Eduardo Graça

Coluna

Coluna: Sozinhos, de novo

A coluna desta semana, publicada hoje no Segundo Caderno, d’O Globo:

EDUARDO GRAÇA, de Nova York

Sozinhos, de novo

Aqui, como aí, a semana que entra é decisiva. Em NY, vive-se a calmaria antes da tempestade. A vitória dos candidatos mais radicais da direita nas prévias do Partido Republicano garantiu a quase certeza da vitória democrata nos pleitos estaduais, mas o cenário, fora da cidadela, é outro. Fica um gosto amargo no novaiorquino, que lavou a alma, há dois anos, nas festas que tomaram a cidade de assalto, do Harlem ao Brooklyn, vitais bastiões negros da cidade, do Queens, onde vive a massa trabalhadora de classe média, aos cafundós do Bronx, onde o que restou da miséria metropolitana pode ser observado com mais exatidão, celebrando a vitória de Barack Obama. Estamos sozinhos, de novo.

Comemorava-se o fim da era Bush, o ineditismo de um jovem negro, filho de africanos, chegar ao primeiro posto da República, mas também uma sensação de consenso há muito desejada. A primeira vez em que entendi claramente a distinção, para o cidadão da metrópole, entre viver em Nova York e trabalhar nos Estados Unidos, foi quando escutei o artista plástico francoamericano Eric Baudelaire reagir indignado a um amigo em comum, imbuído no cálculo dos anos em que o parisiense vivia em terras de Tio Sam: “Mas eu jamais morei nos Estados Unidos! Sempre vivi em Nova York.” A ideia de que os Estados Unidos são duas nações que se aturam com mais ou menos tolerância parecia finalmente ter vindo abaixo com a vitória do senador negro em estados mais identificados com o conservadorismo social, como a Carolina do Sul, o Colorado e a Virgínia. Dois anos de governo, a incapacidade de preparar os cidadãos para os efeitos danosos da crise financeira e um avanço populista da direita devem entregar, nesta quarta-feira, ao menos uma casa do Legislativo de bandeja aos republicanos.

Quando George Soros, um dos poucos milionários liberais de plantão, anunciou na semana passada que não vai dar este ano um centavo para os candidatos democratas, usou uma frase de efeito bem ao seu gosto: “Seria como se eu tentasse impedir uma avalanche.” Uma das capitais da alegria no planeta, Nova York se transformou, neste período eleitoral, em exemplo dos Estados Unidos que não beneficiam a sua população: os exageros de Wall Street, a noite boêmia e a explosão dos espetáculos de cabaré, repletos de androginia, foram colocados todos no mesmo saco por uma direita apocalíptica, que volta a rotular a velha ilha como a exceção estrangeira em um país decidido a retomar a sua vocação puritana e ordeira.

Pois a Sin City, que simbolizou a resistência interna — com seus centros acadêmicos, seu teatro alternativo, suas publicações combativas, seus sindicatos, suas associações de luta pelo direito das minorias — aos anos de estreiteza intelectual dos dois quadriênios de George W. Bush, começa a se preparar, por conta das pesquisas eleitorais, para um triste bis. E já me vejo dando uma de Baudelaire, às vésperas de um Congresso comandado pelo ultra conservador John Boehner, de olhos cândidos, sorriso alvo e a propalada intenção de voltar o relógio da História para os idos de 2001: “Eu, nos Estados Unidos? Nunca vivi lá, não! Moro há seis anos em Nova York.”

Dentre as muitas ideias absurdas apresentadas durante esta campanha eleitoral, nenhuma causou maior celeuma do que a proposta do ultraconservador Pat Sajak, que apresenta, por aqui, o programa televisivo “Roda da fortuna”. Pudera. Na “National Review”, a bíblia da direita mais aguerrida, ele questionou o direito de os f uncionários públicos sufragarem seus votos. Isso incluiria tanto os muitas vezes mal-encarados barnabés ianques — tente encarar uma fila nos Correios depois das cinco da tarde no auge do inverno — quanto soldados lutando no Afeganistão. Sajak não quer que professores votem em plebiscitos lidando com modificações na área educacional, profissionais da Saúde Pública em temas como a regulamentação dos planos de Saúde e por aí vai.

Para os (e)leitores brasileiros se consolarem, também tivemos por aqui uma candidata que foi à TV explicar, pausadamente, que não é, de fato, uma bruxa. Ela jura! Outra descobriu, com direito a feição de sincero assombro, em um palestra a um grupo de estudantes de origem latino-americana, que “vocês se parecem muito com asiáticos”. E um outro ainda anunciou que discorda da proibição de restaurantes no sul dos EUA de não atender clientes negros. Todos os três podem ser eleitos senadores na próxima quarta-feira. Votar, aqui e aí, é sempre mais difícil do que parece.

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