Eduardo Graça

Cultura

Perfil: Russell Crowe (72 Horas)

Quando o Gladiador Vira Gênio do Crime

Em Clima de ‘Paz e Amor’, Russell Crowe fala de “72 Horas”, filme do diretor Paul Haggis que estreia na sexta-feira
Eduardo Graça, Especial para O GLOBO, de Nova York

O elevador do Ritz-Carlton sobe preguiçoso em direção ao décimo-nono andar. À frente, perto da porta, Russell Crowe, 46 anos, alto, corpulento, barba vistosa e um séquito de assessores. No meio, turistas hospedados no hotel de luxo cujos quartos dão para o Central Park, alguns descaradamente boquiabertos, outros aparentando indiferença. Ao fundo, o repórter do Globo. Quando a porta se abre, do outro lado do corredor surge a figura de Harrison Ford, 68, cabelos grisalhos, expressão de poucos amigos. Crowe acabara de conversar com a imprensa sobre seu novo filme, 72 Horas, que estreia no Rio na noite de Natal. Ford defende a comédia Uma Manhã Gloriosa, em fevereiro nos cinemas brasileiros, algumas horas depois. Hollywood não pode parar. O encontro do Gladiador com o Indiana Jones é tão rápido quanto harmonioso. “Harrison! Vamos lá para minha suíte conversar um pouco? Acabei de enfrentar os jornalistas”. A resposta sai num muxoxo: “Quem me dera, vou começar a batalha agora. Quando sair de lá, acho você”.

Que fique claro: os dois riam enquanto criavam imagens nada atraentes de seus encontros com a imprensa. Esqueça a fama de temperamental. O homem que foi parar em um distrito policial de Manhattan depois de jogar um telefone na cabeça do concierge do hotel Mercer, no SoHo, porque não conseguia falar com a mulher para saber notícias de seu filho de poucos meses, na Austrália, parece ter mudado do vinho para a água. Cinco outonos depois, poucos astros de Hollywood conseguem ser ao mesmo tempo objetivos e calorosos com os repórteres como o australiano nascido na Nova Zelândia. Quando a assessora do estúdio responsável pela distribuição de 72 Horas começa a recitar o funcionamento da entrevista, por exemplo, Crowe a interrompe, com um sorriso no rosto: “Mas, é claro, se o repórter quiser cantar, dançar, mostrar o seu talento, estaremos todos felizes em observar o seu desempenho”.

A brincadeira com American Idol, um dos maiores campeões de audiência da tevê americana, tem razão de ser. Em uma bancada, tal qual os jurados do show de calouros mais famoso do planeta, estão Crowe e seus colegas de trabalho: Elizabeth Banks, que vive sua mulher do thriller, uma adaptação do francês Tudo por ela, dirigido por Fred Cavayé; e o diretor Paul Haggis, roteirista de dois vencedores de Oscar, Menina de ouro (sob a batuta de Clint Eastwood) e Crash – no limite, em que também assina a direção. Do outro lado, um pequeno grupo de jornalistas dos quatro cantos do planeta. Crowe, que hoje não tem nada de Simon Cowell, o mal-humorado magnata britânico do entretenimento, idealizador do Idol, não para de falar: “Você mudou a armação dos seus óculos, menino! Não eram vermelhas? Não tente me enganar que eu sei bem quem você é!”, brinca. E quando Haggis corre para responder a primeira pergunta, que, no entanto, era direcionada ao ator, Crowe não se faz de rogado: “Cara, a pergunta era para mim!”. E assovia o tempo todo uma música não-identificada até o diretor se dar por vencido e passar a palavra.

Incansável também no mundo da ficção, em 72 Horas Crowe é John, um professor de literatura de uma pequena universidade que se transforma em um gênio do crime para conseguir entrar em uma prisão de segurança máxima no interior da Pensilvânia afim de libertar Lara, sua mulher, acusada, a seu ver injustamente, de assassinar a chefe depois de uma dura discussão. Quando a Justiça ianque os deixa ao deus-dará, ele se divide entre os cuidados com o filho pequerrucho, compreensivelmente abalado, e as maravilhas da internet. No YouTube, ele descobre como fazer cópias ilegais de chaves. Através da Amazon, ele encontra o memorialista – vivido por Liam Neeson – que detalha sua fuga de sete penitenciárias. E o Google indica o caminho para se descobrir como usar uma bola de tênis para arrombar carros.

