Eduardo Graça

Política e Economia

Desconstruindo Barack Obama

As eleições desta semana, aqui nos EUA, foram uma cacetada na cabeça dos democratas. Conversei com algumas das cabeças mais interessantes da seara liberal para entender um pouco melhor a queda de Barack Obama, sua transformação de Messias de uma nova era em possível ebuste. O texto foi publicado este fim de semana no Valor Econômico:

Desconstruindo Barack Obama
Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Foi uma das piores semanas de Barack Obama desde que se elegeu presidente. A perda da maioria na Câmara dos Deputados, da maior parte dos governos estaduais, essenciais para sua estratégia de reeleição em 2012 (como não há Justiça Eleitoral nos Estados Unidos, o controle do processo eleitoral fica, na prática, nas mãos dos governadores) e a redução dramática da vantagem no Senado, parecia impossível há dois anos, quando seu “sim, nós podemos” era o mantra unificador de um país cansado de guerra.

Dois anos depois, seus índices de popularidade não passam de 45%, o apoio dos independentes, fundamental para sua eleição, está na casa dos 32% e o índice de desemprego beira os 10%. Para além dos números, Obama é um homem mais magro, com cabelos mais brancos, de poucos sorrisos e quase sempre na defensiva, repetindo uma ladainha que parece se resumir a um refrão pouco inspirado: “Ruim comigo, pior com os republicanos”. O presidente, cujos olhos brilhavam em discursos inflamados, com a cadência dos pastores protestantes sulistas, durante a campanha histórica de 2008, foi reduzido, nas eleições de 2010, quando termina a primeira metade de seu mandato, a aparições em programas que vão do equivalente ao Saia Justa (em uma tentativa de recuperar o voto das mulheres), passando pelo humorístico The Daily Show, os modorrentos programas de debates noturnos e até rádios independentes da Califórnia. Houve quem, como o candidato democrata ao governo de Rhode Island, respondesse a ele com um expletivo ao receber a notícia de que Obama ficaria neutro na disputa.

Magia perdida, encanto desfeito, qual Obama lidará com os anseios dos americanos nos próximos dois anos, antes da batalha pela reeleição? Um dos pontos altos do que nas rodas acadêmicas se convencionou chamar de desconstrução de Obama foi o debate entre os jornalistas Jonathan Alter e Roger D. Hodge no evento “Sim, nós podemos ou Não, nós não podíamos”, realizado em outubro, uma iniciativa da ONG The Agenda Project, criada há quatro anos por liberais influentes de Nova York, comandados pela estrategista Erica Payne.

Alter lançou em maio “The Promise”, uma análise consideravelmente positiva do primeiro ano do governo Obama. Colunista da “Newsweek” e comentarista da rede NBC, ele é também o autor do best-seller “The Defining Moment: FDR’s 100 Days and the Triumph of Hope” – coincidentemente, o livro de cabeceira de Obama durante a campanha eleitoral. Em entrevista ao programa 60 Minutes, logo após sua vitória, Obama disse que usaria algumas ideias ali expostas nos primeiros 100 dias de seu próprio governo, estabelecendo uma comparação direta entre a Grande Depressão da virada dos anos 1930, combatida pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, e a crise financeira global contemporânea.

Últimos esforços de Obama, antes do dia 3: quase sempre na defensiva, repetindo uma ladainha que parece se resumir a um refrão pouco inspirado, algo como “ruim comigo, pior com os republicanos”

Hodge, que durante o debate perguntou diretamente a Alter se “ele estava na lista de pagamento da Casa Branca”, lançou em outubro o explosivo “The Mendacity of Hope: Barack Obama and the Betrayal of American Liberalism” (algo como A esperança falsa: Obama e a traição do liberalismo americano). No livro, Hodge argumenta que, apesar de toda a argumentação messiânica dos grandes comícios de 2008, reformas reais nunca estiveram na mesa de discussão de Obama e seus aliados mais próximos. Hodge foi um dos heróis dos liberais pró-Obama na virada da década, destacando-se como combativo editor da “Harper’s” durante o segundo governo de George W. Bush, responsável direto pela publicação de reportagens históricas, como a que denunciou a farsa dos suicídios de presos na base de Guantánamo, em Cuba.

