Hariri.

Qual o papel da Arábia Saudita e da Síria no novo cenário no Líbano?

Desde o verão, Riad e Damasco estavam trabalhando em torno de um acordo que manteria Hariri como primeiro-ministro, desde que ele cortasse todos os laços do governo libanês com o tribunal internacional. O Hezbollah diz que houve um comprometimento neste sentido de Hariri, que, no entanto, no último minuto, abandonou a ideia, gerando a crise de confiança da semana passada e a decisão do partido xiita de deixar o governo de união. Hariri diz que os sírios, por sua vez, não cumpriram a promessa de desarmar grupos palestinos exilados no Líbano e que o Hezbollah se recusou a desarmar sua milícia em bairros de Beirute. Mas houve, esta semana, um silêncio estranho vindo de Riad, o que gerou suspeitas de que a Arábia Saudita tenha dado sua bênção ao governo Mikati.

O senhor diria que o cenário no Líbano lembra os momentos que antecederam a guerra civil dos anos 1970?

Há muita especulação neste sentido. Acho que estivemos perto disso em 2008, quando o Hezbollah tomou Beirute Ocidental. Mas a situação hoje é a de que o Hezbollah é tão poderoso, é tão mais forte do que as demais facções, em armamentos e apoio político, que criou um desequilíbrio de forças bem diverso da queda de braço da segunda metade dos anos 1970. Daí o apoio dos drusos, que representam 5% da população, e que foram cruciais para a queda de Hariri. Seus principais líderes perceberam que Hariri não tinha forças para lutar contra o Hezbollah e decidiram se unir aos mais fortes.

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