O crítico A.O.Scott, do New YorkTimes, destacou que o principal aspecto subversivo de 72 Horas é justamente o fato de se traduzir em uma espécie de “manual para o criminoso amador”. O venerando Código de Produção de Filmes de Hollywood, que acende a luz vermelha para a “apresentação explícita de métodos criminosos” na tela grande, foi deixado de lado por Haggis. “Mas quero deixar bem claro: nós não recomendamos que a audiência teste os métodos apresentados no filme”, diz Crowe, outro sorriso aberto no rosto rechonchudo.

Vencedor do Oscar por Gladiador e indicado como melhor ator por Uma mente brilhante e O Informante, Crowe acredita que a transformação de John não é um bicho de sete cabeças. “Meu trabalho foi fazer o público acreditar nele, em seus motivos. A audiência pode até não concordar com os atos dele, mas explicito a crença dele, sua confiança irrestrita na mulher. Ele sabe que ela é inocente e é por isso que vai pesquisar uma maneira de tirá-la da prisão. E o mero fato de, depois de as coisas não funcionarem em um primeiro momento, afinal, ele é um amador, ele seguir em frente, revela o cerne de sua transformação – sua persistência”, diz.

O ator conta que encontrou no casamento de seus pais a inspiração para a relação de profundo comprometimento entre seu personagem e o de Elizabeth Banks. “Em novembro meus pais comemoraram 49 anos de casamento. Tive a sorte, a benção mesmo, de ter sido criado em um lar cujo valor mais importante era justamente o compromisso estabelecido pelos dois, que valia para tempos bons e ruins. Foi, definitivamente, este o aspecto que mais me atraiu no personagem”, conta.

Durante as filmagens, que aconteceram em Pittsburgh, uma cidade operária, durante décadas o maior centro siderúrgico do planeta, Crowe ficou afastado da família, a mulher Danielle, 41 anos, e os filhos Charles, 7, e Tennyson, 4. “Foram 87 dias, contados nos dedos. Acabei me inspirando nesta distância real para construir as ansiedades do John. Sei que parece simplista, mas também encontro a inspiração para meus trabalhos no presente, no que acontece na minha vida no momento em que estou filmando”, conta.

A transformação do personagem

Haggis acredita que o mais interessante em 72 Horas é justamente a ambiguidade escondida na transformação de um cidadão comum em um criminoso desesperado. “Será que ele vai de fato cruzar a linha? Esta tensão é o núcleo do filme. E só poderia funcionar se escalasse um ator como o Russell, que é um camaleão. Esqueça Gladiador, em que Russell diz a que veio nos dois primeiros minutos do filme. Aqui você vai pensar: mas este infeliz jamais vai conseguir tirar uma pessoa de uma penitenciária!”, diz.

Do outro lado do balcão, Crowe finge se irritar com o “infeliz”. Pergunta, a expressão mais séria do planeta, se Elizabeth Banks já se fantasiou de gladiador em alguma festa do Dia das Bruxas, prova de seu sucesso e imensa felicidade (“Desculpe, querido, nunca”). Enquanto ela responde, Haggis lhe passa um recado, escrito em um pedaço de guardanapo, e Crowe chora de rir, produzindo um som único, algo como a risada do personagem Rabugento, do desenho animado da Hanna-Barbera. Tanta felicidade está diretamente conectada aos próximos meses, que serão passados em casa, com a família, do outro lado do planeta. Seu próximo projeto é a versão cinematográfica da série televisiva The Equalizer, com direção e roteiro do mesmo Paul Haggis, que só deve chegar aos cinemas no fim de 2012. Até lá, o gladiador, animado para passar o restante da tarde batendo papo com seu amigo Harrison Ford, é apenas Russell paz-e-amor.

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