Eduardo Graça

Cultura

Capitão América – o filme

Avante, Vingador!

Filme do mitológico Capitão América é o projeto mais ambicioso da Marvel
Eduardo Graça
Especial para O GLOBO, de LONDRES

Não há como negar a decepção. Chris Evans, cabelo liso jogado para o lado numa franja, se protege do gélido outono inglês vestindo um enorme casaco por cima de uma camisa negra e uma gravata. Calça jeans e tênis dão um tom jovial, mas não há nem sinal do uniforme vermelho, branco e azul, marca registrada do Capitão América, personagem mitológico das HQs. “Capitão América: o primeiro Vingador”, que chega aos cinemas brasileiros no dia 29 de julho, é um dos filmes mais aguardados de 2011. Uma produção estimada em mais de US$ 140 milhões, o longa-metragam é considerado pelo chefão do Marvel Studios, Kevin Fiege, sua última joia da coroa a receber tratamento de luxo de Hollywood. Durante 12 anos, a Marvel lutou à cata de um roteiro à altura do Sentinela da Liberdade que tivesse coerência (e relevância política) após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

- É o nosso projeto mais ambicioso. Além de ser um de nossos calendários de filmagem mais extensos, o número de explosões, a quantidade de veículos criados especialmente para o filme, incluindo tanques gigantescos, faz dele nossa maior produção cinematográfica – diz o produtor Stephen Broussard.

A reportagem do GLOBO acompanhou de perto o 73 dia de filmagem de uma maratona com duração de quase três meses. Na ocasião, filmava-se a explosão do laboratório comandado pelo personagem do ator Dominick Cooper, Howard Stark (pai de Tony Stark, o Homem de Ferro, vivido no cinema por Robert Downey Jr.). Evans, de 29 anos, conhecido dos fãs da Marvel por seu Tocha-Humana nas duas encarnações hollywoodianas do Quarteto Fantástico, expolode em músculos por baixo da roupa. O ator se submeteu a uma dura rotina de exercícios para a transformação central do filme: a do franzino Steve Rogers no supersoldado criado para defender a democracia.

- Não vou mentir. Não sei, por exemplo, dirigir moto. Não rola. E o Capitão pilota uma Harley-Davidson. O dublê, no caso, é que se vira. Mas fiz a maioria das cenas de ação, especialmente as que exigem ângulo de filmagem mais estreito – conta o ator.

A câmera em questão é a de Joe Johnston, diretor de “Parque de Dinossauros III” e “O Lobisomem”, ou, mais importante, um dos responsáveis, no início de sua carreira, pelos efeitos visuais de “Os Caçadores da Arca Perdida”.

- Que vem a ser, não por acaso, o meu filme favorito de todos os tempos. A conexão, para mim, é clara. O espírito de aventura em uma época específica da História estará presente no nosso “Capitão América” também – diz Broussard.

A comparação com uma das marcas de maior sucesso do cinema de entretenimento não é involuntária. Do sucesso de “Capitão América” depende a próxima empreitada do estúdio criado exclusivamente para levar ao cinema os heróis Marvel: “Os Vingadores”. Com direção de Joss Whedon, roteirista do primeiro “Toy Story”, o projeto reunirá Downey Jr., Evans, Scarlett Johansson (Viúva-Negra), Mark Ruffalo (Hulk), Jeremy Renner (Gavião Arqueiro), Chris Hemsworth (Thor) e Smauel I. Jackson (Nick Fury), no maior desfile de heróis da História. A estreia deve ser em 2012, e Chris Evans já assinou, entre sequências do Capitão América e dos Vingadores, um contrato milionário de seis filmes.

- Quando começamos as filmagens, morri de medo. Mas logo pensei como é bom ganhar a vida fazendo aquilo de que mais gosto. E hoje digo a você, com a maior sinceridade: jamais trocaria a oportunidade de encarnar o Capitão América no cinema por qualquer outro filme. É o máximo! – diz.

Se Chris Evans não usava seu traje a rigor para zanzar pelos 17 galpões dos estúdios Shepperton, anteriormente uma mansão do século XVII no subúrbio de Londres, a sensação de deslocamento no tempo era intensificada pela quantidade de figurantes em uniformes da Segunda Guerra Mundial. O filme conta a história de Steve Rogers, o o homem que, através de uma série de experimentos, transforma-se em um lutador sem igual, sintetizando o mito do super-soldado ianque, em oposição aos idealizados guerreiros arianos da propaganda nazista. Sua arma é um escudo geito de metal raro, o adamantium.

O presonagem nasceu das mentes do escritor Joe Simon e do ilustrador Jack Kirby, interessados em utilizar as HQs para entrar na discussão entre isolacionistas e pró-aliados que tomara os EUA de assalto. A primeira edição de “Capitão América” chegou às bancas em dezembro de 1940, um ano antes do bombardeio de Pearl Harbor. Uma de suas imagens mais icônicas é o soco dado pelo herói em ninguém menos do que Adolf Hitler. O resultado? Um milhão de cópias vendidas, um número maior do que a circulação da “Time” na época.

O Roger de Evans é um patriota decidido a lutar contra o Eixo, mas sem a qualificação física exigiga pelas Forças Armadas americanas. Ele será transformado no Capitão América e vai contar com um parceiro supimpa, vivido por Sebastian Stan, para enfrentar os criminosos da Hidra, e um vilão barra-pesada, o Caveira Vermelha. A mente por trás da indústria bélica nazista, o Caveira é encarnado por Hugo Weaving, de “Priscilla, a Rainha do Deserto”, o Agente Smith de “Matrix”. O Caveira tem como aliado o cientista Armin Zola (Toby Jones). O interesse romântico do Capitão é a major Peggy Carter, vivida por Haley Atwell. E não é segredo que o filme termina depois da guerra, exatamente como no universo dos quadrinhos, com o corpo de Rogers preservado para uma possível volta, décadas depois, comandado os Vingadores.

A singularidade do Capitão América n o universo Marvel se revela principalmente em seu uniforme, com as cores da bandeira americana e uma imensa estrela no meio. Em um momento em que se discute nos EUA se é ético o uso de aviões teleguiados para atingir alvos vivos nos conflitos da Ásia como maneira de evitar perdas humanas, não deixa de ser irônica a aposta de Hollywood no supersoldado ianque para levar o público ao cinema. Há a ideia de que, em determinados países, o longa venha a ser lançado apenas com seu subtítulo “O primeiro Vingador”.

- O Capitão América foi, sim, uma peça óbvia de propaganda. Não quero dizer aqui que os EUA estão sempre no lado certo dos conflitos armados em que se envolvem, mas o que os criadores queriam era um personagem que mostrasse a importância de se lutar contra os horrores do nazismo – diz Evans. – Ele poderia ser chamado Capitão do Bem, por exemplo. Este filme não é sobre a América do Norte, mas sobre um herói, que é, essencialmente, um bom sujeito.

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