Eduardo Graça

Entrevistas

Entrevista: Carmen Reinhart

A Carta Capital desta semana trouxe minha entrevista com a economista Carmen Reinhart, um dos oráculos mais consultados pelo governo Obama no que diz respeito ao futuro da crise financeira nort-americana.

Diminuir o poder dos responsáveis: Entrrevista – CARMEN REINHART |A acadêmica que serviu no FMI defende restrições aos bancos
A Eduardo Graça, de Nova York

Diretora do Centro de Economia Internacional da Universidade de Maryland, Carmen Reinhart deu, no início do mês, uma concorridíssima palestra na Universidade de Yale sobre as razões e especificidades da mais recente crise financeira global. Reinhart, que conversou com exclusividade com CartaCapital, depois de também apresentar sua visão – pessimista – do cenário econômico global no simpósio anual do Federal Reserve (Fed), é uma das autoras de Oito Séculos de Delírio Financeiro, publicado no Brasil pela Campus e um best seller nos EUA, resultado do minucioso estudo das crises financeiras planetárias nos últimos 800 anos. Seu parceiro na empreitada foi o professor Ken Rogoff, da Universidade de Harvard, colega de Reinhart no FMI, no qual ocupou o cargo de economista-chefe entre 2001 e 2003. Nesta entrevista, a acadêmica de origem cubana vaticina: a crise deve durar ao menos uma década.

CartaCapital: Passados dois anos da explosão da crise, qual o balanço da resposta do governo Obama à maior recessão desde os anos 30?
Carmen Reinhart: Um mix de medidas boas e ruins. Estou desapontada com o fato de estarmos repetindo os erros do Japão e de não sermos agressivos na reforma do setor bancário. O Tesouro intimidou-se diante do tamanho do problema e hoje, aqui nos EUA, vamos fingindo que está tudo bem no setor bancário, que há mais transparência na área de investimentos e de crédito. Não há. Nesse aspecto, a política do governo Obama foi bem falha. Mas tanto a velocidade dos pacotes de estímulo econômico quanto a nova política monetária são pontos positivos. Claro, houve falha na hora de transformar o estímulo em política real, em sua execução, mas o movimento de se fazer algo grande e rápido foi adequado.

CC: A senhora não concorda então com seu colega Paul Krugman, que aponta o tamanho dos pacotes de estímulo econômico (segundo ele muito tímidos) como a principal razão para a economia norteamericana não ter voltado a deslanchar.
CR: O problema não é o tamanho do estímulo, mas a maneira como o investimento foi executado. Sim, no furacão da crise, no começo do governo Obama, o estímulo poderia ter sido maior. Mas esta crise não começou com uma deficiência de políticas do Poder Executivo ou com uma retração natural da demanda. A crise foi causada exclusivamente pelo setor financeiro, pela baderna que lá se instaurou. É importante relembrar às pessoas a origem desta crise. Agora estamos reagindo, aqui nos EUA, não às causas da crise, mas aos resultados desta crise: o desemprego brutal e as deficiências na demanda. Esta crise não vai se resolver até que o setor financeiro lide com suas profundas deficiências.

CC: A senhora diria que a administração democrata não conseguiu explicar para os norte-americanos que se vive um período extraordinário?
CR: O governo Obama tem sido extremamente relutante em revelar a dimensão real da crise para a população. Em Oito Séculos mostramos que a mesma ideia de excepcionalismo econômico (“As regras que se aplicam a outros países, não se aplicam ao mercado norte-americano”) usada no boom repete-se na crise. Ora, somos os EUA, não precisamos de reforma financeira ou bancária. É assim que se pensa.

CC: A senhora insiste nesse tópico.
CR: Sim, e a América Latina é o melhor exemplo do momento. Vocês viveram uma década em que os grandes montantes de endividamento paralisaram as economias. É o que hoje enfrentamos nos EUA e nas economias dos países desenvolvidos. Na América Latina, as consequências do chamado debt overhang são muito mais severas, porque se perde acesso ao capital internacional. O jogo não é o mesmo com as economias desenvolvidas, exceção feita recentemente à Comunidade Europeia, no caso da Grécia. Mas o importante é saber que o problema é o mesmo que vocês enfrentaram, e por causa disso, não adianta o governo Obama tentar resolver com política monetária e estímulo. Não vai adiantar. Vocês, no Brasil, sabem bem disso.

CC: A senhora diria que é uma constante a diminuição de poder global das economias mais afetadas pelas crises, no caso, hoje, os EUA?
CR: Sim, é inevitável. Países credores, historicamente, têm mais influência política, com ou sem crise. E não há país credor mais importante hoje do que a China. É quem tende a aumentar o poder global neste momento.

CC: E o Brasil?
CR: O Brasil está numa posição forte, especialmente porque decidiu corajosamente combater a dívida externa e, em menor nível, a interna. Exatamente quando as grandes economias e os países emergentes do Leste Europeu acumulavam dívidas. Não me canso de frisar a importância de o Brasil ter limado sua dívida externa. Trata-se hoje de uma economia muito mais resistente. Pense numa casa. Se você pede dinheiro emprestado para pagar a hipoteca e o salário do chefe da família é cortado, a coisa fica complicada. Como pagar a hipoteca? Os países do Leste Europeu estão tendo de lidar com essa realidade. Agora, no caso
do Brasil, é como se o salário tivesse sido cortado, mas o chefe da família foi prudente, não contraiu dívidas, pôde enfrentar o choque de forma bem mais suave. Há algo importante para se dizer: em relação às grandes economias do planeta, aos mercados emergentes e à sua própria história, o Brasil nunca esteve em posição tão privilegiada, em termos de endividamento, quanto durante a crise financeira global. A questão agora é se o novo governo manterá essa lição para o futuro.

CC: Como os países desenvolvidos vão sair desta crise?
CR: Para ser sincera, creio que veremos uma maior repressão financeira. Não existe jeito suave, como vocês bem sabem, no Brasil, de diminuir dívida. Não é apenas um realinhamento. É reestruturação ou quebradeira. É necessário austeridade, que ninguém gosta. É um cenário semelhante ao
que as economias desenvolvidas enfrentaram depois da Segunda Guerra Mundial, quando estavam endividadas até o pescoço. E repressão financeira não é
nada mais do que uma taxa, um imposto escondido, que todos pagam. Não tem jeito. Por isso estou chocada com a reação até branda contra a falta de punição, até o momento, à indústria financeira, que segue se premiando. E, deixando de lado qualquer julgamento ético, para sair desta crise só há um caminho: a redução, a diminuição, da indústria financeira. A parcela do setor financeiro no mercado está inchada. Nos anos 20 do século passado houve essa expansão também. Veremos nos próximos anos uma contração do setor, que ajudará os governos a lidar com suas dívidas e a diminuir os juros internos. Estamos nos movendo para o que chamo de regulamentação prudente.

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