Alter diz que o último presidente a sacudir Washington com o afã de Obama foi Ronald Reagan, durante a virada conservadora do começo dos anos 1980. Obama teria evitado uma segunda Grande Depressão, promoveu a maior reforma da saúde pública americana desde a implantação do sistema Medicare, em 1965 (por outro democrata, Lindon Johnson) e ainda aprovou um estímulo à economia inédito no país, impondo US$ 288 bilhões em cortes de impostos, destinando US$ 224 bilhões para fundos educacionais, programas de saúde pública e de auxílio-desemprego e outros US$ 275 bilhões para investimentos diretos na deficiente infraestrutura do país. Hodges diz o oposto: Obama teria apenas seguido a cartilha financeira de Wall Street, já aplicada por George W. Bush, e, mais grave, intensificou políticas consideradas inconstitucionais pelos democratas quando faziam oposição a Bush, especialmente no que se refere à chamada guerra ao terror e ao tratamento dado a imigrantes não documentados.

“Lula firmou compromissos com a elite, mas tomou cuidado para não perder acesso à sua base de eleitores” – o que Obama não fez

Afinal de contas, o Obama que hoje colhe nas urnas o resultado de dois anos de recessão e arrocho financeiro é um embuste ou apenas um político que perdeu a habilidade de tocar no coração dos americanos? “É preciso fazer uma distinção entre liberais pragmáticos, como eu, e liberais ativistas, como Hodge”, diz Alter. “Os ativistas, importantíssimos em nossa história democrática, fundamentais na luta pelos direitos civis dos negros e das mulheres, são muitas vezes inocentes úteis. Não levam em conta como a política real funciona, o que de fato é possível fazer, o que se pode esperar de fato de um presidente. Política sempre vai ser a arte do possível. Quando perdemos esta verdade de vista, lá se vai a essência do fazer político. Há uma diferença entre assumir compromissos [fazer concessões para conseguir apoio a medidas importantes] e se vender. Foi assim com FDR e é assim com Obama” [que fizeram concessões].

Em artigo publicado no fim de semana passado, às vésperas das eleições presidenciais brasileiras, no site “The Huffington Post”, o economista Robert Naiman, da Universidade de Illinois, diretor da ONG Just Foreign Policy, chamou a atenção para as dessemelhanças ente as duas mais importantes eleições deste ano no Hemisfério Ocidental, vistas como plebiscitos sobre dois líderes de centro-esquerda: Lula e Obama.

Para Naiman, faltam votos aos democratas e sobram ao PT justamente por causa da natureza dos compromissos firmados pelos dois governantes nos primeiros anos de gestão. “Lula firmou compromissos com a elite, mas tomou cuidado para não perder acesso à sua base direta de eleitores.” Faltou a Obama, diz Naiman, um programa como o Bolsa Família. Seus avanços sociais, especialmente a reforma da saúde pública, não tem efeito imediato na vida dos eleitores. E a tentativa de criar um governo de união nacional teve o efeito oposto da marcha do PT rumo aos partidos centristas, maioria na coalizão responsável pela eleição de Lula.

A manutenção de uma equipe econômica ligada a Wall Street e a concessão aos republicanos na diminuição do tamanho do estímulo para se enfrentar a implosão da bolha do mercado imobiliário desmobilizaram a base de eleitores que foi fundamental para a vitória de Obama há dois anos, argumenta Naiman. O obamismo, ao contrário do lulismo, foi asfixiado pelos resultados adversos da economia e uma gama de eleitores – negros, hispânicos, jovens, antiguerra – decepcionados com a manutenção de políticas belicistas mais identificadas com George W. Bush e incapazes de responder de forma decididamente afirmativa à pergunta básica da boca de urna: “Estamos, afinal, melhor do que em 2008?” Para Naiman, esta foi uma resposta mais facilmente respondida com um “sim” pelos brasileiros em 31 de outubro do que pelos americanos em 2 de novembro.

