Eduardo Graça

Coluna

Loco por ti de amores

A coluna-crônica da semana, no Segundo Caderno de hoje, tratando do medo atávico de relacionarmo-nos com nosso lado cucaracha:

Loco por ti de amores
EDUARDO GRAÇA, de Nova York

O padre que viaja ao meu lado abre um sorriso ao descobrir que sou brasileiro. Não me dá tempo de encontrar o livro da vez, passaporte para o silêncio nos longos voos pelo Atlântico. Ergue como um troféu o artigo da edição dominical do “Los Angeles Times”, uma reportagem sobre a construção da Transcontinental, a rodovia que ligará o Brasil ao Peru, passando pela Amazônia e os Andes, e deve ser inaugurada em 2011. O religioso, maravilhado, garante que a iniciativa é o similar sul-americano da Rota 66, a mitológica rodovia criada nos anos 20 do século passado, ligando Chicago a Los Angeles. “É a integração física da América do Sul, tudo vai mudar para vocês”, profetizou o cura, com seu sotaque californiano.

Da reportagem, agora em minhas mãos, o que ressalta são as declarações do colunista Roberto Ochoa, do jornal peruano “La Republica”: “Se a América Latina é o quintal dos EUA, então podemos dizer que o Peru é o quintal do Brasil. O que o Brasil quer é aumentar suas fronteiras e seu poder de influência em toda a área da Amazônia.” É fácil criticar os gringos. Mas tente falar qualquer coisa sobre o Brasil e a resposta, invariavelmente, é a mesma: “Mas eles são tão legais, divertidos, apaixonados pelo jogo bonito.” Somos muito gente boa, mas cultivamos um profundo desinteresse pelos nossos vizinhos. Não é incomum um olhar de desdém, de brasileiros em viagem a Nova York, direcionado a qualquer expressão por eles identificada como de cuca. De cucaracha. Amigos brasileiros que estudaram nos EUA jamais conseguiram se identificar como hispânicos ou latinos, já que não falavam espanhol em casa. O próprio termo hispânico, popularizado por aqui no governo Nixon, nos anos 70, é confuso. Sua gênese viria de Hispania, o nome romano da Península Ibérica, que inclui a velha Lusitânia.

Mas o que fica mesmo é a certeza de que este rótulo não nos serve.

Fecho os olhos como antídoto para a turbulência, percebo o padre murmurando alguma reza, e lembro que há poucos dias havia seguido o conselho de um casal amigo e testado as maravilhas do Chimu, o restaurante peruano mais celebrado do Brooklyn, que fica quase na entrada da estação Lorimer, embaixo da Brooklyn-Queens Expressway (BQE), horrendo minhocão erguido nos anos 60. Famoso pelo ceviche, o lomo saltado e o frango à brasa, o Chimu é um dos muitos restaurantes festejados de cozinha latino-americana a pipocar pela cidade nos últimos anos.

Há o Caracas Arepa Bar, com dois endereços, um na Rua 7, no East Village, e outro em Williasmburg, na Grand. Juro que só preciso de mais alguns meses para experimentar todas as 14 variações de arepas, a tortilla venezuelana, com recheios que vão de abacate e queso blanco a bife com plátanos fritos. O El Almacén, na Driggs, quase esquina com Rua 7 Nor te, também em Williamsburg, briga com o Estância 460, no Tribeca, pelo posto de melhor argentino da cidade. Há ainda o uruguaio Tabaré, mais um ponto para Williamsburg e, um pouco mais ao norte, em Greenpoint, o Cafecito Bogotá, um wine bar sul-americano decorado pelos donos Oscar e Fredy com uma imensa bandeira colombiana, onde a recomendação é a bandeja paisa, espécie de bife a cavalo com um toque extra no feijão, cozinhado com bananas.

Na coleção de restaurantes medíocres do Theater District, brilha o Empanada Mama, na Nona Avenida, quase esquina com Rua 51, o paraíso das empanadas na cidade, com destaque para a cubana (recheada com presunto, porco e queijo) e os sucos de frutas tropicais. É um dos segredos dos locais, que forram a barriga na casa de seu Sócrates Nanas depois de conferirem os melhores espetáculos da Broadway.

Abro os olhos quando já sobrevoamos a Irlanda. O blablablá cadenciado do padre agora me faz lembrar da delicadeza de meus amigos nova-iorquinos quando interessados em me cooptar para uma noite sul-americana na cidade. “Obviamente, você deve estar mais em contato com a cultura e a culinária dos países vizinhos ao Brasil do que nós” é quase sempre a introdução para experiências inesquecíveis. Mas diga você aí quais as grandes casas de culinária sulamericana no Rio? Ou mesmo em São Paulo? Pois hoje não falta aji para temperar carnes, e uma cazuela incrementada surge de minha cozinha quando as temperaturas baixam de vez. Gracias a los gringos.

O avião chega em Londres, o padre reclama do frio — “Dos dois lados da poça, meu filho, é o mesmo, o inverno chegou” — de três graus e antes de sair me faz um chamego. “Parabéns, vocês, hispânicos, são nossa última esperança.” E sigo rumo ao trem expresso do Heathrow dando graças a Nova York por ter me aproximado ainda mais de Latinoamerica.

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