Eduardo Graça

Coluna

Geografias Musicais

A coluna de hoje, no Segundo Caderno d’O Globo, sobre a safra 2010 da música africana, com maravilhas ali do outro lado do Atlântico, a que a gente pouco tem acesso aí no Brasil:

Eliades Ochoa e seu Grupo Patria, Bassekou Kouyate, Djelimady Tounkara, Toumani Diabaté. Dezesseis anos depois de imaginado, o encontro da música clássica cubana com o finíssimo baticum do Mali já é um dos eventos musicais do ano. Quando o Buena Vista Social Club, impulsionado pelo documentário de Wim Wenders e com a providencial ajuda do compositor norte-americano Ry Cooder, virou uma febre planetária, poucos não se emocionaram com dona Omara Portuondo cantando “Silencio” com seu Ibrahim Ferrer a tiracolo. Foram vendidas oito milhões de cópias do disco, e muita gente entrou em contato pela primeira vez com nomes fundamentais da música popular do continente, como Compay Segundo, Rubén Gonzalez e Elíades Ochoa. Poucos, no entanto, souberam que o projeto original, uma ideia do produtor Nick Gold, era registrar em vídeo e som o encontro dos venerandos cubanos com os gênios malineses Bassekou Kouyate (com seu inseparável ngoni, espécie de banjo africano) e Djelimady Toukara, o guitarrista-líder da mitológica Rail Band, que, em suas quatro décadas, celebradas este ano, contou com gente como Salif Keita e Mory Kante e foi uma das responsáveis pela divulgação da música cubana no Mali. Logo depois da declaração de independência da França em 1960, os malineses receberam apoio decisivo do regime castrista, incrementando o tráfego cultural entre os dois continentes.

Curiosamente, o projeto de Gold não vingou por conta da dificuldade dos malineses de obterem vistos de entrada em Cuba. Uma década e meia depois, o encontro se deu no estúdio de gravação e agora no palco do Town Hall, no começo do mês, em Nova York, sem algumas de suas estrelas originais. Seu Ibrahim morreu em 2005, Compay, dois anos antes, mesma época em que se calou o piano de González. E Bassekou Kouyaté, que além de malinês, artista e negro também é islâmico, teve seu visto negado para se apresentar em terras de Tio Sam. Pena. Mas o encontro, para um Town Hall lotado, contou com a kora (harpa africana) de Toumani Diabaté, o vocal griot de Kassé Mady Diabaté e o balafon modernizado de Lassana Diabaté, que é de Guiné. E o riff do começo de “Jarabi”, uma das minhas faixas facoritas, foi composto em 1995 por seu Compay e reinventado por Diabaté. A propósito, Diabaté é o Silva da África centro-ocidental, os músicos não são da mesma família.

Pois aproveito o espaço generoso do Segundo Caderno para iniciar a campanha: levem o Afrocubism para o Brasil. Os meninos estão agora em turnê pela Europa e há uma óbvia conexão entre a velocidade africana, o romantismo cubano e a languidez brasileira. Se a platéia branca-azeda do Town Hall pôde se emocionar e cantar em uníssono “Guantanamera”, com lindas improvisações de Ochoa, Toumani e Lassana, imaginem o que aconteceria no Brasil. E duvido que complicaríamos a vida de Bassekou Kouyaté, que entraria no país sem problemas e engrossaria o coro. Aliás, seu Elíades, 64 anos muito bem-vividos, brinca que o velho hino de Joseíto Fernandes, africanizado pela turma do Mali, é a prova de que “somos todos uma grande família”. Que os primos baixem logo no Brasil.

***
O ano vai terminando e os cadernos culturais começam a apresentar suas listas de melhores músicas, MP3s e, vá lá, discos fundamentais dos últimos doze meses. Há espaço para muita banda de indie rock, algum folk, os velhos conhecidos do pop internacional, as novidades brasileiras. Mas este foi um ano especial para quem gosta de se aventurar por geografias musicais menos óbvias. Se “Afrocubism” é um dos trabalhos mais inspirados no que se convencionou chamar de wolrd music na zona norte do planeta, aproveite as vantagens da internet e compre, correndo, “Protegid”, da portuguesa de origem cabo-verdiana Carmen Souza. Os jogos melódicos da compositora e cantora de voz originalíssima (de tecido bem menos graves do que Cesária Évora) são tão luxuosos quanto graciosos.

Muito mais funkeado, outro nome fundamental do continente negro, o ganês Ebo Taylor, 74 anos, lançou este ano, por incrível que pareça, seu primeiro álbum com distribuição nos EUA e Europa. “Love & Death” é resultado tanto da paixão descarada dos manos americanos, que vem sampleando o trabalho de Taylor de forma incansável, quanto da vitalidade do homem que influenciou Fela Kuti. Do Congo, os já populares músicos do Konono No.1 lançaram este ano seu melhor esforço: “Assume Crash Position”, gravado com o maior cuidado em Kinshasa por Vincent Kenis, um dos responsáveis, na virada dos anos 70, pelo clássico “Un Peu de l’Ame des Bandit”s, do duo belga Aksak Maboul, cujo vinil é disputado a tapa nos sebos de NYC. Quitute fino.

A safra 2010 do samba do crioulo doido mas de muito bom-gosto segue com a música do deserto dos tuaregues do Tamikrest e o hipnótico “Adagh”, o gênio do jazz etíope Mulatu Astatke com seu “Mulatu Steps Ahead” (tente não gostar de “Radclife”, a primeira faixa, que dá de cara o climão groovy desta maravilha) e, para fugir do estereótipo da música étnica, confira ainda, se tiver tempo, “Zol!”, o mix de post-punk com o mbakanga dos anos 60 do grupo sul-africano BLK JKS (assim, tudo maiúsculo), que namora com a sonoridade do TV On the Radio, aqui do Brooklyn, mas enfatizando a percussão zulu de Tsheang Ramoba. Proposta de fim de ano: dê um tempo nas maravilhas ocidentais, faça como o público do Town Hall, e se encante com o que se produz de melhor logo ali do outro lado do Atlântico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>