Eduardo Graça

Cultura

Dança: Momix no Brasil

A reportagem que saiu na Bravo! de outubro, uma tarde inesquecível passada na companhia de Moses Pendleton, que teve a enorme paciência de me mostrar o jardim de onde surgiu a inspiração para seu Botânica, apresentado em turnê brasileira. O texto segue abaixo:

Dançando com os girassóis

O grupo Momix apresenta no Brasil um espetáculo novo, “Botanica”. Seu criador, o mítico Moses Pendleton, disse que imaginou os movimentos dos bailarinos olhando para o próprio jardim. POR EDUARDO GRAÇA, DE CONNECTICUT, EUA.

Por Eduardo Graça, de Connecticut

O coreógrafo Moses Pendleton, de 61 anos, diretor-artístico do MoMIX, uma das mais populares companhias de dança contemporânea do planeta, se diz um avant-gardner – trocadilho com as palavras “vanguarda” e “jardineiro” (“gardener”, em inglês). Ele mistura suas duas paixões, o balé e a natureza, em várias de suas criações. Mas talvez nunca de tão forma tão radical como em Botanica, espetáculo que apresenta neste mês em Curitiba, no Rio de Janeiro e em Ribeirão Preto. “Os brasileiros saberão como ninguém apreciar nosso novo show. Botanica é como um passeio ao Jardim Botânico do Rio, um dos mais lindos que já vi. Quero que o público vá ao teatro para tomar contato com a experiência mais sensacional da vida: o crescimento das coisas”, disse Pendelton a BRAVO!, na primeira vez em que recebeu um repórter brasileiro em sua casa. Trata-se de uma imensa residência vitoriana branca, com 22 quartos e 8 banheiros, localizada no alto de uma colina em um vilarejo rural no estado de Connecticut, nos Estados Unidos.

Pendlton diz que Botânica surgiu da observação de seu próprio quintal – um imenso jardim de 32 000 metros de área onde ele cultiva flores diversas, com especial destaque para os girassóis. “Criei movimentos parecidos com o das begônias ao vento do outono. O vento, aqui, chega a 30 milhas por hora. Sinceramente, cá entre nós, eu não preciso de dançarinos! Só preciso de uma câmera possante e um bom editor e posso coreografar de forma satisfatória um balé com girassóis de verdade”, diz ele, com a face mais séria do mundo . No palco, em Botanica, o coreógrafo efetivamente usa ventiladores imensos para simular o movimento criado pela brisa. E, com o uso de tecidos vários, cria sensações visuais e tácteis de gelo se derretendo e de água jorrando aos borbotões. Muitas das ideias foram surgindo durante o período de ensaio no celeiro transformado em estúdio, localizado a poucos metros de sua casa. A saia de contas que as bailarinas usam é fruto de um vestido de nove quilos adquirido em um brechó. Ele foi trabalhado de tal maneira que, quando a dançarina gira, forma a imagem de uma teia de aranha ao mesmo tempo molhada pelas águas intensas de uma tempestade e refletida pela luz do sol. Pendleton considera este o solo mais forte do espetáculo, o grande momento de virtuosismo de Botânica.

“Esta casa é um lugar mágico. Ela é como uma velha embarcação, o lugar em que fico em calma comigo mesmo”, diz ele. É em sua residência que Pendleton prepara fartos jantares para os amigos na primavera, bebe um bom vinho na varanda apreciando as cores do outono, e se recolhe no inverno para curtir a mulher, a diretora-assistente da companhia, Cynthia Quinn. Quando comprou sua casa, em 19.., Pendleton queria criar um jardim com alguma rapidez. Apaixonou-se, de cara, pelos girassóis. Logo expandiria sua criação para uma cooperativa orgânica a poucos quilômetros de sua casa. Para além de seu jardim, ele cuida de cinco mil girassóis em um trabalho que o consome durante todo o ano e o transformou em um fazendeiro em tempo integral, diminuindo consideravelmente suas viagens pelo mundo. “Estou, tal qual como o pintor Monet, ficando cada vez mais em meu refúgio. Na minha semi-aposentadoria, coreografo o que planto, como o mestre pintava o que colhia, diz Pendelton. “Volto assim ao meu passado, de trabalhador rural. O jardim é meu reservatório de vida. Por isso tomo conta dele com tamanho esmero”.

Na dança, Pendleton tem um estilo marcante, desenvolvido desde o grupo Piloboulos, do qual ele foi um dos fundadores, nos anos 70. Surgida nas aulas de dança contemporânea da Universidade de Dartmouth, em New Hampshire, a trupe foi a atração de abertura de uma turnê do roqueiro de vanguarda Frank Zappa com seu grupo The Mothers of Invention. Foi Zappa, naqueles tempos de movimento hippie e new age, quem primeiro percebeu a dualidade que marcaria a vida do coreógrafo: “Não, Moses, o que vocês fazem não é dança, é teatro ”. Tal confusão provém, entre outras coisas, de um certo ilusionismo cênico que marca suas coreografias. Em Botanica, por exemplo, tubos de encanamento de esgoto se transformam em minhocas. Os efeitos, impressionantes, que levam o espectador a imaginar homens-polvos cultivando o chão, preparando o inverno para a chegada da primavera, são resultado de um investimento metódico na iluminação e nos movimentos, marcas registradas do MoMIX. Sobre esse assunto, Pendelton diz: “Sempre disse que a melhor maneira de se ver o MoMIX é indo duas vezes. A primeira vez você passa o tempo todo tentando descobrir como o Moses e seus dançarinos conseguiram fazer aquilo, fica encafifado, querendo saber qual o segredo. A segunda vez, a experiência mais próxima da ideal, é a que se consegue relaxar e prestar atenção apenas no que nós estamos fazendo”.

O pai do coreógrafo era um pecuarista que sonhava em criar a vaca leiteira perfeita. Um homem que o Pendleton conheceu muito pouco. Quando tinha doze anos, seu pai se matou. Essas recordações familiares, algumas dolorosas, estão sendo resgatadas num documentário autobiográfico, cujo título provisório é Memórias de um homem com amnésia. Uma das imagens que estarão no projeto ainda em construção é uma foto do velho Pendleton, de óculos escuros, no Canadá, em meio a uma plantação de girassóis. O coreógrafo levou um susto quando encontrou a imagem, pois não sabia que ele também gostava de girassóis. “Aos 12 anos, tive duas opções. Ou me entregava ou me transformava em alguém diferente do que minha história parecia me guiar. Tinha muita raiva, mas investi em duas paixões: em manter-me um atleta e em me expressar esteticamente através do meu corpo. Para mim a vida é, no final das contas, memória. E qualidade de vida está intrinsecamente ligada na maneira como você se relaciona com o passado. Esta casa e este jardim me ajudam nesta tarefa”, diz.

O coreógrafo pouco desenha. Como alguns escritores, trabalha com a fala. Passeia por seu jardim e vai descrevendo o que vê, registrando tudo num gravador. “Desenho verbalmente. Não faço esboços convencionais de movimentos ou figurinos. Descrevo, da forma mais poética possível, um retrato, uma cena. Esta terra é o meu sanatório. Ando por aqui a esmo, em silêncio, criando meus espetáculos. E as pessoas perguntam: ‘Mas o que o senhor Pendleton está fazendo?’ Eu respondo: ‘Andando para lá e para cá, doido para ser atacado por uma ideia!’”. Botânica é, até o momento, a tradução mais exata deste originalíssimo método de criação.

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