Eduardo Graça

Entrevistas

Entrevista: “Pato” Navia

Entrevista com a personalidade chilena, próxima do presidente Piñera, sobre as eleições brasileiras. Navia agora é professor da NYU, especializado em América Latina. Interessante ele enfatizar a força própria de Dilma, fugindo da retórica do “poste de Lula” que dominou a cobertura do resultado das eleições na grande imprensa brasileira:

Analista chileno: é preciso levar em conta as qualidades de Dilma

Eduardo Graça
Direto de Nova York

Professor do Centro de Estudos Latino-Americanos e do Caribe da Universidade de Nova York (NYU), o cientista político chileno Patricio Navia, colunista do jornal La Tercera e da revista Poder Chile, é autor de uma série de livros sobre a história de seu país depois da volta à democracia, como Mérito y competencia en el Chile de hoy, de 2006, e Las grandes alamedas: El Chile post Pinochet, de 2004.

Analista político, comentarista de canais de TV chilenos e mais conhecido pelo apelido, “Pato”, Navia vê as eleições brasileiras com olhar latino-americano, avisando que não se pode descartar a possibilidade de uma candidatura Lula em 2014. O acadêmico também lembra que transferência automática de votos, a ideia de que Lula elegeu Dilma e ponto final, não explica, sozinha, a eleição deste domingo. E lembra da imensa popularidade da presidente de seu país, Michelle Bachelet, que, no entanto, não conseguiu eleger o sucessor no ano passado, enfatizando que é preciso levar em conta as qualidades da candidata governista.

Em entrevista exclusiva ao Terra, ele também fala do machismo em nossa sociedade e diz que Barack Obama pode aprender uma lição com Lula. Abaixo, os principais trechos da conversa:

Terra – O senhor acredita que as relações entre Brasil e EUA se modificam em um governo Dilma?
Patrício Navia – Não. Brasil e EUA não são fortes aliados, mantém relações cordiais, e assim deverão seguir. Washington se enfureceu com a visita de Lula ao Irã em maio e acredito que Dilma provavelmente tentará diminuir a posição de liderança internacional, um investimento de Lula. O Brasil vai continuar afirmando sua política de proximidade, mas de independência, dos EUA.

Terra
- O senhor vê algum risco de mudança nas diretrizes da política econômica brasileira no governo Dilma?
Patrício Navia – Ao contrário, a vitória de Dilma evidencia a continuidade das políticas econômicas em vigor no Brasil. O voto no dia 31 de outubro não foi de mudança. Foi um voto claramente de continuísmo da política de proximidade com os mercados, aplicadas por Lula nos seus oito anos de governo, sem o mínimo desvio.

Terra – O senhor imagina que Lula possa se candidatar a presidente novamente?
Patrício Navia – Ele é um homem de 65 anos. Pode sim ser candidato em 2014. Acho que ele não terá uma relação tão próxima assim com Dilma. Para ela, agora, é fundamental afirmar sua própria identidade, seu próprio estilo de liderança. Historicamente, quando ex-presidentes tentaram se mover como uma espécie de eminência parda, as coisas desandaram. Das duas uma: ou a força por detrás da criatura não gosta de receber apenas críticas e não colher sozinho os louros do sucesso ou o novo presidente desenvolve um gosto pelo poder. E não é possível, no Brasil, uma acomodação como na Rússia, com Putin e Medvedev dividindo o poder.

Terra – O senhor diria que a sucessão russa, com todas as suas singularidades, é o caso mais próximo de presidente fazendo de seu sucessor uma personalidade anteriormente desconhecida da maioria da população?
Patrício Navia – Também podemos pensar em Bush pai, em 1988, que era o vice-presidente, mas que surfou na popularidade de Ronald Reagan. Mas não podemos esquecer que transferências de votos não são automáticas. Há o fato do candidato. Michelle Bachelet, no Chile, por exemplo, tinha uma aprovação de 80% e não conseguiu transformar a satisfação dos chilenos em votos para seu candidato nas eleições do ano passado.

Terra – Dilma Rousseff é a primeira mulher a ser eleita presidente no Brasil. O Chile teve Bachelet, a Argentina tem Cristina Kirchner. O senhor acredita que estas eleições são importantes ao abordarem de forma óbvia a discriminação contra as mulheres, o machismo latino-americano?
Patrício Navia – A eleição de Dilma é importante para se iniciar um processo de combate direto ao machismo. Mas assim como a eleição de Barack Obama não acabou com o racismo nos EUA, o preconceito contra as mulheres não vai desaparecer no Brasil com a eleição da Dilma. Trata-se, inegavelmente, de um grande passo para se aumentar a igualdade de gênero, mas, ainda mais importante, é uma oportunidade dada a Dilma de liderar um processo de erradicação de uma parte do machismo mais tradicional, mais arraigado entre os brasileiros.

Terra - Qual a sua expectativa para as eleições nos EUA, especialmente em comparação com os resultados brasileiros? Os analistas encaram o pleito de hoje como um plebiscito em relação ao governo Obama, do mesmo modo que as eleições de domingo seriam uma avaliação em relação à administração Lula…
Patrício Navia – Mas precisamos lembrar que Lula está encerrando um ciclo de oito anos como presidente, enquanto Obama está no fim de seu segundo ano. Talvez Obama possa aprender uma lição com Lula. Os primeiros anos do governo do PT foram marcados por uma falta de coordenação e brigas internas, dentro de sua coalizão. Quando Lula assumiu um tom mais moderado, de centro, e se focou em pontos específicos, estreitou sua agenda, mantendo as conquistas da administração FHC, tendo certeza de que seu legado estava sendo construído a partir de alguns importantes ¿ mas possíveis – objetivos, ele pôde manter a popularidade e ser reeleito em 2006. Como diz o velho ditado espanhol, se você tentar resolver tudo, acaba solucionando pouco. Lula aprendeu que é possível construir a partir de poucas, mas importantes vitórias. E terminou solucionando vários problemas para dois quadriênios como presidente.

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