Eduardo Graça

Cultura

Desenrolando os fios da rede social

Longa-metragem dirigido por David Fincher conta a história da criação do site de relacionamento Facebook

Eduardo Graça *

Nada que Hollywood produziu este ano teve impacto cultural na sociedade norte-americana tão estrondoso quanto “A rede social”. Em uma das primeiras sessões abertas do filme em Manhattan, luzinhas acesas de celulares transformaram o cinema em algo como um show de Paul Mc-Cartney no momento das músicas mais românticas. Só que, aqui, todos passavam mensagens, em tempo real, usando o Facebook, sobre o filme que levou às telas, pela primeira vez, a história dos bastidores da criação do site de relacionamento mais badalado do planeta, com mais de 500 milhões de usuários. E, ainda que apenas uma pequena parcela deles estivessem no teatro nova-iorquino, ai do incauto que reclamasse da iluminação-extra!

Dirigido por David Fincher (de “O Clube da Luta”, “Seven: sete pecados mortais”, “O curioso caso de Benjamin Button” e “Zodíaco”), “A rede social” foi inspirado livremente no livro “Bilionários por acaso — A criação do Facebook”, biografia não-autorizada de Mark Zuckerberg, o estudante de Harvard com sérios problemas de relacionamento que criou o negócio voltado para amizades virtuais mais lucrativo da história.
Poucas escolhas de protagonistas parecem ter sido mais felizes do que a de Jesse Eisenberg. O ator de Nova Jersey fala quase sem respirar, num ritmo frenético que é uma das principais características do roteiro de Aaron Sorkin, o escriba responsávelpor coisas como a série televisi-
va “Nos bastidores do poder” e o drama “Questão de honra”.

— Posso até parecer, mas não sou o típico rato de internet. Não tenho uma página oficial no Facebook e minha principal ligação com eles, além do filme, claro, é com meu primo, que tem um empregão lá e que me falou maravilhas do Mark — conta o ator.

Mark Zuckerberg não gostou da maneira como foi retratado em “Bilionários por acaso” e deixou clara sua insatisfação em ser apresentado por Fincher como um exemplo cru, quiçá um tanto maniqueísta, dos novos empreendedores responsáveis pela construção, nas duas últimas décadas, do cada vez mais tangível universo virtual. O Zuckerberg de “A rede social” é individualista, egoísta, mesquinho, misógino e aparentemente incapaz de expressar seus sentimentos. Eisenberg discorda: — Vou defender meu personagem. O Aaron criou um ser multi-dimensional. Pude encontrar no roteiro várias facetas deste homem cuja vida pública é notória.

Entre os personagens da vida real que pipocam no filme estão Bill Gates, o brasileiro Eduardo Saverin e Sean Parker, o criador do Napster, um dos responsáveis diretos pela implosão da indústria da música na década de 90. Saverin é vivido pelo britânico Andrew Garfield. Já Parker é encarnado, com a dose exata de vaidade, pela estrela pop americana Justin Timberlake.

Severin era o melhor amigo de Zuckerberg, abandonado com requintes de crueldade depois de a empresa tomar dimensões gigantescas.
— Ele é o mais misterioso dos personagens e parece ter desaparecido depois de iniciar o processo judicial contra Mark — conta Garfield, que será o Homem-Aranha no próximo capítulo da franquia, em 2012.

O paulistano venceu a batalha, é dono de 7% do Facebook e aparece em todos os documentos oficiais como um dos co-fundadores da empresa. A batalha judicial, que começou em 2005, é um dos panos de fundo do filme que, ao contrário do livro, deixa a biografia de Zuckerberg para mais tarde e procura ser um retrato da geração logada e plugada.

“A rede social” também mostra o embate entre Zuckerberg e três colegas de Harvard que o despertaram para a possibilidade de um site
de relacionamento social voltado para o mundo universitário ianque e também foram deixados de lado na impressionante trajetória do Facebook. Timberlake lembra que o filme não pretende ser uma narrativa exata dos conflitos em torno da criação do site:

— Nós somos atores, esta é uma obra de ficção, não é um documentário. Não tenho conta no Facebook, não tuito, mas
participo de uma rede social digital voltada para o trabalho comunitário. Bem diferente do que contamos no filme. Se não entra em tópicos importantes como a privacidade e o uso das redes sociais para discussões políticas e ativismo social, o pulo de gato de Sorkin e Fincher é contar a história dos geeks como se cerzisse o que a crítica Manohla Dargis, do “NewYork Times”, batizou de “um thriller de ideias”, com palavras e conceitos, e não carros, explodindo na telona. Tudo é rápido, imediato, excitante, mas não menos significativo ou profundo.“‘A rede social’ é uma história contemporânea de grande ressonância, sobre a nova elite intelectual e econômica, contada através da velha e boa narrativa de ambição, familiar a todos nós”, resume a jornalista.

Sorkin lembra que seu desafio era contar, de forma sedutora, a história de um empreendimento surgido no dormitório de uma universidade de Cambridge, hoje uma corporação do tamanho da General Motors (GM).

— No fim das contas, escrevi um filme cujos temas são antiquíssimos: lealdade, amizade, poder, dinheiro, inveja e status social — diz.
Temas nucleares para a sociedade americana do século XXI, às voltas com a maior crise do capitalismo desde a Grande Depressão e suas extensões nos aspectos mais mundanos das vidas do cidadão comum, cada vez mais interessada em descobrir o novo eldorado e, se possível, estabelecer algum nível de contato com o outro, ainda que através de uma cutucada virtual, via Facebook.

* Eduardo Graça é colunista do GLOBO

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