Eduardo Graça

Coluna

Os Sonhadores da Vida Real

Coluna da semana, no Segundo Caderno, d’O Globo:

Milagres de Natal são uma tradição nova-iorquina. Acontecem no cinema, na Broadway, no sopão dos dominicanos, que mata no sábado o frio dos necessitados na Igreja de São José, no coração do Village. Mas este ano o sonho não foi possível para Felipe Matos, Renata Teodoro e Deivid Ribeiro. Você talvez nunca tenha ouvido falar destes jovens, mas são atuantes líderes estudantis da era Obama. Sua luta é brava – vieram do Brasil para os EUA ainda meninos, trazidos pela família, cursaram normalmente o primário e o secundário na high school, mas, por terem entrado no país de forma ilegal, são impedidos de se matricular na universidade. Eles são conhecidos como dreamers, ou sonhadores, por jogarem todas as fichas na aprovação do Dream Act.

Ao completarem 18 anos, os sonhadores desaparecem da vida comunitária norte-americana como se fantasma fossem. Neste fim de semana, o Senado não conseguiu reunir os 60 votos necessários para a aprovação do Dream Act. Faltaram cinco. Seria o milagre natalino aguardado por aproximadamente 65 mil jovens não documentados que vão se graduar este ano nas escolas secundarias do país e foram, nas palavras do senador Richard Durbin, do Illinois, “criados nos EUA, aprenderam a cantar o hino em nossas salas de aula, a jurar a nossa bandeira, a acreditar em seus corações que este é o seu país”.

A coragem dos sonhadores é comovente. Centenas de jovens ocuparam as galerias do Congresso, becas na cabeça, mãos-dadas, acompanhando o resultado da votação. Que fique claro: ao se exporem publicamente, todos correm o risco de serem deportados. Por outro lado, se aprovado, o Dream Act (acrônimo de Development Relief in Education for Alien Minors), idealizado há uma década, oferece um caminho para a cidadania de estudantes trazidos aos EUA por seus pais, desde que tenham imigrado até os 16 anos, não tenham antecedentes criminais e estejam matriculados na escola. Esse é o caso de Felipe, que veio do Rio, com parte da família, aos 14 anos. A anistia é apoiada pelo presidente Obama e fez renascer o movimento estudantil norte-americano. É hoje a principal bandeira da United States Students Association (USSA), o equivalente à UNE por aqui, com mais de 4,5 milhões de associados.

A USSA foi fundamental na denúncia da deportação do jovem Hector López, de origem mexicana, estudante da Universidade Estadual de Portland, no estado do Oregon, na Costa Oeste. López chegou aos EUA quando tinha apenas 1 ano e meio de idade e foi presidente do grêmio acadêmico e técnico do time de beisebol de sua escola secundária. López voltava da academia de ginástica quando foi abordado por um oficial da Imigração que o seguia. Um dos principais objetivos dos sonhadores é firmar um pacto com o governo Obama: jovens qualificados para se beneficiarem com o Dream Act não seriam alvos preferenciais dos oficiais federais.

Os defensores do Dream Act lembram que os milhares de estudantes não documentados são uma força de trabalho e inovação de que os EUA não podem abdicar. Foram educados vendo filmes de Hollywood, jogando videogames, tornando-se fãs de beisebol e de futebol americano. São norte-americanos de fato, ainda que não de direito. Os antípodas ao projeto de lei o veem como uma possibilidade para o recrutamento de ativistas antiamericanos por grupos terroristas e o prenúncio de uma anistia mais ampla, que beneficiaria os 12 milhões de imigrantes ilegais vivendo no país. Há, ainda, a ilusão de que estas pessoas um dia seriam deportadas. Um sonho às avessas, similar ao da parcela da população carioca que ainda almeja ver retirados das favelas da zona sul os milhares de habitantes que nublam o cartão-postal da Cidade Maravilhosa ocupando alguns de seus mais belos morros.

O carioca Felipe, 24 anos, que nasceu na Santa Marta, sonha em se tornar professor. Tem sofrido ameaças de morte de grupos nativistas. Seu amigo Deivid perdeu o emprego por ser um estudante não documentado. Renata se viu impedida de se beneficiar da prestigiosa bolsa de estudos Abigail Adams, dada a estudantes de destaque, por conta de sua situação legal. Os três gostariam de contar com o apoio de Brasília, especialmente de um governo comandado por uma ex-estudante que militou politicamente quando aluna secundária. “Gostaríamos de marcar um encontro com a presidente Dilma, em sua visita a Washington, no início do ano. Temos enorme admiração por sua história de vida e sabemos que sua simpatia à nossa causa seria uma vitória importante”, diz Felipe.

No dia da votação, Felipe chorou, mas só de noite, depois de dividir palavras de ânimo com os mais jovens. Foi num longo telefonema ao amigo sonhador Juan Rodriguez, da Califórnia. “Eu me senti traído, profundamente triste, embora não derrotado. Não consigo entender por que os políticos querem nos condenar a uma vida de sombras”, diz. Ele vai passar a noite de Natal em Miami com sua família. Deve rever filmes natalinos na tevê, ouvir cantigas que falam de fraternidade e compaixão.

Se Felipe pudesse enviar um cartão de Boas Festas aos leitores do GLOBO, ele sairia mais ou menos assim: “Boas Festas! Embora dezembro seja um mês frio por aqui, não deixaremos que o voto de alguns poucos políticos destrua nossa habilidade de aproveitar o tempo precioso passado com os que amamos. Nossa luta pela liberdade civil ultrapassa disputas legislativas. Estamos repletos de esperanças em relação a 2011 e 2012. Um Feliz Natal e um próspero Ano Novo para todos. Saibam que nós estamos prontos para modificar o cenário político dos EUA”.

2 Responses to Os Sonhadores da Vida Real

  1. Roberta Brayner disse:

    Nossa Edu… Fiquei chocada… Não sabia que nos EUA era assim… Aqui na França é mais facil obter um documento legal nesse caso. E como as universidades aqui são publicas, muitos estrangeiros vêm pra ca’ estudar. Espero que essa lei passe. Tem chance dela ser votada de novo ?

    Gosto muito dos teus textos. Continue assim.

    Feliz Natal e um 2011 cheio de realizações,

    Um beijo grande,

    Roberta

  2. Eduardo disse:

    Oi Roberta! Obrigado, querida! Um Feliz Natal para você também e um 2011 maravilhoso. O projeto do Dream Act pode ser votado novamente na próxima legislatura, mas com a Casa dos Representantes controlada pelos Republicanos, e o Senado com maioria mais apertada dos Democratas, as chances de que este projeto de lei seja aprovada, ao menos até as eleições de 2012, são mínimas. Uma pena.

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