Para Hodge, as razões da imensa perda de popularidade de Obama, visto como um fenômeno político sem precedentes até o começo deste ano, são mais profundas e passam pela traição moral aos compromissos assumidos na campanha com milhões de eleitores. “Obama se engajou no perigoso jogo da retórica dúbia. Prometeu algo que não poderia cumprir. Traiu seus apoiadores. Mas, ao mesmo tempo, houve o desejo de milhões de cidadãos de se iludirem. Seus eleitores ignoraram as evidências que já nos levavam a ver que Obama não era o agente da mudança por ele encarnado.” E mais: “Ele é um político convencional, que reinstalou em Washington a burocracia democrata e abraçou as medidas inconstitucionais, que ele criticava, promovidas por George W. Bush. Podem me chamar de ingênuo, mas isso se chama traição.”

Uma das decisões mais polêmicas do novo governo, no que analistas de todos os espectros políticos parecem concordar, foi o uso de aviões-robôs, sem pilotos, comandados de bases nos Estados Unidos, para ataques pontuais a suspeitos de terrorismo na Ásia. Os “predator drone attacks” não permitem, depois de iniciado o voo, decisões que um piloto poderia tomar para adaptar a missão a circunstâncias imprevistas, como a presença de inocentes na área visada. Ao mesmo tempo, evitariam um desgaste maior do governo, ao dar seguimento à guerra do Afeganistão, por reduzirem a exposição de soldados americanos a situações de combate – curiosamente, um dos poucos aspectos da política de ocupação militar no Oeste asiático, tão presente no debate político durante os anos Bush, discutidos com fervor no atual pleito.

Centrado nas diferenças de opinião dos principais conselheiros da Casa Branca sobre a melhor estratégia em relação à ocupação do Afeganistão, o livro de Bob Woodward, “Obama’s War”, traz o presidente dizendo que “sabia não ter mais de dois anos para resolver a situação em Cabul ou perderia a opinião pública e todo o Partido Democrata”.

Não há, no mais recente livro do legendário repórter do “Washington Post”, um dos heróis do caso Watergate e com acesso farto aos bastidores da Casa Branca desde a década de 1970, a constatação de que, em vez de uma guerra sem fim, o grande temor de Obama, o bolso vazio corroeria mais rapidamente as relações dele com sua base.

“Obama não é um político como a maioria”, diz Alter. O site PolitiFact, que recebeu um prêmio Pulitzer por checar as promessas dos candidatos em 2008, “mostra que Obama cumpriu 20 de suas 25 promessas centrais no primeiro ano de governo. Obama jamais prometeu, na campanha, terminar a guerra no Afeganistão. Ele dizia, o tempo todo, que era preciso deixar o Iraque e se concentrar no Afeganistão, e foi o que fez. Será que os liberais não estavam escutando direito?”

A resposta à questão de Alter já aparecia na pesquisa do “Wall Street Journal” e da ABC divulgada na segunda-feira, um dia antes do pleito, mostrando que 44% dos eleitores registrados ainda preferiam votar em candidatos democratas contra 41% favorecendo os republicanos, na linha do novo slogan do obamismo: “Ruim comigo, pior com eles” .

O quadro muda de figura, no entanto, quando se trata de eleitores que iriam de fato às urnas – o voto, nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, não é obrigatório. Nesse caso, em todo o país, 44% preferiam os republicanos, contra 43% para os democratas. Vê-se aí um descompasso entre Obama e sua base que, comprovado nas eleições de terça-feira, garantirá dois anos de muita dor de cabeça e frustração para o presidente e seus apoiadores.

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