Eduardo Graça

Entrevistas

Crise na Tunísia – entrevista com Steven Cook e Jared Cohen

Especialistas: é cedo para prever possível democracia na Tunísia

Eduardo Graça
Direto de Nova York

Dois dos mais destacados especialistas no mundo árabe na academia americana se disseram céticos em relação a uma onda de democratização na região a partir da chamada Revolução de Jasmim, que derrubou na semana passada o governo de Zine al Abedine Ben Ali, há 23 anos no poder. Os dois afirmaram que o telefonema conciliatório dado pelo presidente Barack Obama ao líder egípcio Hosni Mubarak é um sinal de que Washington não usará a Revolução de Jasmim como pretexto para pressionar mais incisivamente por reformas políticas na região. Também disseram ainda ser muito cedo para prever se uma democracia liberal, nos moldes ocidentais, substituirá a ditadura tunisiana.

O cientista político Steven Cook, que está escrevendo um livro sobre as relações entre os EUA e o Egito, e o ex-assessor do Departamento do Estado Jared Cohen, autor de Children of Jihad: A Young American’s Travels Among the Youth of the Middle East, destacado investigador do uso da mídia social e da internet como formas de mobilização de massas, conversaram com jornalistas de todo o planeta na sede do Council of Foreign Relations (CFR) sobre a crise no norte da África e o impacto dos acontecimentos de janeiro na região dominada por governos autocráticos e acossada por movimentos de cunho fundamentalista islâmico.

“Acabamos de encerrar a primeira fase da Revolução de Jasmim, com a deposição de Ben Ali. Agora começa a parte mais difícil, a transição de um sistema político para outro, que não será linear. A questão agora é saber como o aparato militar tunisiano, que aparentemente apoiou a revolta popular, vai se portar. A oposição não aceita um governo de união nacional e pressiona pela completa reestruturação da ordem política tunisiana, o que seria extraordinário”, diz Cook.

O cientista político viaja para o Egito na próxima semana e lembra que no dia 25 de janeiro celebra-se o feriado nacional do Dia da Polícia e que protestos gigantescos estão sendo esperados, concentrados no Cairo. A situação política no Egito é especialmente delicada devido à frágil saúde do presidente Hosny Mubarak, que deve deixar o governo este ano, depois de três décadas de pulso forte no comando do país. “Será uma prova real da influência da Revolução de Jasmim. Mas creio que os egípcios já se preparam para fazer algumas acomodações econômicas, enquanto mantém a repressão política”, diz.

Cook lembra ainda que o preço alto dos alimentos – a explosão das matérias-primas que ajudam a economia brasileira a ganhar mais fôlego – é um fator importante na mobilização da oposição no mundo árabe. “Prova disso foi o anúncio na semana passada do governo da Jordânia de subsidiar certos produtos da cesta básica, logo após os primeiros protestos públicos em seguida aos acontecimentos em Túnis”, diz.

Para Jared Cohen, é importante frisar que não foi a internet, o facebook ou os celulares que possibilitaram a Revolução de Jasmim, mas é inegável seu aspecto congregador e sua funcão de substituir uma imprensa censurada e controlada pelo governo central. “Não vamos confundir ferramentas com ideias. Há, é claro, uma diferença grande se compararmos com os movimentos democráticos de 1989, no Leste Europeu, ou mesmo com as explosões populares da década passada”, afirma.

Ainda segundo Cohen, “uma revolução popular não existe sem a população nas ruas, arriscando suas vidas. Na Tunísia, a tecnologia acelerou este processo, disseminou imagens, mostrou a muita gente que era possível protestar, que era importante ir para as ruas, que não era tão arriscado assim se organizar e perceber que a causa era a mesma para todos os envolvidos no protesto. Eles acabram sendo usados para guiar a imprensa nacional e internacional, que passaram a levar as manifestações a sério. Mas realidade é que não existe uma Revolucão do Twitter”.

A seguir, os principais tópicos abordados pelos especialistas na conversa com os jornalistas:

Onda democrática
Cook: “O que acontece na Tunísia está sendo obervado de perto e com muita cautela por todos os governos do norte da África e do Oriente Médio. A oposição em centros importantes como Cairo e Amã, está tentando aprender lições com o que aconteceu em Túnis. Mas não há, no momento, qualquer indício de que uma onda revolucionária se alastrará pelo mundo árabe”.

Importância da tecnologia em manifestações populares
Cohen: “Um efeito importantíssimo das redes sociais em países como a Tunísia ou a Moldávia, que viveu algo similar em abril de 2009, é a sensação da população de que ela está sendo vista pelo mundo. Em países que não costumam receber grande atenção da imprensa convencional, esta é, de certa forma, uma revolução. Foi por conta desta inédita exposição proporcionada pelas redes sociais que a Moldávia, o país mais pobre da Europa, conseguiu realizar eleições mais ou menos livres este ano. Espero que algo similar ocorra na Tunísia”.

Cohen: “Outro fator importante das redes sociais é acabar com a janela de invisibilidade da situação da Tunísia em outras partes do mundo árabe. As pessoas estão se relacionando, no mundo árabe, por conta da tecnologia digital, de uma maneira que era impensável anos atrás. É importante lembrar que Síria, Irã, Líbia e Egito bloqueiam vários sites e aumentaram a vigilância à internet depois dos acontecimentos na Tunísia. O Irã, desde a reeleição do presidente Ahmadinejad, infiltra blogueiros entre os dissidentes”.

Cook: “Em menor escala, a Arábia Saudita faz o mesmo. E o Egito faz um severo monitoramento do que se é falado sobre o país tanto no exterior quanto internamente desde 2004″.

Papel de Washington
Cook: “Na semana passada, em Doha, a secretária de Estado Hillary Clinton foi dura sobre a necessidade de reformas políticas e econômicas na região. Há uma oportunidade real para a administração Obama aprofundar esta questão. A Tunísia é um aliado secundário de Washington, não há interesse estratégico fundamental, mas Obama deixou claro que não vai aproveitar a Revolução de Jasmim pra pressionar Cairo, Argel ou Amã, por exemplo, com o telefonema dado a Mubarak. Há o medo de que o caos acabe substituindo governos autoritários que, no entanto, são aliados impotantes na luta contra o fundamentalismo islâmico e grupos terroristas. Washington vai seguir apostando numa mudança lenta e gradual nestas países”.

Cohen: “De forma geral, não há, dentro da adminsitração Obama, uma iniciativa de se repensar a política para região por conta da Revolução de Jasmim. E seria uma bela oportunidade para se investir em programas de reconstrução, de avanços sociais”.

Papel das forças armadas
Cook: “O problema das estratégias de construção de democracia nesta região é a ausência de movimentos políticos organizados de oposição. Se Mubarak cair no Egito, não há um sistema alternativo para substituí-lo, apenas as forças armadas. Por isso a importância de se saber qual serão as reações das Forças Armadas da Tunísia nas próximas semanas”.

Líbano e o petróleo
Cook: “A situação no Líbano é completamente diversa e não pdoe ser colocada na mesma posição do norte da África ou mesmo da Jordânia. Não há grande conexões a serem feitas aqui. Também não creio que haverá qualquer efeito nas exportacões de petróleo a não ser que na semana que vem as manifestações no Egito ganhem dimensões gigantescas e forcem as forças armadas a tomar medidas mais drásticas”.

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