Eduardo Graça

Coluna

Williamsburg

Aí vai a coluna desta semana no Segundo Caderno, do GLOBO, a primeira na casa nova, tratando das maravilhas e das idiossincrasias do bairro querido e do país distante.

Williamsburg
Nesta semana retornei de mala, cuia e laptop para o velho bairro, pulsante em suas maravilhas e contradições

EDUARDO GRAÇA, de Nova York

Não há caso de reinvenção recente tão radical de um pedaço de Nova York quanto Williamsburg, hoje uma extensão, com seus bares a cada esquina, do East Village, com o East River no meio. A zona norte do Brooklyn, quase na divisa com o Queens, foi um dos polos industriais e o lixão da cidade no século XIX, uma combinação que transformou o oleoso Newtown Creek, que separa o Brooklyn do Queens, em caso estudado na academia como um dos piores desastres ambientais da cidade. Foi meu primeiro endereço em Nova York, há exatos 11 anos, e nesta semana retornei de mala, cuia e laptop para o velho bairro, cada vez mais pulsante em suas maravilhas e contradições.

Meu novo prédio, construído no ano passado onde existia uma antiga fábrica de repolhos em conserva, recebeu de antigos moradores a alcunha de “edifício do pum”.
Tentei, sem muito sucesso, aumentar meu poder de barganha na hora de bater o martelo pelo apartamento por conta do apelido infeliz. Ele é parecido com a maioria dos novos condomínios que cercam o McCarren Park, há uma década um espaço semiabandonado, com poucas e desconexas alamedas de árvores. Hoje, além dos prédios que lembram os mais modernos da Zona Sul do Rio, ele é sede de projetos experimentais como o Green Dome, que vi nascer quando voluntários como a paisagista Liat Margolis, incentivados pela prefeitura, começaram a criar uma minifloresta no que é, hoje, um dos jardins urbanos mais singulares da cidade.

Para deixar para trás o passado de lixão, Williamsburg contou apenas com a facilidade do transporte público. A linha L conecta a avenida Bedford, centro nervoso do bairro, à Primeira Avenida, em Manhattan, em menos de cinco minutos. Afugentados pelos aluguéis abusivos do SoHo, artistas começaram a migrar para cá na década de 80. Quando cheguei, uma década depois, as galerias eram minimalistas, havia dois bons restaurantes — um tailandês, um marroquino — e era possível gritar “Paaaaat!” bem alto na janela da casa do artista conceitual Patrick Killoran para descobrir quais eram as novas da Bienal de Sydney. Williamsburg era um pedaço de Berlim estacionado do outro lado de Manhattan.

Não mais.

No rastro do bom gosto dos artistas e no faro dos restaurantes experimentais chegaram as lojinhas e butiques independentes e a rede de casas de rock e jazz mais interessante da cidade. Williamsburg se beneficiou do boom da indústria imobiliária e as velhas fábricas — inclusive as dos barões do açúcar novaiorquino, as mais concorridas, todas com vista para Manhattan — se transformaram em condomínios de luxo, muitos com sua própria linha de water taxi, uma corrida de oito minutos até Wall Street.

Enquanto o poder público reformou parques e exigiu que construtores reservassem uma parcela das novas unidades construídas para moradores de baixa renda, a iniciativa privada multiplicou as razões para se atravessar a ponte de Williamsburg: duas das melhores pizzas da cidade estão no bairro, o cult Motorino e a sensação Roberta’s, e os donos do velho Diner — única opção decente de brunch em minha encarnação anterior em Billyburg — criaram um império centrado na produção de carne do norte do estado, com seus imperdíveis Marlow and Son’s (restaurante) e Marlow & Daughter’s (quiçá o melhor açougue da cidade). A feira orgânica do McCarren Park é a única fonte de outra experiência gastronômica única: um almoço ou jantar nas mesas comunitárias do Eat, do outro lado do parque, onde tudo que se consome é produzido nas cercanias e o menu, publicado diariamente em um imenso quadro de colégio, a giz, muda diariamente. Moderno, suculento e fino.

***

O oposto do moderno, a antítese do fino, também se encontra em Williamsburg. Carl Paladino, o candidato de extrema-direita que venceu surpreendentemente as primárias do Partido Republicano para o governo de NY, e vai enfrentar o advogado-geral do estado, Andrew Cuomo, em novembro, resolveu agradar a comunidade de judeus ortodoxos, outro grupo que encontrou asilo no bairro depois da Seg u n d a G u e r r a Mundial. E escolheu o alvo fácil da comunidade gay: “É preciso lembrar às nossas crianças que a homossexualidade não é uma opção igualmente válida e feliz. Não existe nada do que se orgulhar em ser um indivíduo sexualmente disfuncional.” Paladino se diz o homem dos valores religiosos, o candidato do bem, e ao se ver alvo dos protestos de uma das comunidades gays mais organizadas do planeta respondeu que defendia a liberdade de expressão dos judeus ortodoxos.

Vire-se a bússola para o sul e o cenário, infelizmente, não é muito diverso.

A americanização da sociedade e, especialmente, da política brasileiras, que se observa com mais precisão na ascendência dos marqueteiros, também se percebe na seara dos valores sociais. O quão mais chocante é a conversa entre amigos de Paladino e seus judeus hassídicos e a do candidato a vice-presidente Índio da Costa, da chapa de José Serra, com líderes evangélicos, a fim de derrubar qualquer lei que considere crime atos públicos contra homossexuais, da mesma forma que se já pune com severidade o racismo no país? Meu Williamsburg é uma lição em duas frentes: serve de inspiração tanto para a recuperação de áreas depauperadas de grandes certos urbanos (Cais do Porto, Saúde, Gamboa?) quanto de alerta para a política rasa, que busca vencer pleitos através da alienação social de minorias.

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